fragmentos

Da crítica literária à Literatura crítica

Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura.

As três engrenagens: o sistema de trocas da sociedade

Engrenagens são um sistema cooperativo de rodas dentadas, que possuem sua força individual, mas que, em conjunto, produzem um efeito maior, fonte do funcionamento do mecanismo. A sociedade é basicamente mantida por três engrenagens: a linguagem, a economia e os relacionamentos. No entanto, elas precisam de uma constante manutenção e reavaliação. Para isso, é importante entender como funciona esse sistema de trocas, para potencializar a máquina social.


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Na mecânica, normalmente para transmitir potência, ou seja, a quantidade de energia que vai manter determinada máquina funcionando, usa-se um conjunto de peças chamado engrenagem. Elas são um sistema cooperativo de rodas dentadas, que possuem sua força individual, mas que, em conjunto, produzem um efeito maior, fonte do funcionamento do mecanismo.

No entanto, muitas vezes, essas engrenagens acabam falhando. As falhas podem acontecer por diversos motivos: pela quebra de uma peça; pelo desgaste, em função do uso excessivo; pelo mau posicionamento de um elemento, causando uma interferência, etc. O grande problema é que, em diversas situações, apesar do defeito, a máquina não deixa de funcionar, mas diminui sua potência. A percepção do funcionamento deficitário nem sempre é visível e o usuário acaba pensando que o mecanismo trabalha, de fato, nessa rotação.

Roman Jakobson, um renomado linguista russo, do século XX, em seu artigo “A linguística em suas relações com outras ciências”, ao desenvolver seu tema, toca, algumas vezes, na importância das trocas no sistema social. Sobre isso, vale-se de uma ideia de Lévi-Strauss, que diz: “em qualquer tipo de sociedade a comunicação opera em três níveis diferentes: troca de mensagens, troca de utilidades (isto é, bens e serviços) e troca de companheiros” (JAKOBSON, 1970, p. 22).

A sociedade, segundo o dicionário Michaelis, é uma “organização dinâmica de indivíduos autoconscientes e que compartilham objetivos comuns e são, assim, capazes de ação conjugada”, ou ainda, um “contrato consensual, em que duas ou mais pessoas convencionam combinar os seus esforços, ou recursos, no intuito de conseguir um fim comum”. Ou seja, o convívio social segue o sistema de trocas proposto por Strauss.

Porém, o que isso tudo tem a ver com engrenagens? O sistema de trocas é a energia propulsora para a existência da sociedade, que é a máquina, aquecida, basicamente, por três engrenagens independentes e, ao mesmo tempo, comutativas: a linguagem, a economia e os relacionamentos. Bem verdade, que essa máquina, atualmente, não funciona em sua plena capacidade. Dessa forma, muitas vezes, aceitam-se condições precárias de vida, por pensar que o desenvolvimento social seja assim mesmo, quando, na verdade, há falhas na permuta de energia entre essas engrenagens.

Engrenagem das mensagens:

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A engrenagem da mensagem pode começar a ser analisada a partir de um episódio da Bíblia, conhecido como a Torre de Babel. Nessa passagem, todos os homens tinham a mesma língua e se entendiam. Dessa forma, pensaram em construir uma cidade e nela elevar uma torre que chegasse até os céus. No entanto, Deus, para impedir isso, que seria uma heresia, no seu entendimento, confundiu as línguas dessas pessoas. Desde então, o ser humano não se entendeu mais.

Jakobson (1953) diz que “um processo de comunicação normal opera com um codificador e um decodificador. O decodificador recebe uma mensagem. Conhece o código. A mensagem é nova para ele e, por via do código, ele a interpreta” (p.23). No caso da Torre de Babel, Deus quebrou um dos fatores primordiais para se estabelecer o diálogo: o código. Isto é, as pessoas não conseguiam ter acesso às mensagens, gerando o caos na cidade, o que acarretaria a sua ruína. Evidentemente, essa parábola tinha como intenção reafirmar, mesmo através da força, o poder de um ser superior ao homem. Pois, caso o objetivo da Torre fosse atingido, os seres humanos chegariam aos céus sem a necessidade de Deus. A liberdade plena através da integração.

Atualmente, o problema do código já pode ser solucionado com certa facilidade, basta observar os diversos modelos de traduções possíveis e de grande acesso. Além disso, o avanço nos estudos linguísticos é imenso desde o início do século XX. Mesmo assim, ainda tem-se a impressão de viver em uma Torre de Babel: a incapacidade dialógica contemporânea vai muito além da decodificação da língua.

