fragmentos

Da crítica literária à Literatura crítica

Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura.

O Meu Eu-Herói: O problema dos perfis em redes sociais, na atividade estética

Para Bakhtin, "O artista que luta por uma imagem determinada e estável de um herói luta, em larga medida, consigo mesmo”. Muitas vezes, nossa imagem, nas redes sociais, toma proporções de uma criação artística. Ao ponto de confundir nossa própria realidade com essa criação, transformando-nos numa espécie de eu-herói. Essa ideia pode nos gerar uma perda de identidade e grandes frustrações.


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“O artista que luta por uma imagem determinada e estável de um herói luta, em larga medida, consigo mesmo” (BAKHTIN, 1992, p. 27). Bakhtin tratava nesse enunciado, especificamente da relação entre o autor e o herói, pois, esteticamente, o criador sabe e vê mais do que sua personagem conhece. Mesmo assim, muitas vezes, por um caráter de empatia, o próprio autor se coloca na posição do herói, vendo o mundo a partir de seu sistema de valores. Quando isso acontece, a relação estética entre eles termina, pois passam a enxergar o mesmo horizonte e passam também a não mais se verem de frente, isto é, não se contemplam mais. Esse movimento não está restrito à construção artística, mas também no cotidiano de nossas vidas. Seguidamente, encontramo-nos lutando conosco, exatamente para manter coerente a criação de nossa imagem nas redes sociais.

Bakhtin diz que “para viver, devo estar inacabado, aberto para mim mesmo (...) devo não coincidir com minha própria atualidade” (BAKHTIN, 1992, p.33). Isto é, o horizonte ao qual meu ponto de vista se posiciona é de uma amplidão superior ao que conheço de mim, ou seja, devo me colocar sempre predisposto ao porvir. Contrariamente, o herói, ou seja, o outro, criado a partir de minha visão, é um ser acabado, pois vejo suas fronteiras, conheço suas reações, prevejo seus atos, exatamente, por vê-lo de fora. Muito provavelmente, essa relação entre o autor e o herói pode ser transposta para nossa representação na criação de uma imagem social no mundo virtual.

No momento em que crio um perfil social, devo, antes de tudo, descrever-me, isto é, criar minhas fronteiras de identificação. A partir desse momento, assumo, tacitamente, um compromisso com a verossimilhança de minha criação, que quer dizer, devo me portar semelhantemente como me descrevo, caso contrário, não terei a credibilidade esperada e a aceitação da comunidade. Essa é a luta pela imagem determinada e estável do herói, citada por Bakhtin. Além disso, passo a viver essa criação de uma maneira em que suas expectativas moldam minhas ações, ou seja, há uma constante necessidade de reafirmação dessas fronteiras pré-estabelecidas.

narciso.jpg O mito de Narciso:

Essa relação entre o autor e o herói nas redes sociais pode nos remeter ao mito de Narciso. Há inúmeras versões dessa história, uma das mais conhecidas é a que Narciso, ao nascer, recebeu o vaticínio de que, para ter vida longa, nunca poderia ver seu reflexo. Ao crescer, tornou-se o jovem mais belo de sua região, porém de extrema arrogância e prepotência. As ninfas, por ele rejeitadas, pediram aos deuses uma vingança: apaixonar-se pelo próprio reflexo na lagoa de Eco. Narciso, assim, cumpre seu destino, morrendo de inanição, contemplando, sem poder desviar os olhos, sua própria imagem nas águas.

Esse mito coloca Narciso impedido de exercer o domínio sobre sua maior identidade, a beleza. Não é a toa que seu nome em grego é Narkhé, ou seja, torpor, assim como os narcóticos. De certa forma, ele fica entorpecido por sua própria imagem, impedindo-o de ver e viver a realidade. Podemos, assim, voltar ao fator inicial dessa discussão: a luta que o autor tem em criar uma imagem estável de seu herói e o quanto isso é lutar contra si mesmo.

facebook.jpg O entorpecimento virtual:

Quando não mais construo minha imagem virtual como um manifesto, uma crítica, ou qualquer outra ideia de valor ético; e passo a produzir uma personagem esteticamente idealizada e completa em minha mente, ao qual me identifico e julgo ser eu; abdico de minha individualidade para me tornar minha própria criação – meu eu-herói. Para Bakhtin, “o acontecimento estético, para realizar-se, necessita de dois participantes, pressupõe duas consciências que não coincidem” (BAKHTIN, 1992, p.42); isto é, nossos horizontes não podem estar voltados para o mesmo sentido, nem ao menos posso me tornar o outro, sem com isso perder a condição criadora dele.

Dessa forma, no momento em que faço de minha vida um perfil de rede social, deixo de ser um indivíduo subjetivo e criador, e passo a ser um indivíduo objetivo e herói. O grande problema disso tudo é que saio da posição ativa e passo para uma posição passiva, torno-me, de certa forma, refém de minha própria criação. Abrindo mão, muitas vezes, daquilo que me constrói como ser, para manter a verossimilhança desse produto estético – meu perfil social.

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Meu Eu-Herói do Outro

Além da possiblidade de eu me apaixonar pela minha figura criada nas redes sociais, há ainda a chance do outro criar a minha imagem, usando o mecanismo da aceitação. Dessa forma, passo não mais a manter uma relação de tensão entre mim e minha imagem, mas, sim, entre mim e minha imagem aceita socialmente. Por exemplo, eu percebo um ritmo das atualizações de meu grupo de amigos, que tendem a tomar determinado sentido, a partir desse momento, lanço um manifesto relatando minha opinião. Caso essa ideia seja extremamente bem aceita e eu não tiver o domínio da minha relação com meu discurso, pode-se formar, nesse instante, a fronteira necessária para determinar minha imagem nas redes sociais. Após essa aceitação, passo a nortear minha construção virtual dentro dessas delimitações. Isso, se não for observado, transformará a minha imagem, que será moldada pela aprovação alheia. Dessa maneira, o outro, o curtidor de minhas postagens, passará a ser meu criador, e eu o seu herói.

Dessa forma, minha relação com as redes sociais precisam ser extremamente claras, pois serão opiniões e manifestos, quando eu, indivíduo subjetivo e único no mundo, emitir ideias de caráter ético. No entanto, caso comece a ter uma relação de criação estética, torno-me então um criador de um herói, que, nesse caso, seria meu perfil virtual. A relação narcisista que surge desse evento faz com que eu me funda com minha criação, transformando-me num eu-herói, ou seja, a figura presa dentro da tela do computador ou do celular, assim como a imagem de Narciso na lagoa de Eco.

Além disso, corro o risco também, de ser seduzido pela aceitação alheia, que dará o sentido de minha criação, moldando, assim, seu horizonte. Caso, eu já esteja encarnado na pele de minha criação, é bem possível, que me aproprie dos melhores resultados dela, passo então à condição do herói do outro, do meu curtidor. Sendo assim, é preciso que eu tenha consciência de ser eu mesmo nas redes sociais, porque, se isso não acontecer, estarei vivendo “a luta por uma imagem determinada e estável de um herói”, como afirma Bakhtin, que seria uma luta comigo mesmo – princípio da perda de uma identidade e de uma possível grande frustração.

Referência:

BAKHTIN, Mikhail, Estética da Criação Verbal. Ed. Martins Fontes, 1° edição, 1992, SP – São Paulo.


Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura..
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