fragmentos

Da crítica literária à Literatura crítica

Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura.

A Torre de Babel: o poder da linguagem

O episódio da Torre de Babel, relatado na Bíblia, mostra que tão ou mais forte que o dilúvio e tão poderoso, ao ponto de aterrorizar o próprio Deus, é o domínio do homem sobre a sua linguagem.


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Em determinado momento da história da Bíblia, Deus se arrependeu de ter criado o homem na Terra. E resolveu exterminá-lo. No entanto, viu em Noé um homem justo. Dessa forma, decidiu salvá-lo juntamente com a família dele e casais de animais que existiam na época, para repovoar o mundo. Assim, ordenou que Noé construísse uma arca para abrigar a todos os escolhidos.

Após essa imensa embarcação ficar pronta e Noé colocar os casais de animais nela, Deus, então, mandou um dilúvio para a Terra. Choveu por quarenta dias. Quando, enfim, a punição acabou, os descendentes de Noé reiniciaram a história da humanidade no planeta. Dessa família surgiram os homens que decidiram construir a Torre de Babel.

Nesse momento, todos os homens falavam a mesma língua. E disseram uns para os outros para construírem uma cidade e uma torre que atingisse os céus. Deus vendo isso, pensou que a humanidade estava tomando proporções incontroláveis. Ele, então, desceu à Terra e confundiu a linguagem desses homens. Foi assim que Deus dispersou os homens por toda a Terra.

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Deus agiu de forma diferente na segunda vez que interferiu no andamento da humanidade. Enquanto na primeira vez precisou de um dilúvio, uma grande catástrofe para exterminar os homens em corrupção; na segunda, apenas teve que confundir a linguagem humana. Dessa forma, podemos pensar que seria, então, a linguagem tão ou mais poderosa que um diluvio? E esse poder sendo usado plenamente nas mãos humanas provocaria temor, inclusive, ao próprio Deus, nesse caso?

O Homem é o único animal que tem o domínio pleno do seu sistema de comunicação. Enquanto outros animais comunicam-se em sistemas primários, o ser-humano consegue decompor, analisar e entender seu mecanismo de linguagem. É exatamente isso que o diferencia. A linguagem é um sistema complexo humano que gera a capacidade de dizer tudo. Assim, quando Deus confunde a linguagem tira a possibilidade desses homens de se comunicar.

Segundo Benveniste, a diferença capital da linguagem humana e da comunicação dos outros animais é a possibilidade de resposta, não apenas a ação de uma conduta. Isso significa que o Homem sobressai-se na natureza, exatamente, pelo seu poder de diálogo: “falamos com outros que falam, essa é a realidade humana” (BENVENISTE, 1995, p.65). Dessa forma, podemos entender o sucesso da empreitada de Deus no impedimento da construção da Torre de Babel: sem a linguagem o ser humano perde sua essência – a capacidade dialógica.

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Segundo o capítulo da Torre de Babel, “toda a terra tinha uma só língua, e servia-se das mesmas palavras”, e foi exatamente nesse ponto em que Deus confundiu a linguagem. Costumeiramente, usa-se linguagem, língua e palavras como sinônimos, mas são fundamentos diferentes da comunicação humana.

De acordo com Roman Jakobson: "Todo processo de comunicação funciona da seguinte forma: “O remetente envia uma mensagem ao destinatário. Para ser eficaz, a mensagem requer um contexto a que se refere (...) apreensível pelo destinatário (...); um código total ou parcialmente comum ao remetente e ao destinatário (...); e, finalmente, um contato, um canal físico e uma conexão psicológica entre o remetente e o destinatário, que os capacite ambos a entrarem e permanecerem em comunicação” (JAKOBSON, 1960, p.123)

Isto quer dizer que linguagem é todo o sistema de comunicação, e ela é composta pelo remetente, pelo destinatário, pela mensagem, pelo código, pelo canal e pelo contexto. Já a língua é o código de um dos tipos possíveis de linguagem, ao qual chamamos de linguagem verbal. De acordo com Ferdinand de Saussure, a língua é “um produto social da faculdade de linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos (SAUSSURE, 2000, P.17). Em outras palavras, a língua é “um sistema de signos distintos correspondentes a ideias distintas” (SAUSSURE, 2000, p. 18). E essas ideias são manifestadas por meio das palavras.

Dessa maneira, Deus confundiu as línguas, ou seja, os códigos, fazendo com que os interlocutores (remetente e destinatário), apesar de serem dotados de fala e estarem inseridos nos mesmo contexto, não conseguiam estabelecer comunicação porque o sistema de linguagem estava incompleto. Somente com o domínio do código em ambos interlocutores o diálogo se tornaria possível. Assim, tão poderoso quanto um dilúvio e tão aterrorizante inclusive para deuses, é o domínio humano sobre seu sistema de linguagem. Haja vista, inclusive, em regimes de governos totalitários, um dos primeiros atos é a censura, ou seja, o cerceamento das possibilidades dialógicas; ao mesmo tempo em que sociedades mais avançadas são as que mais trabalham a construção linguística e os avanços das questões de comunicação. Aprendemos com Babel a manter o controle daquilo que nos constitui como ser e nos faz indivíduos sociais – a linguagem humana.

REFERÊNCIAS:

Torre de Babel - Bíblia. Gn 11.1-9

BENVENISTE, Émile. Problemas de Linguística Geral 1. Campinas, SP, ed. Pontes, 1995.

JAKOBSON, Roman. Linguística e Comunicação. São Paulo, SP, ed. Cultrix, 1960.

DE SAUSSURE, Ferdinand. Curso de Linguística Geral. São Paulo, SP, ed. Cultrix, 2000.


Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura..
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