fragmentos

Da crítica literária à Literatura crítica

Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura.

O Estrangeiro, de Albert Camus: O romance do absurdo

Um mundo indiferente, uma vida existencialista e um assassinato banal. Esses são os ingredientes para um romance aparentemente simples, mas que desenvolve uma complexa teoria do absurdo. Albert Camus, em "O Estrangeiro", constrói em sua personagem principal, Sr. Meursault, uma figura absurdista, que mostra a crise do homem do seu tempo: um homem sem projeto pré-dado, sem destino e, principalmente, sem sentido algum na sua existência.


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Albert Camus (1913-1960) é um escritor francês, nascido na Argélia, no período em que ela era uma colônia da França. Filho de uma família de operários, perdeu o pai durante a Primeira Guerra Mundial, em 1914. Sua precária condição de vida e a morte prematura de seu pai foram ingredientes importantes para Camus engajar-se no Partido Comunista Francês (1934-1935). Durante esse tempo, travou íntima amizade com Jean-Paul-Sartre, um dos principais representantes do Existencialismo francês. No entanto, rompeu esse vínculo ao deixar de acreditar na necessidade de engajamento do existencialista, abandonando inclusive o partido, para seguir o viés mais radical dessa ideia, pautada pela teoria do absurdo, o Absurdismo.

Essa teoria diz que o absurdo é o ato de existir, pois a vida é desprovida de projeto prévio, desprovida de sentido e desprovida de finalidade, isto é, o homem é aquele que está diante do nada e tenta encontrar algum sentido para viver. Dessa forma sua existência é uma busca de sentido contínua. Dentro disso, gera-se uma categoria fundamental – a angústia -, que, inevitavelmente vai remeter no seguinte dilema: ou deus ou nada. Isto é, ou deus existe e é o fim último da existência humana ou a existência humana não tem sentido nenhum. Sendo assim, deus seria a busca visceral por um sentido.

Para Camus, a angústia nasce desse absurdo, lugar de eterno retorno da condição humana. Dessa forma, chega-se à pergunta mais importante para o homem, segundo o escritor francês, a chamada questão do suicídio: a vida vale a pena ou não ser vivida? Sartre soluciona essa dúvida com a posição do engajamento, isto é, a resposta do existencialismo para isso é um comprometimento com a existência. Já Camus nega, inclusive, esse comprometimento.

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Camus desenvolve essa ideia no romance “O Estrangeiro” (1942), que conta a história de Meursault, um funcionário de escritório, que recebe com indiferença a notícia da morte de sua mãe. Após o velório e o enterro dela, enamora-se de Marie, uma ex-colega de trabalho. E, por fim, acaba se envolvendo numa trama de vingança, a qual é completamente alheio, mas que o leva a cometer um assassinato.

O ponto-chave dessa obra é esse assassinato. Meursault mata um árabe na praia, sem qualquer premeditação e totalmente movido por um impulso. Diante do tribunal, após várias hipóteses e tramas construídas pela imprensa e pela promotoria, ele justifica que matara aquele homem por causa do sol.

O romance é dividido em duas partes: a primeira apresenta a personalidade de Meursault e revela essa condição existencialista dele. A segunda já trata basicamente do seu julgamento, após o assassinato do árabe. Essa divisão pode ser lida como uma relação de causa e consequência, ou seja, um impulso absurdo, desprovido de qualquer consistência, desencadeia em um resultado bem mais sério. Ele explicita esse pensamento no final da história:

“Afinal existia uma ridícula desproporção entre o julgamento que a fundamentara e o seu imperturbável desenrolar a partir do instante em que este julgamento fora pronunciado. O fato de a sentença ter sido lida não às cinco da tarde, mas às oito horas da noite, o fato de que poderia ter sido outra, completamente diferente, de que fora determinada por homens que trocam de roupa e que fora dada em nome de uma noção tão imprecisas quanto o povo francês (ou alemão ou chinês), tudo isto me parecia tirar muito da seriedade desta decisão. Era obrigado a reconhecer, no entanto, que a partir do instante em que fora tomada os seus efeitos se tornavam tão certos, tão sérios...” (CAMUS, 2016, p.100)

Esse trecho se refere ao resultado do julgamento de Meursault e mostra a fragilidade da consistência daquilo que define a condenação de alguém. O homem envolvido no absurdo da ausência de sentido de sua vida julga outro homem tão imerso ao nada quanto ele. Meursault define sua sentença a uma sucessão de acasos que desencadeia em um resultado extremamente sério.

