fragmentos

Da crítica literária à Literatura crítica

Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura.

Sociedade dos Poetas Mortos: o Enigma Velado

Aristóteles diz que "as metáforas são enigmas velados" e a percepção delas depende muito da carga cultural e do conhecimento linguístico do interlocutor. Em "Sociedade dos Poetas Mortos", de Peter Weir, há, pelo menos duas leituras possíveis da obra: a primeira, mais conhecida, de uma crítica ao sistema de ensino ortodoxo e um elogio aos métodos vanguardistas didáticos. A segunda, mais velada, uma ode ao movimento Romântico, seus poetas e suas personagens. Ao perceber isso, o enredo toma proporções simbólicas muito maiores do que a aparente, mostrando o quão rico e sutil é a composição de um clássico.


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“A sociedade dos poetas mortos” (1989), filme dirigido por Peter Weir, tornou-se um marco para estudos relacionados a didáticas vanguardistas, tendo em John Keating, personagem principal do drama, uma referência do rompimento de um sistema de ensino ortodoxo e obsoleto. Suas aulas peculiares levaram muitos professores a repensarem a prática docente e a escreverem sobre isso. Dessa forma, num primeiro momento, dá-se a entender que a temática principal dessa obra é a crítica aos métodos tradicionais de regência e um incentivo a novas. No entanto, é possível que, sutilmente, uma intenção mais profunda tenha passado despercebida nessa análise: o rompimento desse sistema educacional ortodoxo por John Keating é uma metáfora para representar a ascensão conturbada de um dos maiores movimentos artísticos da era moderna – o Romantismo.

A história se passa em 1959, na centenária Academia Welton, uma escola renomada por sua qualidade de ensino e por sua ortodoxia, nos Estados Unidos. Seus valores são sustentados por quatro grandes pilares: tradição, honra, disciplina e excelência. Nesse ano, é apresentado o novo professor do departamento de inglês, um ex-aluno dessa escola, John Keating. Ele passa a lecionar literatura, com métodos vanguardistas, focando muito mais na descoberta da poesia e na influência dela na vida dos alunos, tornando-os livres pensadores, do que em métodos quase cartesianos de estudos de formas, estruturas e métricas, propostos pelos livros da escola. Com isso, Keating vai cativando cada vez mais os estudantes. Até que eles descobrem que seu professor, na sua época discente, fazia parte de um grupo chamado “Sociedade dos Poetas Mortos”. Os jovens pertencentes a essa agremiação liam e viviam intensamente a poesia, subvertendo os já tradicionais valores da Academia Welton.

Sabendo disso, os alunos de Keating revivem a antiga sociedade, fazendo aflorar suas personalidades reprimidas pelas escolhas feitas por seus pais, para o futuro deles. Esses estudantes acabam incorporando tão profundamente o espírito de livres pensadores, que ousam enfrentar a tradição da escola, rompendo sistematicamente com os protocolos e sobrepondo suas vontades perante as de seus pais e da direção.

No entanto, o suicídio de um deles, que não consegue se separar das amarras impostas pela família, que o impede de ser ator, acaba com a sociedade secreta. A direção, para dar uma resposta à pressão feita pelos pais, culpa John Keating de ter incitado os jovens a tornarem-se subversivos. A demissão e a despedida desse professor são comoventes, sendo saudado pelos seus alunos, que ignoravam as ordens de manterem-se calados.

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As metáforas:

Aristóteles foi o pioneiro a falar em metáfora. Na sua “Poética”, define-a como uma transposição de significados, por meio de analogias. No entanto, é na “Retórica”, que o conceito se aperfeiçoa: “as metáforas são enigmas velados e nisso se reconhece que a transposição de sentido foi bem sucedida” (ARISTÓTELES, 1959, p. 195). Essa construção vai além da simples comparação implícita, trabalhada por muitos autores pós-socráticos, isto é, a percepção da existência de uma metáfora no discurso depende muito da carga cultural e do conhecimento linguístico do interlocutor. Caso contrário, o “enigma” não será decifrado e o sentido percebido será somente o latente, não o profundo.

Foucault vai além dizendo “o mundo está coberto de signos que é mister decifrar (...) Conhecer, será, pois, interpretar: ir da marca visível ao que se diz através dela e que, sem ela, permaneceria palavra muda, adormecida nas coisas” (FOUCAULT, 1967, p.54). Em “Sociedade dos Poetas Mortos”, o caminho para se chegar à metáfora passa pela compreensão do sentido latente: a primeira marca a ser interpretada é no âmbito da palavra. O novo professor de literatura carrega o nome de John Keating, uma alusão direta a um dos maiores nomes da poesia ultrarromântica inglesa, John Keats. Esse poeta, durante sua vida, não teve uma boa aceitação de sua obra, considerada de má qualidade. No entanto, após sua morte, seus textos passaram a influenciar significativamente poetas posteriores. Dessa forma, despertando a palavra adormecida, dá-se voz a ela: Keating durante sua passagem na Academia Welton, não foi bem visto, em função dos seus métodos. Porém, o legado deixado por ele, serviu de inspiração para seus jovens alunos.