O ponto falho na engrenagem da mensagem é exatamente a dificuldade de síntese no processo dialógico do ser humano hoje em dia. Hegel, em sua dialética, desenvolve uma ideia filosófica antidogmática, ou seja, uma corrente que faz o pensamento avançar naturalmente: a contradição entre uma tese e uma antítese faz com que essas ideias se engendrem de uma maneira, que, no futuro, se encontrarão fundidas e reconciliadas através de uma síntese. No entanto, isso necessita do processo heterogêneo dialógico. Para se obter uma síntese é preciso de um grande repertório e de uma habilidade discursiva que se oponha há imposições de um lado sobre o outro.

Jakobson (1970) explica que é preciso ter consciência de duas noções complementares: autonomia e integração, pois elas estão intimamente ligadas uma à outra. Mesmo assim, muitas vezes, essas ideias são desviadas para um fim errôneo: “a salutar ideia da autonomia degenera em preconceito isolacionista, nocivo como qualquer bairrismo, separatismo e apartheid” (p.12), ou ainda, “comprometemos o sadio princípio da integração, substituindo a indispensável autonomia por uma intrometida heteronomia (aliás, colonialismo)” (p.13). Bakhtin (1992) complementa esse raciocínio dizendo: “as condições menos favoráveis para refletir a individualidade na língua são as oferecidas pelos gêneros do discurso que requerem uma forma padronizada, tais como a formulação do documento oficial, da ordem militar, da nota de serviço” (p.283).

Dessa forma, questões polêmicas muito debatidas hoje em dia, para produzirem uma energia positiva na engrenagem comunicativa, precisam ser reavaliadas quanto ao aspecto dogmático no contato com suas contradições. Há, principalmente nas redes sociais, embates inconclusivos, pois não produzem síntese. É importante entender o extenso processo de construção dialógica e a característica de porvir da integração, isto é, enquanto não houver a síntese o diálogo não terminou, a não ser que haja violência de um dos lados. Porém, isso interromperia o bom andamento da engrenagem, prejudicando, assim, todo o mecanismo social.

Engrenagem das Utilidades:

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Em 1936, Charles Chaplin lança “Tempos Modernos”, considerado um dos grandes clássicos do cinema. Nesse filme, Chaplin interpreta um trabalhador de uma fábrica de produção em série, isto é, ele é responsável por parafusar um produto que, ele nem ao menos tem consciência do que é. Para não haver desperdício de produtividade, o dono da fábrica intensifica ao máximo a velocidade de produção, causando no trabalhador distúrbios e uma quase insanidade. Por causa disso, em determinada cena, Chaplin é, literalmente, engolido pela máquina. Esse ato funciona como uma metáfora dos tempos modernos, referido pelo cineasta, em que o homem, diante das ferramentas de produção torna-se inferior a elas, submetido, praticamente, a um sistema de escravidão.

Jakobson (1970) diz que “manufatura de ferramentas para fazer ferramentas” (p.52) é uma realização plenamente humana e que são “instrumentos puramente auxiliares, secundários, que servem para elaborar os instrumentos primários necessários à fundação da sociedade humana” (p.52). Isso pode ser comparado ao código do sistema de linguagem, ou seja, fonemas que sozinhos não produzem sentido, mas que integrados a outros constroem discursos.

“Tempos Modernos” mostra uma falha no sistema de troca muito semelhante ao do episódio da “Torre de Babel’, pois, nas duas situações, a menor unidade formadora do produto final é quebrada. Exatamente por isso, a personagem de Chaplin produz, repetitivamente, algo que, para ele, não faz sentido algum. Dessa forma, a ideia secundária da ferramenta se transforma na primária, ou seja, trabalha-se porque se deve trabalhar, não porque algo deve ser produzido.

Esse estigma foi tão naturalizado no comportamento humano que, hoje em dia, muitas pessoas trabalham em algo que não lhes traz nenhum outro retorno, a não ser o financeiro, como se o produto final não importasse muito. Isso gera uma imensa falha na engrenagem das utilidades: a falta de consciência de sua utilidade social, o que pode ocasionar um desinteresse, não só pelo seu trabalho, mas pelo reconhecimento do trabalho alheio. As doenças sociais e psicológicas; a miséria e o abismo da diferença de classes; isso tudo é evidência de uma rotação alterada nessa engrenagem. A energia dissipada é muito maior do que o rendimento da máquina, e o produto disso tudo torna-se, então, muito precário.

