fração de coisas

Às vezes há um fiapo solto nesse tecido de contingências que é a vida da gente

Leandro Thomaz

Não tenho plano B

Religiosos na política

É legítimo que o comportamento de todos seja alterado com base na concepção de algum grupo religioso? Debates atuais têm contraposto visões religiosas a visões laicas sobre como deve se configurar a sociedade, colocando em questão o significado da configuração republicana e democrática de sociedades modernas.


Compareci a uma palestra em que o seu autor, pastor e professor, afirmou que os evangélicos que resolvem entrar na política – e o contexto mais próximo era o de cargo legislativo municipal – não deveriam reproduzir o modo de atuação que se vê na bancada evangélica no Congresso Federal, que seria marcado pelo interesse pessoal, voltado às necessidades da própria denominação (isenções fiscais, concessões de rádio e TV, passaportes diplomáticos etc.). Ao invés disso, deveriam procurar uma prática política que fosse inspirada pelos valores do Reino de Deus. Concordei com a primeira afirmação, mas me incomodei com a segunda. Perguntei ao palestrante se, ao fim e ao cabo, a defesa dos interesses da denominação e os do Reino de Deus não eram coisas parecidas. E, se fossem, essa defesa se contrapunha às regras de convivência próprias a uma República laica, aos moldes das sociedades democráticas modernas. Assim, “reino” e “república” sugeririam modos opostos de organização social. A metáfora do reino sugere um rei e as consequentes hierarquias estabelecidas a partir da distância que se tome em relação ao trono; no reino, portanto, a desigualdade entre os homens e os privilégios estão assegurados em sua própria configuração. A noção de República moderna, ao contrário, é a de que todos são iguais perante a lei. Sugeri, a partir disso, que o político cristão não deveria se pautar pelos valores do Reino de Deus. A maneira de colocar a questão favoreceu ao palestrante, pois ele disse, corretamente, que nenhuma atuação política é neutra, o que faz legítima uma atuação dirigida pelos valores do Reino, na medida em que outros atores políticos pautariam sua ação por outros valores presentes na sociedade. Os do Reino seriam mais um, com voz e vez na praça pública.

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Sua resposta me fez continuar a pensar na questão. E, como ainda sustento minha posição, exponho a seguir as razões para isso. Em primeiro lugar, a noção de Reino de Deus é problemática por conta de sua pouca precisão. Teologicamente, não há unanimidade sobre seu significado, de modo que os “valores” do Reino serão uns para determinado grupo religioso e distintos desses para outro. Há denominações para as quais a “prosperidade” deve ser buscada e é sinal de conformidade com os valores do Reino, enquanto que, para outras, essa noção deve ser expurgada do ambiente religioso; segunda determinada compreensão, a mulher assumir a direção de uma igreja como pastora ou ministra é perfeitamente condizente com os valores do Reino, enquanto que, de acordo com uma visão oposta, ela tem funções próprias, mas, dentre essas, não está a do pastoreio; para não multiplicar demasiadamente os exemplos, vale dizer que, em épocas passadas, a defesa da escravidão não estaria em conflito com os valores do Reino, o que soa absurdo hoje em dia. Do mesmo modo que, na maioria das igrejas evangélicas, o casamento entre pessoas do mesmo sexo não faz parte das prerrogativas de quem se diz cidadão do Reino celestial.

Em suma, a definição sobre os “valores do Reino de Deus” está sujeita à particularidade das concepções teológicas das diferentes denominações e, já que o espectro de possibilidades é amplo, esses valores estarão identificados com a especificidade da interpretação teológica de cada uma delas. Assim, na noção de “valores do Reino de Deus” já entra um componente, digamos, paroquial, que não é compartilhado necessariamente nem mesmo pelos próprios cristãos evangélicos.

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Um segundo problema advém do significado dessa atuação pautada pelos valores de um grupo religioso (se numeroso ou não, não importa, porque o princípio é o mesmo). Ele significa demandar da República, na qual, em tese, todos são iguais perante a lei, a submissão de seus cidadãos a valores reconhecidos apenas dentro dos limites da vivência religiosa. Veja-se o caso da luta de algumas minorias pelo reconhecimento dos direitos civis de homoafetivos. Essa é uma demanda republicana, própria de um Estado laico, à qual se opõem os “valores do Reino de Deus” conforme difundido na esmagadora maioria das igrejas evangélicas. O político evangélico, pautado por esses valores, se opõe a uma demanda republicana. Nesse momento, o bom súdito do “Reino” se tornou um mal cidadão da República.

