fragmentos

Da crítica literária à Literatura crítica

Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura.

A Falácia do Amor Próprio: o subterfúgio egoísta do instinto de conservação

Instinto de conservação ou amor próprio? Quando você internaliza aforismos como "ame a si mesmo acima de tudo" ou "o amor mais importante é o amor próprio", está confundindo amor com instinto de conservação. Esse artigo procura provar que só é possível existir amor na presença do outro, fora isso é apenas um ato de resistência.


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Aforismos, segundo o dicionário Michaelis, são “máximas ou sentenças que, em poucas palavras, contém uma regra ou um princípio de alcance moral”. Provavelmente, você já ouviu ou já proferiu muitos deles, como, por exemplo, “seria cômico se não fosse trágico", ”água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, “quem não deve não teme”, entre tantos outros. Desse tipo de enunciado, um dos mais repetidos hoje em dia, como um mantra da recuperação da autoestima por um amor despedaçado, é “ame-se em primeiro lugar” ou ainda “para amar alguém, é preciso, antes de tudo, amar a si mesmo”, ou então “o amor mais importante é o amor próprio”, e assim sucessivamente. Há inúmeras configurações desse aforismo para elevar a ideia do amor próprio. No entanto, a grande maioria deles é falaciosa.

Falácia é um enunciado que aparentemente é verdadeiro, mas provém de um raciocínio errado. Muitas vezes, essa construção discursiva é difícil de ser percebida, pois, caso em determinado momento da vida, numa determinada situação, dentro de um determinado contexto, essa ideia se valide, passa-se a usá-la como regra geral. Por exemplo: o aforismo “quem não deve não teme” é muito usado para legitimar linhas de raciocínios que justifiquem a revelação de informações pelo medo da culpa: “mostre sua conta bancária, pois quem não deve não teme”; “diga o que tem em sua casa, pois quem não deve não teme”; “relate sua conversa íntima, pois quem não deve não teme”. Assim, o interlocutor fica impelido a revelar as informações, mesmo sem dever absolutamente nada em muitos casos, simplesmente para não sofrer uma pré-condenação. Após a criação desse contexto, vale analisar o aforismo “para amar alguém, é importante, antes de tudo, amar a si mesmo” e suas variações, que, assim como muitos outros, é também falacioso.

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“Ame-se em primeiro lugar”: o conselho do outro

Em diversas situações da vida, mais precisamente quando há algum tipo de desilusão amorosa, as pessoas se deparam com a queda da autoestima e com a quebra de um horizonte ideal, que é o “amor recíproco”. Nessas situações de fragilidade, normalmente, elas estão passivas a aceitar diversos tipos de conselhos e confortos. Dentre eles, o aforismo muito popular do “amor próprio”: “Você precisa se amar primeiro”, “agora é o momento em que você deve cuidar de si mesmo”, “ não há como amar alguém, sem que você tenha amor próprio”, etc. Esses discursos servem muito mais para levantar a autoestima do indivíduo do que, de fato, para serem seguidos à risca.

Primeiramente, deve-se entender o fato gerador do conselho, que vai além da empatia, e chama-se contemplação. Para Bakhtin, contemplar funciona da seguinte forma: “Devo identificar-me com o outro e ver o mundo através de seu sistema de valores, tal como ele o vê; devo colocar-me em seu lugar, e depois, de volta ao meu lugar completar seu horizonte com tudo o que se descobre do lugar que ocupo, fora dele” (BAKHTIN, 1992, p.45). Isto é, sempre quando o conselheiro diz que sabe exatamente o que você está sentindo, na verdade, ele quer dizer que sabe mais. A melhor compreensão dele se deve à posição a qual ocupa na interação, uma exotopia. Ou seja, o grande diferencial é, após ver o mundo pelo sistema de valores do outro, voltar ao seu lugar e completar essa informação com tudo que se vê e o outro não, pois está dentro de si. Daí, então, surge o conselho, que nada mais é do que o resultado desse processo de contemplação, isto é: dizer aquilo que o outro não vê, pois está envolvido com a situação, já o indivíduo que aconselha teve acesso a um simulacro do sentimento do outro, mas teve também a possibilidade de mais de um ponto de vista sobre ele, o externo.

Já do outro lado do diálogo, ao receber o conselho, o indivíduo que passa pelo desafeto amoroso, muitas vezes interpreta essa contemplação do outro de forma distorcida. Devido a sua fragilidade e passividade diante dessa situação, essa pessoa acaba internalizando a recomendação do ato de desenvolver o amor próprio como uma verdade absoluta. No entanto, a recepção disso não passa de um ato de seu instinto de conservação. Bakhtin afirma que “há uma diferença qualitativa entre meus sofrimentos, meus temores, minhas alegrias e os sofrimentos, temores e as alegrias que sinto pelo outro” (BAKHTIN, 1992, 66). Isso se deve, basicamente, pela posição em que os interlocutores se colocam nessa ação. O indivíduo que sofre percebe seu mundo de forma interna, já o outro percebe esse mesmo mundo de forma externa. Ora, somente o outro é capaz de tocar e afetar esse ser de uma maneira que o faça amar. Tudo que se vê de dentro não passa de resistência e conservação. Sendo assim, por mais bem intencionado que seja essa recomendação, ainda assim ela é falaciosa, pois ao dizer que o indivíduo precisa de amor próprio já é um ato discursivo que revela que o amor é dialógico, enquanto, na verdade, o que o conselheiro diz é para que preste atenção ao seu instinto de conservação, confundido com amor.

