fragmentos

Da crítica literária à Literatura crítica

Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura.

A Imortalidade da Alma: as diferenças, na estética verbal, entre corpo, alma e espírito diante da morte

A construção da ideia de corpo, alma e espírito perpassa os tempos como um dos grandes temas da humanidade. Dentro desse recorte surgem doutrinas, crenças e religiões. Porém, na estética verbal, esses três conceitos podem ser muito bem definidos. Esse artigo tenta explicá-los, além de buscar o devido entendimento do porquê a alma de alguém permanece tão viva na memória do outro, mesmo após a morte.


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Há uma lenda na tradição oral cristã, que conta a história do Judeu Errante, também conhecido como Ahasverus. Ele supostamente viveu no período de Jesus Cristo, em Jerusalém. Era um sapateiro, que trabalhava numa das ruas por onde passavam os condenados à crucificação. Durante a via sacra, Cristo afrouxou o peso da cruz, que levava nos ombros. Ahasverus não o ajudou, muito pelo contrário, o empurrou e bradou para que não parasse, que não descansasse. Nesse instante, uma voz, vinda do céu, anunciou a esse judeu, que assim como ele havia recomendado a Jesus, nunca mais iria deixar de andar, até o fim dos tempos. Desde então, esse homem erra pelo mundo, vendo o nascimento e o fim de todas as coisas. Essa foi sua condenação.

Outro exemplo de alma errante é o rei morto da Dinamarca, pai do príncipe Hamlet, da peça homônima de Shakespeare, escrita entre 1599 e 1601. O fantasma do monarca surge com certa constância, nos arredores do Castelo de Elsinore. As sentinelas contam a Hamlet esse evento, que resolve ver com seus próprios olhos a imagem morta de seu pai. Ao entrar em contato com ele, Hamlet recebe a informação que o Rei fora assassinado. O fantasma pede ao filho que vingue sua morte, ao mesmo tempo em que conta a ele as agruras que passa na condição de alma penada:

Sou a alma de teu pai, por algum tempo condenada a vagar durante a noite, e de dia a jejuar na chama ardente, até que as culpas todas praticadas em meus dias mortais sejam nas chamas, enfim, purificadas. Se eu pudesse revelar-te os segredos do meu cárcere, as menores palavras dessa história te rasgariam a alma; tornar-te-iam, gelado o sangue juvenil; das órbitas fariam que saltassem, como estrelas, teus olhos; o penteado desfar-te-iam, pondo eriçados, hirtos os cabelos, como cerdas de iroso porco-espinho. Mas essa descrição da eternidade para ouvidos não é de carne e sangue. (HAMLET, p.35)

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Essas duas histórias carregam uma marca em comum: ambas tratam de uma alma errante, que vaga num ambiente sem esperança, sendo vistas por poucos e reconhecidas por um número menor ainda de indivíduos. Ahasverus tem um parco sentido de vida, isto é, esperar o fim da humanidade, para que sua pena seja expirada. Já o fantasma do rei da Dinamarca é visto por poucos e relata, inclusive, os tormentos de um limbo. Sua aparição indica que ainda necessita concluir um sentido de sua vida terrena, para, só então, findar a existência de seu espírito. Percebe-se, entre elas, a ideia da incompletude: uma alma resistente ao seu acabamento.

Para Bakhtin, “a alma é um todo fechado, encerrado em si mesmo, da vida interior, um todo que coincide consigo mesmo, é igual a si mesmo e postula a atividade do outro...” (BAKHTIN, 1992, p.146). Isto é, assim como a imagem externa do indivíduo, seu corpo, é percebido com mais clareza e delimitação a partir do outro, a alma também tem esse mesmo desenvolvimento. “A alma é o dom de meu espírito ao outro” (BAKHTIN, 1992, p.146).

No entanto, comumente, usa-se como sinônimos a palavra “alma” e “espírito”, para contrapor a ideia de “corpo”. Inúmeras religiões e doutrinas criam seus conceitos sobre isso. Por exemplo, na Bíblia, livro basilar da religião católica, em seu Gênesis diz que o homem foi criado do pó da terra, feito, a partir daí, uma alma vivente. Nessa definição já se encontra a divisão “corpo” e “alma” – o corpo, metaforicamente sendo criado a partir do pó, define-se por matéria, - e a alma apropria-se dessa matéria para se constituir na vida: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente” (Gênesis 2:7).

