fragmentos

Da crítica literária à Literatura crítica

Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura.

Contraponto (1928), o romance-sinfonia, de Aldous Huxley

Um romance de ideias, uma sonata literária. Huxley inova o padrão estético da literatura em "O contraponto", uma revolução no pensamento literário do século XX.


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Quando um artista nos apresenta uma variação estética da arte a qual ele se filia, devemos considerar isso como um grande evento. Costumeiramente, estamos envolvidos nas tramas das obras, pelo viés temático, pelo enredo, pela história contada nos livros. Acabamos, de certa forma, considerando um bom escritor aquele que tem uma boa história para contar. No entanto, a literatura é muito mais do que isso, a arte da linguagem verbal é valorada pelo seu potencial estético, isto é, muito mais do que a história contada, vale para nós a forma de contar essa história.

Aldous Huxley (1894-1963) é um desses escritores que trazem uma variação na forma estética da composição de um romance. Ilustre escritor inglês, mas que passa bom tempo de sua vida nos Estados Unidos, é criador de algumas peças literárias mais significativas do século XX, dentre elas o cultuado “Admirável Mundo Novo” (1932) e, para muitos, sua obra prima o “Contraponto” (1928). Exatamente essa segunda é o foco de nossa análise: “Contraponto” traz para o mundo dos romances a simultaneidade e a polifonia da poética musical. Isso faz dessa obra quase uma grande sinfonia.

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Diante da complexidade da estrutura da composição narrativa desse romance, o primeiro ponto necessário para conseguir entrar no ritmo da leitura é perceber o andamento dessa grande orquestra. Num primeiro momento, o leitor descuidado e ignorante ao modelo de Huxley pode cair na armadilha dessa trama de múltiplos sons, ou seja, aparentemente o livro não tem um enredo específico, parece um emaranhado de conflitos que não se entrelaçam, devido, inclusive, ao alto número de personagens que surgem na história.

No entanto, essa confusão inicial pertence ao modelo estético proposto pelo autor, pois algumas resoluções no decorrer da história vão clareando aos olhos e ouvidos do leitor as imagens e os sons distintivos dessa sinfonia. Assim, a produção de sentido do que é dito não é imediata, mas construída conforme a percepção é aguçada. Para isso, é importante ficar atento às dicas do narrador para as estratégias de leitura do texto.

Uma das informações mais importantes para a leitura desse romance surge durante o jantar na mansão dos Tantamounts. Uma família da aristocracia inglesa que promove uma festa, onde grande parte do núcleo das personagens representativas da história está presente, mesmo que, muitas vezes, nem ao menos se cruzem. Nessa festa, uma orquestra toca peças clássicas da música erudita e, durante a narração da sinfonia, revela-se o modo como a vida das personagens será contada:

“As diversas partes vivem suas vidas separadas; elas se tocam, seus caminhos se cruzam, combinam-se um instante para criar o que parece uma harmonia final e perfeita, mas somente para tornarem a se separar mais uma vez. Cada uma é sempre só, separada e individual. ‘Eu sou eu’, afirma o violino; ‘o mundo gira em torno de mim’. ‘Em torno de mim’, reclama o violoncelo. ‘Em torno de mim’, insiste a flauta. E todos igualmente têm razão e igualmente se enganam; e nenhum deles quer escutar os outros” (HUXLEY, 2014, p.40 e 41)

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Huxley coloca em prática a polifonia muito estudada nos escritos de Mikhail Bakhtin: “a literatura sempre jogou com a pluralidade de vozes, presente na consciência dos locutores” (BAKHTIN, 1992, p.15). Essa ideia de múltiplas vozes funciona não apenas de forma lateral, ou seja, de personagem para personagem como se fossem instrumentos musicais que se complementam e se distanciam de acordo com as frases. Mas também de forma vertical, isto é, um discurso que é resultado de infinitos outros diálogos inseridos na grande temporalidade da existência humana.

Essa harmonia com o tempo fica evidente no seguinte trecho:

“o ser vivente não constitui uma exceção à grande harmonia natural que faz com que as coisas se adaptem umas às outras; ele não rompe nenhum acorde; não está em contradição nem em luta com as forças cósmicas gerais. Longe disso, é um elemento do concerto universal das coisas, e a vida do animal, por exemplo, não passa de um fragmento da vida total do universo” (HUXLEY, 2014, p.47)

Isso é música. Harmonia, contraponto e modulações. E assim esse romance deve ser lido, como uma grande sinfonia das relações humanas.

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Após compreender que esse romance deve ser lido como música, é importante também perceber qual a proposta narrativa de Huxley para seu livro de vanguarda. Assim, torna-se muito necessário ver em Philip Quarles, uma das personagens, uma espécie de alterego do autor na história. Quarles é um escritor muito mais afeito à intelectualidade do que à sensualidade mundana. Ele é casado com Elinor Bidlake, que serve como uma espécie de mediadora entre o escritor e o resto do mundo.

Quarles, curiosamente, está produzindo um romance de ideias. E para isso utiliza um caderno para anotar seus pensamentos e a estrutura desse livro. Tais anotações surgem no “Contraponto” como uma espécie de poética de Huxley, isto é, os pensamentos de Philip norteiam a compreensão e a leitura, pois mostram os bastidores da construção dessa grande sinfonia huxleyana.

No seu caderno, Philip descreve o grande problema em compor um romance de ideias: “O defeito capital do romance de ideias é que somos obrigados a pôr em cena pessoas que têm ideias a exprimir, o que exclui mais ou menos a totalidade da raça humana” (HUXLEY, 2014, p. 464). Esse aparente pedantismo, mas que produz um desconfortável pensamento de concordância com Quarles, é levado à risca no decorrer do “Contraponto”, ou seja, todas as personagens significativas da história são intelectuais. Dessa forma, cada uma das peças dessa sinfonia tem um som único, representativo, significativo e próprio.

Assim, Huxley constrói, possivelmente, sua obra prima estética, um romance polifônico, musical, descentralizado e evolutivo. Dessa imensa obra tira-se uma visão apurada sobre o mundo contemporâneo de sua época e, muitas vezes, premonitória. No entanto, não é uma construção simples, é um deleite intelectual para quem já conhece os sons dos romances de ideias. Escute as palavras e perceba os movimentos de ponto e contraponto dessa sonata literária do século XX como quem escuta Beethoven, que o retorno dessa grande investida é um progresso no seu padrão de leitura.


Artur Custodio

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