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O aprendizado de Chris McCandless: “Felicidade só é real quando compartilhada”

Into the Wild (Na Natureza Selvagem) é um livro biográfico (que posteriormente se torna muito conhecido pela versão cinematográfica, dirigida por Sean Penn), escrito por Jon Krakauer, sobre a história de um jovem norte-americano, chamado Cristopher McCandless, que, ao terminar a faculdade, abre mão do materialismo e do seguimento de sua futura profissão para aventurar-se numa viagem de autoconhecimento rumo ao Alasca. Nesse caminho, encontra muitas pessoas e descobre lugares diferentes; passa por diversas situações que provocam nele um crescimento cultural e várias experiências. O clímax de sua história se dá à beira de sua morte. Chris McCandless descobre, quando se vê sozinho em um ônibus abandonado no deserto gelado do Alasca, exatamente, aquilo que procurava: que a “felicidade só é real quando compartilhada” (KRAKAUER, 1996, p.197).

No entanto, apesar dessa frase ter se popularizado na fala de Chris McCandless, ela é construída a partir da leitura do polêmico romance “Doutor Jivago”, de Boris Pasternak. O trecho que desperta essa epifania em Chris é o seguinte: “E assim se concluiu que somente uma vida semelhante à vida daqueles ao nosso redor, mesclando-se a ela sem murmúrio, é vida genuína, e que uma felicidade não compartilhada não é felicidade [...]” (KRAKAUER, 1996, p.197). Evidentemente, que há inúmeras maneiras de se perceber esse aprendizado. Chris ao buscar um isolamento, nega, momentaneamente, a sociedade e a relação com as pessoas, mas, no caminho para esse destino, entra em pleno contato com outros seres humanos. Esse ponto revela a contradição do amor próprio, pois, para McCandless, o autoconhecimento só viria em seu período no Alasca, quanto, na verdade, ele aconteceu no caminho, no trajeto e no contato com o outro durante esse percurso. Somente no distanciamento ele entendeu que o “amor próprio”, de fato, é uma construção coletiva.

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O recorte do segundo mandamento de Cristo

Por fim, e talvez o maior dos exemplos conhecidos dentro da cultura ocidental para tratar sobre o amor, Jesus Cristo deixa um legado imenso para a filosofia, mesmo para aqueles que não a seguem como doutrina religiosa. O amor é tema constante em suas falas, inclusive, uma das mais conhecidas é a seguinte: “ame o seu próximo como a si mesmo” (MATHEUS, 22:39). Para quem já vem seguindo a linha de raciocínio desse artigo pode prever que, diante do embasamento teórico adotado, Cristo comete um erro falacioso, ao confundir amor com instinto de conservação. Porém, o grande problema dessa fala está no recorte utilizado. Esse mandamento é o segundo, isto é, a construção completa é a seguinte: “Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento. Este é o primeiro e maior mandamento. E o segundo é semelhante a ele: ame o seu próximo como a si mesmo” (MATHEUS, 22:37-39).

Cristo, em seu primeiro mandamento, mostra, claramente, a necessidade do outro na construção do amor. No caso construído por sua concepção, Deus seria esse outro, isto é, um ser idealizado, feito nos moldes do que há de mais perfeito conhecido pelo homem e que vai servir como interlocutor de um amor ideal também perfeito. Exatamente por isso, Cristo diz que o amor maior tem que ser a um deus, pois só ele, na formação de uma imagem perfeita, pode projetar um amor ideal. A partir disso, a partir do amor perfeito recebido desse deus, o indivíduo pode retribuir nessa mesma escala ao outro, ao seu semelhante.

Curiosamente, Jesus Cristo e Cristopher McCandless não têm somente o nome em comum, têm também a saga semelhante para a construção do aprendizado do amor. Os dois percorreram grandes travessias e conheceram muitas pessoas, as quais amaram e foram amados genuinamente; passaram por momentos difíceis e de solidão, em que questionaram o mundo e as pessoas por abandoná-los, confundindo o amor com instinto de conservação. No entanto, no derradeiro momento de suas vidas, perceberam que somente a partir do outro poderiam ser felizes, independente se esse outro seja um ser humano ou, simplesmente, seja Deus.

Referências:

BAKHTIN, Mikhail, Estética da Criação Verbal. Ed. Martins Fontes, 1° edição, 1992, SP – São Paulo.

KRAKAUER, Jon. Na Natureza Selvagem, Companhia das Letras, 1996, São Paulo.

http://www.bibliaon.com/versiculo/mateus_22_37-39/, acesso em 17/07/16


Artur Custodio

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