Já o espírito, para essa religião, é basicamente a ideia de sentido da vida, tanto que o Espírito Santo é uma entidade que traz o filho de Deus para a Terra, para propagar a palavra divina. Assim, mais uma vez, foi preciso um corpo para a sua materialização. Dessa forma, fica, de um lado, o corpo, definido como a parte material; do outro, a alma e o espírito, a parte imaterial.

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No entanto, quando se depara com a ideia de corpo, alma e espírito, numa realidade mais profunda do que simplesmente a materialidade, percebe-se que a há um novo reagrupamento desses conceitos: o corpo e a alma pertencem ao mesmo viés de construção, enquanto o espírito posiciona-se no lado oposto. O paradigma que faz essa divisão acontecer é o acabamento. O corpo e a alma são conceitos acabados de um indivíduo; já o espírito é inacabado. Para tornar esse pensamento mais simples, atenta-se para um exemplo:

Na construção de um herói romanesco, o autor, a partir do ponto em que ocupa nesse diálogo, percebe o corpo e alma de sua criação. Isso porque ele se situa fora dessa personagem, pois somente daí, consegue vê-lo plenamente, ter contato com tudo aquilo que o herói, do lugar em que ocupa, não pode ver: como por exemplo, as partes inatingíveis, por ele, de seu corpo. A alma funciona mais ou menos dessa mesma maneira: “A alma é a imagem vivida que globaliza tudo o que foi efetivamente vivido, tudo o que faz a atualidade da alma no tempo” (BAKHTIN, 1992, p. 125). Isto é, a alma, assim como o corpo, é pautada na sua totalidade, e isso somente pode acontecer através do ponto de vista do outro. Somente ele consegue perceber de forma completa e acabada o corpo e alma de alguém.

Já o espírito é “estruturado a partir da sensação de si mesmo e de uma relação solitária consigo mesmo” (BAKHTIN, 1992, p 116). Esse conceito é inacabado, pois depende do andamento da vida interior do indivíduo ou da personagem. O espírito é a visão da pessoa de sua própria vida, de seus ideais, de seu andamento. Então, essa ideia está mais relacionada ao sentido de uma vivência. O corpo e alma são esteticamente inertes, pois são construídos a partir do outro; enquanto o espírito é esteticamente cinético, porque é constantemente transformado por tudo aquilo que se sente internamente.

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Dessa forma, em frente ao outro, tem-se o contato com duas dessas três esferas, isto é, compreende-se apenas o corpo e a alma. Já o espírito pertence ao sentido do ‘eu’, ou seja, somente tenho consciência de meu espírito, pois o vejo internamente. Esse espírito visto de fora é o recorte da alma percebida do outro. Sendo assim, quando se encontra diante da morte de alguém, percebe-se apenas a morte de seu corpo, parte orgânica deteriorável. Pois a alma aloja-se na memória – um lugar sem esperança (porque não há espírito para dar andamento), mas que, ao mesmo tempo, formula um juízo sobre uma vida que se mostra presente e plenamente completa em seu acabamento.

A alma é a imagem vivida que globaliza tudo o que foi efetivamente vivido, tudo o que faz a atualidade da alma no tempo, ao passo que o espírito globaliza todos os significados de sentidos, todos os enfoques existenciais, aos atos que fazem sair de si mesmo (sem abstrair o eu). Na sensação que tenho de mim, o que é intuitivamente convincente é a imortalidade de sentido do espírito, na sensação que tenho do outro, o convincente é o postulado da imortalidade da alma. (BAKHTIN, 1992, p.125)

Ahasverus e o pai de Hamlet, dentro da estética verbal, eram próximos de almas penadas, ou seja, seres ainda dotados de espírito, o primeiro ainda possuidor de um corpo, enquanto que o segundo, nem ao menos isso. Quando a morte do espírito deles acontecer, sua alma estará esteticamente completa e pode ser armazenada plenamente na memória dos outros. Encerrando assim a história de sua vida, em que corpo e espírito determinam seu fim, enquanto a alma determina a completude e a eternidade de sua história. Assim, enquanto houver memória, a alma do outro permanecerá viva.

Referências:

SHAKESPEARE. Hamlet, 1997, L&PM, Porto Alegre – RS

BAKHTIN, Mikhail, Estética da Criação Verbal. Ed. Martins Fontes, 1° edição, 1992, SP – São Paulo.

https://www.bibliaonline.com.br – acesso em 29/09/16


Artur Custodio

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