fração de coisas

Às vezes há um fiapo solto nesse tecido de contingências que é a vida da gente

Leandro Thomaz

Não tenho plano B

Um romance bom como cerveja

Se o livro de história nos informa e convida à interpretação de um acontecimento, mormente com um olhar mais panorâmico e interessado em dados precisos, o romance nos oferece “estruturas de sentimento” (R. Williams) possíveis de serem encontradas nas vidas individuais que o viveram.


Malditas fronteiras nos oferece outros pontos de vista. Afirmação, de início, quase redundante, senão banal, pois quase qualquer romance faz isso. A diferença é que o escrito por João Batista Melo faz isso bem, e aí reside seu destaque. Isso significa que as personagens se mostram por perfis que são delineados aos poucos, mas mantêm uma tensão constante e convincente com o ambiente em que circulam. Sua vivência nesses ambientes nos põe em contato com outras maneiras de enxergar o mundo. O início, com Erika fugindo de uma Alemanha cada vez mais persecutória de judeus e adeptos de pensamentos de esquerda (“esquerdista” é um adjetivo cujo uso já é impossível para quem quer qualificar alguma coisa com um mínimo de seriedade), é um bom exemplo disso. A tensão que envolve sua chegada ao Brasil, tendo que vencer a desconfiança e absoluta má vontade de autoridades alfandegárias, é certo prenúncio de sua trajetória de vida, ao menos até o final da II Guerra, acontecimento histórico que emoldura toda a trama do romance. Erika não estará plenamente à vontade em nenhum momento, às voltas seja com as lembranças do marido assassinado, seja com o relacionamento conflituoso com o cunhado, simpático a ideias nazistas. Erika, assim, nos oferece o ponto de vista de alguém em permanente tensão, cuja vida é pontuada de fugazes momentos de refrigério.

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A conformação psicológica das personagens faz com que Malditas fronteiras esteja atualizado com o romance moderno que valoriza a construção psicológica, mas outra de suas virtudes é não se limitar ao exercício de experimentações formais ou se embrenhar em esboços de metanarrativa sem conteúdo, exercício infrutífero de brincadeira linguageira, por assim dizer. O perfil de Osório, exemplar da estreiteza da mente xenófoba, do velho Konrad, expert na arte da fabricação da cerveja, do padre Wolfgang, em seu tortuoso caminho até chegar a vestir a batina, de Ferdinand, ainda que de relance uma amostra significativa da impossibilidade de enxergar o outro enquanto ser com mais semelhanças que diferenças, são os perfis que sustentam o livro, que não privilegia uma história propriamente dita, em que início, meio e fim ditam os rumos e são facilmente indentificáveis. Antes, o que se vê são pequenas histórias individuais que compõem a trama de relações que dá vida a Malditas fronteiras; e é essa palavra, relações, que eu destacaria como o fio condutor do romance.

Porque, como dito, ainda que haja a apresentação das histórias individuais, o que mais as marca são as relações que elas entretecem. Isso fica mais evidente e valorizado em Valentino e Sophie. Ele, filho de Osório, em constante conflito com o pai e próximo da família de alemães que se refugiou em Belo Horizonte. Ela, cega, neta de Konrad, dotada de uma sensibilidade ímpar que faz sua deficiência visual parecer mero detalhe incapaz de diminuir qualquer dimensão de sua presença. Ambos nutrem uma amizade sob constante ameaça, seja dos pais dele, seja das perseguições à família dela, amizade que retornará apenas no final do livro, mas cuja força é apresentada aos poucos, na cuidadosa criação das situações e no paciente entrelaçamento das histórias individuais com o ambiente cultural forjado no clima tenso da II Guerra.

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Outro “personagem” presente no romance, que perfaz uma relação harmônica com seu todo, é a cerveja. Ainda que haja vários momentos de descrição técnica sobre a bebida, suas qualidades, características, processo de fabricação, isso aparece como uma paixão na vida de Konrad, mais que como um elemento pitoresco encaixado a fórceps na trama. Sua afirmação de que bebe pouco porque aprecia a cerveja, e não o álcool que se destaca a partir do segundo ou terceiro copo, bem vale para descrever como a milenar bebida comparece no romance: não só nas epígrafes de cada capítulo, constituídas de trechos de vários autores famosos que mencionam cervejas em suas obras, mas nos momentos em que Konrad aprecida a bebida na companhia de Wolfgang ou na explicação da fabricação à netinha e seu amigo, o que quer dizer, de forma suave, sem extrapolar na medida. Um ou outro elemento do romance que destoa ligeiramente de sua coesão podem ser apontados na viagem de Valentino pela Alemanha, após ter fugido da casa do pai, o que soa inverossímil, em em certo didatismo que aparece ao final do livro quando o mesmo Valentino ganha o protagonismo. Nada, no entanto, que diminua o que Malditas fronteiras pode proporcionar.

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Minha leitura do romance foi paralela àquela, ainda em andamento, de A era dos extremos, de Eric Hobsbawn. Os dois livros se tocam tematicamente, ocasião propícia para discutir a relação entre a história e a ficção. O que esta nos oferece de maneira diferente daquela? Ainda que seja escorado em um fato histórico, o romance não depende de exatidão histórica para continuar válido, por assim dizer. É claro que, por se construir com uma dicção realista, referindo-se a personagens históricos, como Hitler e ditadores brasileiros, ele realizaria mal seu intento se descuidasse de um mínimo compromisso com a realidade. Contudo, ainda que a investigação histórica desminta algum elemento nele abordado – hipotética e absurdamente, digamos que acabe se provando que Hitler apenas se defendeu de ameaças maiores, tornando o mal que provocou algo menos recriminável –, os dramas relatados não perderão seu poder de exploração das diferentes sensibilidades humanas nele oferecidas. O mesmo já não se pode dizer do livro de Hobsbawn, que, ainda que permanecesse sendo um belo exemplo de reflexão histórica, perderia sua precisão, tendo que ser substituído caso o leitor estivesse interessado em saber o que ocorreu por ocasião da II Guerra. Se o livro de história nos informa e convida à interpretação de um acontecimento, mormente com um olhar mais panorâmico e interessado em dados precisos, o romance nos oferece “estruturas de sentimento” (R. Williams) possíveis de serem encontradas nas vidas individuais que o viveram.


Leandro Thomaz

Não tenho plano B.
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