fragmentos

Da crítica literária à Literatura crítica

Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura.

Goethe! (2010): O Desaparecimento do autor diante do surgimento do herói

O signo é uma coisa que representa outra coisa. A Arte, constantemente, produz uma enxurrada de signos. Tudo nela é representação. Em Goethe!, de Philipp STÖLZL, parte da vida de Johann Wolfgang Von Goethe, mais precisamente no período em que escreve “Os Sofrimentos do Jovem Werther” (1774) é contada de uma maneira repleta de nuances significativas. Goethe seria o signo que representa Werther, no filme, porém, Werther também é uma representação de um emaranhado de objetos da vida de Goethe, o autor. Sem considerar ainda que o Goethe-Werther do filme é uma criação do diretor Philipp Stölzl. Isso gera uma combinação praticamente infinita de representações, mostrando que, de fato, o mundo é semântico e que o objeto representado também é um signo representativo. Dessa forma, o filme presta uma ideia de resistência do nome do autor, mesmo no desaparecimento de sua individualidade frente à sua personagem.


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O mundo é semântico. A construção da humanidade parte da percepção do que é signo, isto é, através do pressuposto de que tudo que vemos é obra de nosso ponto de vista, a existência nada mais é do que representação. A natureza crua é alvo de uma infinita enxurrada de outras coisas que a significa. Por exemplo, uma palavra, uma pintura, um grito, tudo isso é signo, ou seja, uma coisa que representa outra coisa. Lúcia Santaella, uma das principais estudiosas do pensamento de Peirce, um dos mais representativos nomes do estudo da Semiótica, usa o seguinte exemplo para mostrar a ideia de signo:

Um grito, por exemplo, devido a propriedades ou qualidade que lhe são próprias, representa algo que não é o próprio grito, isto é, indica que aquele que grita está, naquele exato momento, em apuros ou sofre alguma dor ou regozija-se na alegria. Isto que é representado pelo signo, quer dizer, ao que ele se refere é chamado de seu objeto. Ora, dependendo do tipo de referência do signo, se ele se refere ao apuro, ou ao sofrimento ou à alegria de alguém, provocará em um receptor um certo efeito interpretativo: correr para ajudar, ignorar, gritar junto, etc. Esse efeito é o interpretante. (SANTAELLA, 2005, p. 8)

A Arte é o lugar onde essa ideia semiótica é utilizada com a maior sinceridade, pois fica explícita a representação. Isso é visto, entre tantas outras marcas, no uso dos sentidos conotativos das palavras, quer dizer, o chamado sentido figurado, cujas figuras de linguagem se evidenciam. A metonímia é uma das que mais explicitam precisamente a ideia de representatividade dos signos.

Ela é uma figura de pensamento, que pratica as relações reais de ordem qualitativa de uma palavra com a outra. Entre suas aplicações, uma das mais usuais é a substituição do nome da obra pelo nome do autor, por exemplo: ler Goethe, escutar Mozart, ver um Portinari. Na verdade, o que o interlocutor lê, escuta ou vê, é a obra desses autores. É exatamente nesse ponto significante, que gera o intrincado processo de compreensão do interpretante: confunde-se o autor com sua obra.

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Goethe! (Young Goethe in love – 2010), filme de Philipp Stölzl, conta a história de parte da vida de Johann Wolfgang Von Goethe, mais precisamente no período em que escreve “Os Sofrimentos do Jovem Werther” (1774). A história começa dois anos antes, quando Goethe vai estagiar na sede da corte da justiça, em Wetzlar. Em pouco tempo, conhece Charlotte Buff, por quem tem uma tórrida paixão. Ao mesmo tempo em que ele desenvolve esse amor, o pai de Lotte (assim a chamavam) concede a mão da filha para o Conselheiro Kestner, chefe do jovem. A partir disso, Goethe não mais pode ver sua musa e vive uma espécie de inferno astral, pois, além disso, seu melhor amigo, Karl Wilhelm Jerusalem, suicida-se por um amor também não correspondido, por uma mulher casada. Goethe, após uma armadilha de Kestner, vai preso e, no claustro da prisão, escreve o famigerado livro.

O momento crucial para essa análise é exatamente o processo de produção desse livro. Foucault diz que:

A escrita se desenrola como um jogo que vai infalivelmente além de suas regras, e passa assim para fora. Na escrita, não se trata da manifestação ou da exaltação do gesto de escrever; não se trata da amarração de um sujeito em uma linguagem; trata-se da abertura de um espaço onde o sujeito que escreve não para de desaparecer ( FOUCAULT, 1969, p.6)

Goethe, no filme, a partir do momento em que começa a escrever sua própria história, apropria-se de fatos que não aconteceram com ele, mas que, literariamente, são interessantes. Nesse instante, sua individualidade dá lugar ao seu herói.