Engrenagem dos Relacionamentos:

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Édipo- Rei, a tragédia grega, escrita por Sófocles, em torno de 427 a.C., conta a história de uma profecia do oráculo dita ao rei Laio, em que mostra seu filho o matando. Sendo assim, esse rei decide abandonar a criança, para que ela morra, mudando dessa forma seu destino. No entanto, Édipo, a criança, acaba sendo resgatado e criado pelo rei Pólibo. Já na idade adulta, retorna a Tebas, sua terra natal, porém, na estrada, discute com um velho homem e o mata. Ao chegar à cidade, ele a percebe em meio a uma terrível peste, causada pela Esfinge. Após derrota-la, Édipo recebe o trono de Tebas e casa-se com Jocasta, a rainha. Após 15 anos, mais uma grande peste assola o reino. Édipo então começa a busca pela origem desse mal. Numa incessante análise retórica e psicológica, ele descobre ser o motivo dessa peste, pois sua esposa tratava-se de sua mãe, viúva do velho morto na estrada, o rei, seu pai. Além disso, seus filhos foram fruto dessa relação incestuosa. A tragédia culmina com o suicídio de Jocasta e a automutilação de Édipo, que arranca seus próprios olhos.

Sófocles, nessa tragédia, evoca não só a questão do destino implacável, da expiação das faltas humanas, mas também o tabu do incesto. Jakobson (1970) trata isso como “a indispensável precondição para o intercâmbio mais amplo de companheiros e, destarte, para a expansão do parentesco e a consequente edificação das alianças econômicas, cooperativas e defensivas” (p.52). Dessa forma, a praga que assolou Tebas era exatamente a quebra desse tabu, que, inevitavelmente, seria um prelúdio de um retrocesso na construção social.

A engrenagem dos relacionamentos parte desse paradigma: a ampliação do intercâmbio e expansão da sociedade. Jakobson (1970) diz que “entretanto, tudo se passa como se os seres vivos fossem estruturados, organizados e condicionados com vistas a um fim: a sobrevivência do indivíduo, mas, sobretudo, a da espécie” (p. 50). Exatamente nesse ponto há uma confusão quanto à perpetuação da espécie. Equivoca-se quem pensa que a base dela é a procriação; a humanidade existe muito mais pela capacidade de relacionamento do que pela reprodução

Dessa forma, para que essa engrenagem funcione na sua plenitude, as relações de trocas devem ser ampliadas para além da família. O tabu do incesto vem para mostrar, exatamente, que ela, por si só, não basta para a conservação da humanidade. Faz-se necessário expandir esse horizonte, isto é, “a solidariedade que transcende à família” (JAKOBSON, 1970, p.52). Isso modifica a forma agir diante de certos dogmas naturalizados pelo senso comum: as diversas configurações familiares, o casamento homoafetivo, o rompimento de barreiras culturais, a abertura de fronteiras, tudo isso aumenta potencialmente o andamento da máquina social. Ao contrário da restrição do conceito de família, da homofobia, do preconceito social, da xenofobia, que, usando o argumento de manter a humanidade viva, interfere exatamente fazendo o oposto disso. A autonomia e a integração são elementos fundamentais para a perpetuação de nossa espécie.

Evidentemente, que essa máquina social dissipa energia, mas é muito importante ter a consciência de seu funcionamento. As engrenagens que a movem precisam constantemente ser reavaliadas, não apenas no seu aspecto autônomo, mas também no mecanismo de integração entre elas. Com base nessas três trocas: a de mensagem, a de utilidades e a de relacionamentos, a humanidade se perpetua. No entanto, para isso, é preciso manter esse mecanismo sempre aquecido, compreendendo que as contradições e divergências são a energia para uma síntese, que está no porvir.

Referências:

JAKOBSON, Roman, Linguística, Poética, Cinema. Ed. Perspectiva, São Paulo, 1970. https://www.bibliaonline.com.br/, acesso em 14/02/16 BAKHTIN, Mikhail, Estética da Criação Verbal. Ed. Martins Fontes, 1° edição, São Paulo, 1992. JAKOBSON, Roman, Linguística e Comunicação. Ed. Cultrix, São Paulo, 1995. SÓFOCLES, Édipo Rei. Ed. L&PM, Porto Alegre, 2007. CHAPLIN, Charles, Tempos Modernos. Estados Unidos, 1936.


Artur Custodio

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