fragmentos

Da crítica literária à Literatura crítica

Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura.

Aula de alta potência: O deslocamento do parâmetro intelectual na educação

A quem excluímos quando optamos por uma aula mediana, que contempla apenas alunos de carga cultural deficitária, e a quem excluímos quando optamos por uma aula de alta potência, que provoque e desafie alunos de boa carga cultural? Esse artigo tenta mostrar que a aula de alta potência sempre vai ser o modelo mais produtivo de construção de conhecimento para todos.


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Ferdinand de Saussure (1857-1913) foi um linguista e filósofo suíço, que, no decorrer de sua carreira, sempre se preocupou com a precisão de seu objeto de estudo. Tanto é que, em sua mais importante obra O “Curso de Linguística Geral” (1916), mesmo que na voz de seus discípulos (o livro é póstumo) define, talvez pela primeira vez, com uma riqueza de exatidão, qual seria o objeto de estudo da Linguística – a língua.

Porém, o ponto chave para esse artigo não é o objeto específico, mas o caminho adotado para se chegar ao sucesso desse curso; o que poderíamos chamar de didática saussuriana. Segundo o linguista, uma das decisões mais importantes para construir suas aulas era saber qual o caminho a adotar para se chegar aos seus objetivos estabelecidos. Saussure diz:

“Vejo-me diante de um dilema: ou expor o assunto em toda a sua complexidade e confessar todas as minhas dúvidas, o que não pode convir para um curso que deve ser matéria de exame, ou fazer algo simplificado, melhor adaptado a um auditório de estudantes...Mas a cada passo me vejo retido por escrúpulos” (SAUSSURE, 2000, p. XVII e XVIII)

Possivelmente esse escrúpulo dito pelo autor o impediu de ministrar aulas com esse caráter ‘simplificado’. Dessa forma, Saussure produziu um curso de alta potência, que resultou numa revolução no método de se pensar a língua. É exatamente esse o dilema que o professor, seja da escola básica, seja do ensino superior, deve perceber antes de produzir seu plano de estudos.

Sendo assim, tenta-se, por meio desse artigo, demonstrar que o melindre na definição do objeto de estudo, na adequação da metodologia de trabalho, na organização de critérios que analisem os conceitos, os procedimentos e as atitudes durante o diálogo sobre o tema são imprescindíveis para o sucesso de uma aula. Porém, muito mais necessário torna-se ainda o escrúpulo do professor de ter a consciência da complexidade do assunto e das constantes dúvidas que podem surgir no decorrer do processo. Para que isso aconteça, é necessária uma transformação na referência de aula, isto é, deixar o trabalho alinhado à baixa potência, baseado no aluno médio, e partir para um estudo voltado para alta potência, identificado no aluno de vanguarda.

Um dos elementos mais importantes e, de certa forma, um tanto polêmico, é o deslocamento desse referencial de aluno, da base para o ápice na sala de aula: a vanguarda deve ser tomada como parâmetro intelectual na educação básica. Para que isso aconteça, é preciso reestruturar a didática aplicada – do obscurantismo das ideias amalgamadas, em virtude de uma falsa inclusão de todos ao tema proposto; à clareza do objeto de estudo, com uma fortuna crítica adequada e consistente, para que o diálogo possa adquirir um caráter mais complexo e útil. Além disso, faz-se necessário também a criação de estratégias de identificação dos alunos de alto padrão, para provocá-los e instigá-los ao máximo. Esses estudantes serão a peça chave para o progresso dialógico, pois eles farão o papel de intermediários do conhecimento com os alunos médios. Dessa forma, pautado na honestidade e no conhecimento do professor, no empoderamento e na participação das vanguardas de sala de aula, potencializa-se também os outros alunos. A educação deve voltar-se para o progresso e ele só acontece a partir do real conhecimento dos temas que permeiam a humanidade.

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A quem excluímos (nós, professores), quando optamos por uma aula mediana, que contempla apenas alunos de carga cultural deficitária? A resposta é clara – a vanguarda da sala de aula-, que perderá o interesse; que não se sentirá instigada ao progresso; que buscará em outros ambientes os diálogos promissores para seu desenvolvimento. Ao passo que a quem excluímos quando optamos por uma aula de alta potência, que provoque e desafie alunos de boa carga cultural? A resposta não é espelhada na anterior, pois, nesse caso, todos constroem conhecimento, exatamente por serem tencionados pela vanguarda.

Kandinsky (1914) ao pensar na arte de vanguarda a compara com um triângulo, diz ele:

"Um grande triângulo dividido em partes desiguais, a menor e a mais aguda no ápice, representa esquemática, mas suficientemente bem a vida espiritual. Quando mais se vai em direção à base, mais essas partes são grandes, largas, espaçosas e altas.

Todo triângulo, num movimento quase imperceptível, avança e sobe lentamente, e a parte mais próxima do ápice atingirá ‘amanhã’ o lugar onde a ponta estava ‘hoje’. Em outras palavras, o que para o resto do triângulo ainda é hoje apenas uma lengalenga incompreensível e só faz algum sentido para a ponta extrema, revelar-se-á amanhã, para a parte que lhe está mais próxima, impregnado de emoções e de novas significações". (KANDINSKY, 1996, p. 35)

O que Kandinsky tenta evidenciar nessa metáfora é a necessidade da existência de uma vanguarda, que capte o momento social e cultural e que transcrevam, em algum tipo de linguagem, esse lugar, para que a base da pirâmide venha a percebê-lo mesmo tardiamente. Isso deixa claro que todos acabam sendo beneficiados nesse movimento, independentemente do tempo. No entanto, caso essa vanguarda não seja estimulada, corre-se o risco de abafá-la e silenciá-la envolta de uma massa de senso comum. Essa última ideia é enganosa, pois passa uma falsa imagem de conhecimento para a base, ao mesmo tempo em que exclui a vanguarda.

Dessa forma, faz-se necessária uma revisão não apenas da didática de sala de aula, mas também de cultura escolar. Há uma falsa impressão de inclusão social na escola, pois, ao focar no aluno médio ou deficitário, perde-se a construção e mantém-se o status quo. É preciso, acima de tudo, repensar a educação, provocando aquilo que é a sua essência: a inquietude do saber, a ânsia pelo progresso, a necessidade do conhecimento. Caso contrário, estaremos fadados à eterna estagnação e a uma burocratização dos ambientes educacionais, ou seja, um simples protocolo a ser cumprido para a inserção do sujeito no mercado de trabalho.

Referências:

SAUSSURE, Ferdinand. Curso de Linguística Geral, ed. Cultrix, São Paulo, SP, 2000.

KANDINSKI, Wassily. Do Espiritual na Arte, ed. Martins Fontes, São Paulo, SP, 1996.


Artur Custodio

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