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Enquanto se encontrava preso, Goethe pede ao carcereiro papel e tinta. Uma de suas primeiras frases escritas é: “E Johann caiu aos pés do espetáculo mais encantador”. Nesse momento, aos prantos, risca seu nome e coloca, no lugar, “Werther”. A partir daí, seu texto flui, como se Werther já fosse uma persona significativa, “O autor-artista encontra seu herói preexistente, já dado independentemente de seu ato criador puramente artístico e ele não pode parir um herói (que seria pouco convincente)” (Bakhtin, 1992, p.212).

Assim, o jovem Werther conta, através de cartas para seu amigo Wilhelm (Karl, na verdade) sua tempestuosa paixão por Charlotte; o impedimento desse amor, pelo fato de ela já estar comprometida com Albert (Conselheiro Kestner); e, por fim, Goethe dá a Werther seu trágico desígnio, o suicídio, com um tiro no olho, com a pistola de Albert, que lhe proporciona horas de agonia até a morte.

Nesse último fato, há uma miscelânea de informações reagrupadas: quem, verdadeiramente, suicidou-se foi seu amigo Karl, que agonizou por horas, após um tiro no olho, pelo amor não correspondido de sua musa, comprometida com outro. A arma utilizada não foi a do Conselheiro Kestner, essa referência vem do duelo forjado entre Johann e seu chefe, para que o jovem fosse preso.

Apesar disso, Goethe tenta, com uma arma roubada do carcereiro, suicidar-se, isto é, dar a si o mesmo fim de sua personagem. No entanto, seu fracasso mostra que “a relação de valor consigo mesmo é esteticamente irreal. Eu não posso ser mais do que o portador do desígnio artístico que me dará forma e acabamento, ou seja, o herói” (BAKHTIN, 1993, p.202). Segundo Bakhtin, o autor aproxima-se do seu herói no momento em que sua consciência e seus valores estão sob o domínio da consciência e dos valores do outro, ou seja, da personagem. Esse instante de oscilação Goethe crê em Werther, ainda mais, crê ser Werther. Porém ao recobrar os sentidos, coloca-se novamente na fronteira de mundo entre ele e sua criação.

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O filme se encerra mostrando o estrondoso sucesso que o livro ‘Sofrimentos do Jovem Werther” teve na Alemanha. Isso fez de Goethe uma das figuras mais significativas da literatura alemã, inaugurando, inclusive, um movimento que ficou conhecido como “Sturm und Drang”, que, em uma tradução livre quer dizer “tempestade e bebedeira (ou ímpeto)”. Futuramente, esse movimento se expandiu, agregando-se a outros autores com características semelhantes, e ficou conhecido mundialmente como “Romantismo”.

No entanto, é preciso retomar a ideia inicial da confusão do interpretante a respeito do processo metonímico da troca da referência do autor por sua obra. Ao ler “Os Sofrimentos do Jovem Werther” e ao ver o filme “Goethe!”, associa-se o criador e seu herói, isto é, percebe-se que o livro é, de certa forma, uma autobiografia. Sendo assim, tem-se a impressão de estar de fato lendo e vendo a vida de Johann Wolfgang Von Goethe. Isso acontece porque há o constante desaparecimento do autor, apesar de seu nome ainda prevalecer.

Comparando a ideia de Santaella a respeito do signo, Goethe seria o signo que representa Werther, no filme, porém, Werther também é uma representação de um emaranhado de objetos da vida de Goethe, o autor. Sem considerar ainda que o Goethe-Werther do filme é uma criação do diretor Philipp Stölzl. Isso geraria uma combinação praticamente infinita de representações, mostrando que, de fato, o mundo é semântico e que o objeto representado também é um signo representativo. Sendo assim, “a marca do escritor não é mais do que a singularidade de sua ausência; é preciso que ele faça o papel do morto no jogo da escrita. Tudo isso é conhecido; faz bastante tempo que a critica e a filosofia constataram esse desaparecimento ou morte do autor” (FOUCAULT, 1969, p.7). Ou seja, de Goethe mesmo tem-se, metonimicamente, só o que sua obra e seus heróis contam.

Referências:

http://claudiacavalcanti.net/2013/05/30/goethe-no-seu-tempo-e-no-nosso/ - acesso em 06/01/2016

http://fido.rockymedia.net/anthro/foucault_autor.pdf - acesso em 06/01/2016 - acesso em 06/01/2016

SANTAELLA, Lúcia, Semiótica Aplicada. Ed. Pioneira Thomson Learning, 2005, São Paulo.

GOETHE, Johann, WERTHER. Ed. Abril, 1° edição, 1971, São Paulo

BAKHTIN, Mikhail, Estética da Criação Verbal. Ed. Martins Fontes, 1° edição, 1992, São Paulo.

STÖLZL, Philipp, GOETHE! , 2010, https://www.sendspace.com/file/z0u1zb (torrent)


Artur Custodio

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