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Victor Hugo, um dos maiores autores do Romantismo francês, no prefácio de “Cromwell”, drama publicado em 1827, traduz o espírito livre e ousado do poeta romântico:

Digamo-lo, pois, ousadamente. Chegou o tempo disso, e seria estranho que nesta época, a liberdade, como a luz, penetrasse por toda a parte, exceto no que há de mais nativamente livre no mundo, nas coisas do pensamento. Destruamos as teorias, as poéticas e os sistemas. Derrubemos este velho gesso que mascara a fachada da arte! Não há regras nem modelos; ou antes, não há outras regras senão as leis gerais da natureza que plainam sobre toda arte (...) O poeta, insistamos neste ponto, não deve, pois, pedir conselho senão à natureza, à verdade, à inspiração, que é também uma verdade e uma natureza. (HUGO, Victor, 1827, p.56 e 57)

Por outro lado, numa de suas primeiras aulas, Keating pede a um dos alunos, para que leia a introdução do livro didático, intitulada “Compreender a poesia, de Dr. J. Evans Pritchard”

Para compreender poesia temos que conhecer a métrica, a rima e as figuras de retórica. Depois fazemos duas perguntas: como é apresentado o objetivo do poema? Qual a importância desse objetivo? A primeira pergunta avalia a perfeição do poema. A segunda, a sua importância. Uma vez respondidas essas perguntas, torna-se simples determinar a grandeza de um poema. Se a perfeição do poema for representada na horizontal de um gráfico, e a sua importância na vertical, calculando a área do poema, chega-se a medida de sua grandeza.

Após a leitura, Keating pede para que os alunos arranquem essas páginas do livro. Depois de certo estranhamento, seu pedido é posto em prática. Enquanto os jovens rasgam as folhas, ele entra em consonância com o discurso de Victor Hugo: “Nas minhas aulas, voltarão a aprender a pensar por vocês próprios. Aprenderão a saborear palavras e linguagem. Falem o que quiserem a vocês: as palavras e as ideias podem modificar o mundo”.

Essa simbologia de arrancar as páginas de um livro, que indicava a construção cartesiana de um poema, o rigor métrico, a estética regular, sem a liberdade provocada pela natureza, pelas palavras, é a representação metafórica do rompimento da poesia romântica com a poesia ortodoxa. A partir desse momento “não há regras nem modelos”, como diz Victor Hugo, mas há liberdade da criação e da expressão.

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No entanto, a representação mais clara dessa metáfora está no aluno Neil Perry. Esse jovem lidera a nova sociedade dos poetas mortos, além de carregar um sonho recém descoberto de ser ator: “Eu vou atuar! Sim! Vou ser ator, sempre quis experimentar (...) pela primeira vez na vida sei o que quero fazer. E vou fazer, quer meu pai queira, quer não”. Porém esse desejo é constantemente reprimido por seu pai. Mesmo assim, consegue se apresentar na peça “Sonho de uma noite de verão”, de William Shakerspeare.

“Por que é que aquilo que faz a felicidade do homem acaba sendo, igualmente, a fonte de suas desgraças?” (GOETHE, 1971 p.64), diz Werther, personagem ícone do Romantismo alemão, ao começar a perceber que seu destino será o inevitável suicídio. Ele é metaforizado em Neil, que, após realizar seu grande sonho, o de atuar, sofre a punição de seus pais, o impedindo de repetir o feito. Assim como Werther, após concretizar seu amor com Charlotte, seu maior desejo, percebe que deve expiar, pois não conseguirá ir adiante nessa relação.

Neil suicida-se, numa madrugada, no escritório de seu pai, com a arma de seu maior rival, quem o impediu de levar adiante seu sonho. Da mesma forma, Werther suicida-se, numa madrugada, em seu escritório, com as armas de Albert, seu maior rival, esposo de Charlotte: “Quando o médico chegou, o desgraçado jazia no assoalho. Não havia mais esperanças de salvá-lo (...). Ele havia metido uma bala na cabeça” (GOETHE, 1971, 161).

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Muitas vezes, a sobreposição de sentidos de uma obra de arte subverte a possível intenção inicial de sua existência. Em “Sociedade dos poetas mortos”, a leitura mais latente revela uma crítica ao ensino ortodoxo e repressor, que impede a formação de livres pensadores. Isso acontece a partir da performance do professor John Keating e sua didática vanguardista. Porém, o texto pode ser aprofundado, quando lido pelo viés metafórico. Essa leitura indica uma ode ao movimento Romântico, seus poetas e personagens mais representativos. “A metáfora apresenta-se, então, como uma estratégia de discurso (...) A obra é conduzida a seu tema mais importante” (RICOEUR, 2000, 13-14). Sendo assim, professores e poetas desfrutam desse filme, fazendo, como diria Saussure, do seu ponto de vista o próprio objeto.

Referências

RICOEUR, Paul. A Metáfora Viva. Davi Macedo. São Paulo: Edições Loyola, 2000. GOETHE, Johann, WERTHER. Ed. Abril, 1° edição, 1971, SP – São Paulo HUGO, Victor. Do Grotesco e do Sublime. Perspectiva, São Paulo FOUCAULT, Michel A Ordem do Discurso. 14ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2006


Artur Custodio

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