fragmentos

Da crítica literária à Literatura crítica

Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura.

De Caetano Veloso a Tim Maia, a hipertextualidade na propagação da cultura

Diante do estrondoso sucesso da canção "Sozinho", em 1999, Caetano Veloso aproveita sua autoridade musical para recuperar a versão de Tim Maia, se valendo da hipertextualidade. Seu discurso, que interrompe a horizontalidade da música, funciona como um hiperlink, que percorre toda a trajetória da construção da ideia de cantá-la. Isso revela a importância desse conhecimento para a propagação da cultura na nossa atualidade.


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Durante a turnê do disco “Livro” (1997), Caetano Veloso fez o registro, ao vivo, deste espetáculo no cd e dvd intitulados “Prenda Minha” (1998). Esse álbum foi um sucesso de vendas, atingindo a marca de um milhão de cópias vendidas. Isso se deveu, principalmente, à inclusão da regravação da canção “Sozinho”, de Peninha, na novela “Suave Veneno”, de Aguinaldo Silva, no ano seguinte. Essa canção já havia sido interpretada por, pelo menos, mais dois grandes nomes da mpb, Sandra de Sá e Tim Maia, no entanto, essas versões já haviam caído no ostracismo. Caetano Veloso, então, valeu-se de sua posição de autoridade artística para recuperar a interpretação desses dois outros nomes, por meio de um discurso simples, mas rico em hipertextualidade.

Na versão reservada para o DVD, Caetano Veloso interrompeu a canção para contar como decidiu colocá-la no repertório do show. Ele disse o seguinte:

Tão bonitinha! Essa música é muito bonitinha. Eu ouvi a gravação de Sandra de Sá, tocava no rádio sempre. Achava linda! E pensava assim: próximo show que eu fizer, vou cantar essa música. Não sabia nem de quem era a música. Um dia eu estava ouvindo uma rádio dessas que dizem o nome do autor da canção, aí o cara falou assim “Sandra de Sá, ‘Sozinho’, de Peninha. E eu disse “porra, a música é de Peninha, aí é que vou cantar mesmo!”. Porque, olha, veja bem, eu já estava apaixonado pela música, a gravação de Sandra era linda, já estava decidido a cantar no próximo show que eu fizesse e ainda fiquei sabendo que a música era de Peninha, aí tinha tudo mais a ver! Mas um dia eu estava no carro, com o rádio ligado e ouvi, no rádio do carro, essa música na gravação com Tim Maia. Aí eu desisti de cantar. E, no entanto, estou aqui cantando ela. É porque eu desisti, mas eu não resisti! É que, bom, eu não estou cantando ela, estou apenas mencionando a canção. Porque a gravação de Sandra é lindíssima e a de Tim Maia, arrasadora! Mas eu pensei assim: bom, se eu cantar no meu show, as pessoas que vêm ao meu show vão querer reouvir a gravação de Sandra e procurar a gravação de Tim Maia.

A teoria da comunicação eleva a ideia de hipertexto como uma nova forma de escrita advinda da cibercultura. Esse modelo que substitui, de certa forma, a construção hierárquica por uma horizontal cria a possibilidade da externalização das referências de um texto, isto é, através de hiperlinks, pode-se recuperar imediatamente a origem de pontos de memória. Esse movimento tende ao infinito, pois a referência encontrada pode conter uma nova referência, que, por sua vez, pode trazer outras e assim sucessivamente. Para Pierre Lévy (1993), hipertexto é uma espécie de organização e de reconhecimento de dados, para a aquisição de informação e conhecimento.

No entanto, apesar de ser uma técnica que provém do desenvolvimento da internet, não é uma novidade plena, pois, na teoria linguística, a memória discursiva já efetua esse papel há um bom tempo. A memória discursiva, segundo Orlandi (2000), é tratada como um interdiscurso, a fala que vem antes, que está em outro lugar, independente do contexto imediato. Isso fica mais claro quando se pensa na constituição do discurso por dois eixos: o vertical, relacionado ao que já foi dito, à memória, todos os dizeres já-ditos; e a horizontal, o eixo da formulação, aquilo que está sendo dito no momento, em determinada situação. A análise vertical dos enunciados se interliga com a teoria da hipertextualidade que, de acordo com Levy, é todo fenômeno que envolve significações. Então, o hipertexto funciona como uma recuperação de uma falha na construção das ideias, isto é, sempre que, em determinado momento, for necessário interromper o processo linear do conhecimento para aprofundar-se em certo recorte, aplica-se a hipertextualidade.

Caetano Veloso, que já havia recuperado a música ao cantá-la, exteriorizou a relação hipertextual ao interrompê-la, para construir a verticalidade da memória. Isto é, no momento em que ele conta como surgiu a ideia de regravar “Sozinho”, por meio da versão de Sandra de Sá, está interrompendo a linearidade do dizer, para acessar um link de sua memória: “Eu ouvi a gravação de Sandra de Sá, tocava no rádio sempre. Achava linda! E pensava assim: próximo show que eu fizer, vou cantar essa música”.

No entanto, a hipertextualidade tende ao infinito. A partir do momento em que ela é acessada, abre possibilidade de novos links, que irão aprofundar o conhecimento desse assunto. Caetano Veloso, quando decide cantar a canção, a coloca em atividade na sua memória discursiva, isso faz com que, ao escutar, em outra situação o rádio, atente para ela de uma forma especial, descobrindo, por fim, seu autor: “Um dia eu estava ouvindo uma rádio dessas que dizem o nome do autor da canção, aí o cara falou assim ‘Sandra de Sá, ‘Sozinho’, de Peninha’”.

Porém, nesse discurso, Caetano Veloso tinha um objetivo maior: divulgar a versão de Tim Maia, que ele considerava “arrasadora”, mas, ao mesmo tempo, não tão evidente midiaticamente como a de Sandra de Sá. Dessa forma, ao decidir cantá-la, expõe sua real meta: “bom, se eu cantar no meu show, as pessoas que vêm ao meu show vão querer reouvir a gravação de Sandra e procurar a gravação de Tim Maia”. Dessa forma, Caetano Veloso serviu como link para essa última versão. A partir do momento em que conclui sua pesquisa, retoma a horizontalidade da canção.

Em uma rápida busca no youtube, é possível encontrar, nos vídeos mais acessados da versão de Tim Maia, comentários que remetem a Caetano Veloso: “Obrigado, Caetano, por me fazer descobrir essa versão. Obrigado Tim Maia, por ter gravado essa maravilha!”, ”Estou aqui por conta do Caetano”, “Se hoje estou aqui ouvindo essa versão é graças ao Caetano”, entre outros. Ou seja, em função da atitude hipertextual, da quebra da linearidade da música para acessar um link, Caetano Veloso faz uso de sua popularidade para divulgar uma versão, que ele julga excelente, para o grande público. Sendo assim, a propagação da cultura se deve muito ao fator hipertextual, quando um eixo vertical de leitura é ativado, possibilitando um enriquecimento na leitura da obra em questão.

Referências

ORLANDI, Eni. Análise de discurso. Ed. Pontes. Campinas, São Paulo, 2000.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. Tradução de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 2000. 2. ed. 264p.

VELOSO, Caetano. Prenda Minha. PolyGram, 1999


Artur Custodio

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