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A primeira parte do livro se inicia com Meursault contando da morte de sua mãe: “Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: ‘Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentimos pêsames’. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.” (CAMUS, 2016, P.13). Nessa informação já há um estranhamento quanto ao comportamento dele, pois aparentemente dedica-se mais a inexatidão da data de falecimento da mãe do que propriamente da morte dela.

Durante o velório no asilo, Meursault se apegava a pequenas coisas ao seu redor: aos besouros, a luzes, a bengalas, a cordas nas barrigas das senhoras, a barrigas das senhoras, a rugas e aos olhos pequenos dos velhos. Tudo o distraía e, de certa forma, o irritava. Há uma sensação de distanciamento. A tristeza, o cansaço, o suor, tudo isso parecia estar nos outros. A ação estava nos outros. E tudo era causado pelo hábito. Pensava ele sobre a vida de sua mãe naquele lugar: “Nos primeiros dias de asilo ela chorava muitas vezes. Mas era por causa do hábito. Ao fim de alguns meses teria chorado se a tirassem de lá, tudo devido ao hábito” (CAMUS, 2016, p.14).

No dia seguinte ao enterro de sua mãe, Meursault vai à praia e reencontra uma antiga colega de trabalho, a ex-datilógrafa do escritório, Marie Cardona. Passam o dia juntos, vão ao cinema e depois dormem juntos. Ela ao perceber seu luto, perguntou o tempo em que sua mãe havia falecido. Diante da resposta recente, surpreende-se:

“Hesitou um pouco, mas não fez comentário. Tive vontade de dizer-lhe que a culpa não era minha, mas detive-me porque me pareceu já ter dito a mesma coisa ao meu patrão. Isto nada queria dizer. De qualquer modo, a gente sempre se sente um pouco culpado.” (CAMUS, 2016, p.26)

Essa sensação de desconforto com o luto foi a tônica de todos as conversas que convergiam para a morte de sua mãe. Uma tentativa de se desvincular disso, tentando mostrar que a culpa da morte da mãe não tinha nada a ver com ele. Uma culpa que não tinha dono, mas que recaia sobre ele.

Outro ponto existencialista é o momento em que Meursault trava amizade com seu vizinho, Raymond, um cafetão, que rotineiramente espanca sua namorada. Esse homem pede ajuda dele para escrever uma carta a sua mulher. Logo em seguida se declara seu amigo. No entanto, o mais surpreendente foi a resposta de Meursault:

“Declarou-me então que, justamente, queria pedir-me um conselho a propósito deste assunto, que eu, sim, era um homem que conhecia a vida, que podia ajuda-lo e que em seguida ficaria meu amigo. Não disse nada e ele me perguntou de novo se eu queria ser amigo dele. Respondi que tanto fazia” (CAMUS, 2016, p.34)

“Tanto faz” acaba se tornando uma das expressões mais usadas por Meursault. Ele a usa quando seu chefe lhe oferece um cargo em Paris: “Disse que sim, mas que no fundo tanto fazia. Perguntou-me, depois, se eu não estava interessando em uma mudança de vida. Respondi que nunca se muda de vida; que, em todo caso, todas se equivaliam” (CAMUS, 2016, p. 45 e 46). E usa também quando Marie pergunta se ele queria se casar com ela: “À noite, Marie veio buscar-me e perguntou se eu queria casar-me com ela. Disse que tanto fazia, mas que se ela queria poderíamos nos casar.” (CAMUS, 2016, p.46)

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No entanto, em meio a todo esse distanciamento de Meursault para os acontecimentos de sua vida, há um que a transforma radicalmente. Ele e Marie são convidados a passar um dia na casa de praia de um amigo de Raymond. Mas são perseguidos por alguns árabes. Raymond e Masson (o dono da casa de praia) partem para a briga corporal, enquanto Meursault fica na retaguarda com um revólver. Após toda essa confusão, retornam para casa. Porém, Meursault, impulsivamente, resolve voltar ao local da luta e comete, absurdamente, o crime.