O que se esperaria do político evangélico? Que, mesmo às expensas de convicções pessoais, reconhecesse o caráter laico da República e não impedisse a promulgação de leis com as quais não concorda exclusivamente por confrontarem a doutrina de sua igreja. Ele é livre para expressar suas opiniões, mas deve saber que suas convicções religiosas não são base para a criação de leis de caráter universal (que devem abranger, ao menos, os habitantes da República do país). Talvez aqui ele lançasse mão de Jurgen Habermas para afirmar que “em seu papel de cidadãos do Estado, os cidadãos secularizados não podem nem contestar em princípio o potencial de verdade das visões religiosas do mundo, nem negar aos concidadãos religiosos o direito de contribuir para os debates públicos servindo-se de uma linguagem religiosa”.

Gosto dessa citação porque, além de mostrar equívocos mesmo em pensadores de envergadura, ela permite lançar a pergunta: qual o exemplo de potencial de verdade das visões religiosas do mundo? Que tipo de afirmação exclusivamente teológica pode se afirmar verdadeira sobre algum aspecto dele? Qual a base para ela, o livro sagrado? De resto, o próprio Habermas parece corrigir o equívoco da afirmação anterior: “Uma cultura política liberal pode até esperar dos cidadãos secularizados que participem de esforços de traduzir as contribuições relevantes em linguagem religiosa para uma linguagem que seja acessível publicamente”. As coisas agora parecem mais assentadas. Caso haja algum tipo de contribuição por parte do político que seja proveniente dos valores do Reino de Deus, ele deve traduzi-la para uma linguagem racional, capaz de ser discutida por pressupostos minimamente comuns, e não por aqueles partilháveis unicamente pelos membros da comunidade de fé. Trata-se, em suma, de uma educação do religioso para a convivência pública. Ressalve-se, apenas para registro, que essa educação é possível, mas dificultada pelo próprio caráter proselitista do cristianismo, pois o cristão é aquele que gostaria de ver todas as demais pessoas aderirem à mesma cosmovisão que a sua.

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Conta-se a anedota do sapateiro que se converteu e no instante seguinte pergunta a Martinho Lutero: “que devo fazer agora”? A resposta do monge teria sido: “faça sapatos bons e venda-os a preços justos”. A sugestão me parece válida para políticos evangélicos. Faça leis de caráter republicano, sabendo que, na praça pública, a pretensão é de universalidade e igualdade, e não a prevalência de valores que fazem parte de uma confissão religiosa. Um primo que morou na Austrália me contou que os muçulmanos da cidade gostariam que houvesse na piscina pública um horário exclusivo para mulheres, porque um dos preceitos da religião islâmica é o que que elas não poderiam frequentar esse lugar juntamente com homens. Os membros da administração ficaram contrariados, mas resolveram atender ao pedido, fazendo já uma concessão injustificável em um Estado laico. Poie bem, em vigor a lei, os muçulmanos requereram que houvesse um horário exclusivo para as muçulmanas, porque estas não poderiam frequentar os mesmos ambientes que as mulheres que não eram muçulmanas. Resposta da administração pública: “construam, então, sua própria piscina”. Perfeito. No espaço público, distinções provenientes de convicções religiosas não têm justificativa.

Talvez uma linha de argumentação oposta à que se apresenta aqui tratasse de afirmar que abrir mão dos valores do Reino de Deus seria dar espaço para que outros valores regulassem a atividade política dos agentes públicos. Sai o Reino de Deus, entra o mercado. Saem Paulo e a Bíbilia, entram Quem mexeu no meu queijo e Spencer Johnson, e assim sucessivamente, de modo que a(s) ideologia(s) religiosa(s) seria(m) substituída(s) por uma de cariz financeiro, marxista, LGBT etc. De fato, há que se reconhecer que a arena política é própria para o embate entre visões conflitantes sobre as diversas demandas presentes na sociedade, e, se a política é a arte da guerra por outros meios, esperar uma resolução unânime para os conflitos com base em valores republicanos não passa de uma quimera. Contudo, a diferença entre os valores do Reino de Deus e os demais citados é que o primeiro, por provir de uma instância de fé, é acessível somente aos aderentes de tal ou qual religião, enquanto os interesses financeiros, os modelos de sociedade e a luta por reconhecimento de direitos etc. atinge a vida de todos, independentemente de suas crenças. É possível debater a intenção de um político que pretende atender aos interesses de grandes empresas reduzindo impostos, por exemplo, do mesmo modo que argumentos racionais devem ser usados para se apoiar ou criticar o projeto de lei voltado aos direitos de homoafetivos. A que instância apelar, no entanto, quando o político comparece para o debate munido de sua convicção religiosa?


Leandro Thomaz

Não tenho plano B.
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