fração de coisas

Às vezes há um fiapo solto nesse tecido de contingências que é a vida da gente

Leandro Thomaz

Não tenho plano B

Inteligência e sensibilidade combinam com Heavy Metal?

O olhar e o ouvido atentos são capazes de revelar o que à primeira vista pode passar despercebido: uma música de um gênero nem sempre relacionado a sofisticação intelectual pode proporcionar não só a satisfação associada a uma melodia agradável, mas despertar a reflexão sobre aspectos de nossa existência.


Ao se prender a certos estereótipos que ao longo do tempo foram sendo associados ao Heavy Metal, muita gente pode se surpreender diante do que é capaz de revelar um olhar atento e sem preconceito para o que foi produzido a partir dele. Os estereótipos, sabemos, estão todos aí: “metaleiros”, “beberrões”, “drogados” etc., responsáveis por ativar mecanismos de defesa contra o perigo anunciado por quem usa roupa preta e cabelo comprido (olha outro estereótipo em ação!), de modo que não seja raro encontrar quem diga, diante dos sons distorcidos, algo do tipo “não ouvi e não gostei”.

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Caso você seja um desses, atente para as palavras a seguir:

De novo e ainda mais uma vez

"Às vezes eu me sinto como se estivesse morrendo na madrugada / E às vezes queimo como fogo / Mas ultimamente me sinto como se eu apenas fosse chover / E isso se repete, novamente e novamente... e ainda mais uma vez. //

Muitas chamas com muito para queimar / E apenas de papel é feita a vida / Oh, como eu preciso me livrar desta dor / Mas isto se repete, e novamente e novamente... e ainda mais uma vez. //

Às vezes eu choro pelo perdido e solitário / E por seus sonhos todos que serão pó / Mas ultimamente me sinto como se eu apenas fosse chover / E isso se repete, e novamente e novamente... e ainda mais uma vez".

(Letra em inglês: Sometimes I feel like I'm dying at dawn / And sometimes I'm warm as fire / But lately I feel like I'm just gonna rain / And it goes over, and over, and over again, yeah // Too many flames, with too much to burn / And life's only made of paper / Oh, how I need to be free of this pain / But it goes over, and over, and over, and over again // Yeah, sometimes I cry for the lost and alone / And for their dreams that will all be ashes / But lately I feel like I'm just gonna rain / And it goes over, and over, and over, and over again.)

Antes de mais nada, veja-se a expressão de angústia que essas palavras expressam. Elas falam de alguém incapaz de se livrar de um círculo apertado, que pode envolver extremos de melancolia e euforia, mas que, no fim das contas, vê-se esvaindo sem chance de remissão. Há a consciência de que a vida pode apresentar muitas possibilidades, mas isso não muda muito as coisas, porque ainda que haja muito para queimar, fato é que a vida é feita de papel… Uma tentativa de olhar para o outro, perdido e solitário, e também ele está enredado na mesma sina que diz que tudo será pó. Há ainda a poeticidade contida na ideia de que a sensação de perda pode ser associada a um chover de si mesmo. Temos ou não temos diante de nós um poema com qualidade nada desprezível (ainda que seja preciso considerar que se trata de uma tradução), capaz de expressar um denso sentimento, realizando o que se espera de um poema, ou seja, capacidade de expressar uma maneira de estar no mundo e problematizá-la, adensá-la, discuti-la ao menos?

Pois bem, talvez você se surpreenda (no caso de ser aquele/a que torce o nariz para o Heavy Metal) ao saber que esses versos são uma letra de música, escrita por Ronnie James Dio e executada pelo Black Sabbath no álbum Mob Rules. Ora, aqui parece se reunir tudo aquilo que, a priori, não presta, ao menos na mente de quem nutre preconceitos sobre aqueles que se chama, um tanto impropriamente, de “metaleiros”: um vocalista de heavy metal (mas cá entre nós, o melhor deles em todos os tempos!), uma banda emblemática do “metal”, e um álbum cujo capa não é nada convidativa. Mas alguém ousa dizer que a letra aí em cima não tem densidade, que ela não expressa a sensibilidade de alguém que conseguiu transpor em versos muito da angústia que pode acometer os mortais?

Mas isso não é tudo. Há que se dar o devido desconto para o fato de que da letra aí em cima está ausente aquilo que é indissociável dela, justamente a música que a acompanha. E se você chegou até aqui é porque provavelmente vai procurá-la para ouvir em algum lugar, portanto, note como a atmosfera “down” que a letra evoca é perfeitamente acompanhada pela música que emana da guitarra do mestre Tony Iommi, do não menos digno de reconhecimento baixista Geezer Butler e da bateria certeira de Vinny Apice. Há um casamento harmonioso entre letra e música, de modo que uma reforça a outra na elaboração de uma densidade lírica e sonora das mais expressivas. As músicas mais comuns são uma repetição de certos riffs, e esta não é diferente. Mas a sequência deles evoca em Over and Over uma impressão de repetição que não é das mais comuns. O solo de guitarra, por sua vez, soa como algo pontiagudo, cortante, aflitivo, sendo sustentado por um contrabaixo cujas frases transmitem a sensação de uma espiral que sobe e desce sem final marcado.

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O que foi dito aqui sobre a expressividade de uma letra obviamente serve para muitas e muitas outras músicas do Heavy Metal. Do mesmo Black Sabbath, pode-se mencionar músicas como “TV crimes” a respeito de televangelistas estadunidenses, “Computer God”, de 1992, mas já anunciando as preocupações atualíssimas com o papel da tecnologia em nosso cotidiano, “War Pigs”, uma dos maiores clássicos da banda, falando duramente contra a cultura de guerra tão presente ao longo do século XX, isso para não falar de tantas outras possibilidades que se abrem para serem exploradas nesse campo e aqui poderiam ser mencionadas, o que, no entanto, estenderia essas palavras quase ao infinito.

O importante a se notar é que, diferentemente de certo estereótipo negativo (quer dizer, todos o são, não?) que se criou no senso comum contra o Heavy Metal, o estilo tem uma contribuição das mais significativas para a cultura geral, que se traduz em termos de contestação, de abordagem de temas varadíssimos, dentre eles, como vimos aqui, o tratamento daqueles relacionados aos aspectos dolorosos, traumáticos, problemáticos do “estar no mundo”.

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Depois de muito tempo afastado desse estilo, tendo-o apreciado muitas vezes com atenção apenas no aspecto sonoro (era pôr o K-7 no aparelho e deixar rolar...), confesso que alimentei o mesmo estereótipo que ora pretendo desencorajar aqui. A distância me fez acreditar que ao Heavy Metal sobrava fúria e faltava massa encefálica, o que cheguei, inclusive, a comentar com um amigo, grande fã do estilo e profundo conhecedor dele. “Não é por aí”, me disse ele, em sua simplicidade e tato para não bater de frente comigo. Mas ele estava certo. Ao prestar atenção nas letras de muitas músicas que antes passavam despercebidas, acabei me dando conta de que há vida inteligente nesse meio. As aparências podem mesmo enganar.


Leandro Thomaz

Não tenho plano B.
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