Ao ficar frente a frente com o árabe, que se mostrava acuado, Meursault sente-se desconfortável e irritado por causa do sol.

“Por causa deste queimar, que já não conseguia suportar, fiz um movimento para a frente. Sabia que era estupidez, que não me livraria do sol se desse um passo. Mas dei um passo, um só passo à frente. E desta vez, sem se levantar, o árabe tirou a faca, que ele me exibiu ao sol” “Foi então que tudo vacilou. O mar trouxe um sopro espesso e ardente. Pareceu-me que o céu se abria em toda a sua extensão, deixando chover fogo. Todo o meu ser se retesou e crispei a mão sobre o revólver. O gatilho cedeu, toquei o ventre polido da coronha e foi aí, no barulho ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo começou. Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Então atirei quatro vezes ainda num corpo inerte em que as balas se enterravam sem que se desse por isso. E era como se desse quatro batidas secas na porta da desgraça” (CAMUS, 2016, p. 60)

Esse ato é um dos pontos importantes para a compreensão do comportamento de Meursault: sua experiência sentimental é totalmente pautada pela sua experiência superficial. Isto é, ele se comporta basicamente como um indivíduo vazio por dentro, mas que sofre reações a partir de fatos externos: o sol, o mar, o velório, o casamento, o emprego, tudo isso são construções externas. Em contrapartida parece ignorar os sentimentos: o cansaço, a alegria, a tristeza, o amor, os desejos. Dessa forma, pode ser que se entenda o motivo desse romance chamar-se “O Estrangeiro”. Exatamente, porque Meursault porta-se como um estranho ao mundo sensível, não entendendo o peso de suas ações. Meursault é um ser naturalmente existencialista, mas que não se engaja. Pode-se ver então a marca do autor: Albert Camus planta em sua personagem a teoria do absurdo.

A partir daí Meursault é preso e sua alma começa a ser desvendada em um dos julgamentos literários mais famosos. Um caso aparentemente simples transforma-se praticamente em um desvelamento de máscaras sociais. O promotor transforma a acusação de assassinato em uma denúncia de insensibilidade de um filho diante do velório da mãe.

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Meursault é condenado à morte. Será guilhotinado. Enquanto isso, aguarda seu recurso na prisão. Nesse tempo nega, por diversas vezes, a visita do capelão. Essa última parte do livro desencadeia uma das questões mais importantes do existencialismo: diante do extremo de sua vida e diante de uma vida pautada no absurdo, ou aceita-se um deus como o fim último de sua existência ou aceita-se a condição absurda de existir.

O capelão, mesmo sem autorização de Meursault, entra na cela e tenta travar algum tipo de diálogo: “- Por que recusa as minhas visitas? Respondi que não acreditava em Deus. Quis saber se tinha certeza disso e eu respondi que não valia a pena fazer-me tal pergunta: parecia-me sem importância.” (CAMUS, 2016, p.105). Após várias tentativas de persuadi-lo a aceitar Deus, o religioso faz a seguinte pergunta: “Não tem nenhuma esperança e consegue viver com o pensamento de que vai morrer todo por inteiro? - Sim – respondi.” (CAMUS, 2016, p.106).

Dessa forma, Meursault completamente consciente de si mesmo, de sua vida e do seu iminente fim, despede-se do mundo, com extrema calma: “a paz maravilhosa deste verão adormecido entrava em mim como uma maré. Neste momento, e no limite da noite, soaram sirenes. Anunciavam partidas para um mundo que me era para sempre indiferente” (CAMUS, 2016, p.109 e p.110).

Encerra-se, dessa maneira, a existência de mais um ser humano essencialmente sem solução. Em que sua vida de indiferenças mostrou-se agressiva para um mundo insincero e repleto de máscaras sociais. Quase patologicamente vazio, Meursault revela ao leitor a crise do homem do seu tempo: um homem sem projeto pré-dado, sem destino, e, principalmente, sem sentido. Frente ao absurdo do mundo e a cólera que recai sobre ele, Meursault sente-se purificado diante da morte e, finalmente, em casa, na multidão de vazios de lugar nenhum, despede-se da humanidade que o odeia – e mais nada.

CAMUS, Albert. O Estrangeiro. Ed. Best Bolso, Rio de Janeiro – RJ, 2016.


Artur Custodio

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