fragmentos

Da crítica literária à Literatura crítica

Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura.

Dez dicas para uma aula honesta de literatura

Uma proposta didática para uma aula honesta de literatura.


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Didática é a arte de ensinar. Essa parte da pedagogia se ocupa com o método e as técnicas que os professores adotam para desenvolverem suas aulas. Muitas vezes, você pode ter se deparado com algum professor, seja na escola ou na universidade, que aparentava ter uma boa bagagem de conhecimento de determinado tema, mas que não conseguia se fazer entender. Faltava-lhe a didática. Da mesma forma, outros poderiam deixar evidentes suas limitações, no entanto, suas aulas seguiam um andamento tão claro e tão dialógico, que potencializavam o pouco que se tinha a dizer. Eles tinham uma boa didática. Dessa forma, resolvi fazer uma pequena lista, para mostrar alguns pontos que procuro seguir para construir minhas aulas e, com isso, tentar ajudar jovens professores e, principalmente, lançar essas ideias para que sejam trabalhadas, questionadas, refutadas, etc.

1 – Saiba qual o seu objeto de estudo e deixe isso claro para os alunos.

A Literatura, especificamente, é uma arte que envolve muitos sentimentos diversos e o professor, na maioria das vezes, é um apaixonado por livros. Isso, claramente, é muito bom para todos, mas pode acarretar certos deslizes quando se trata de uma aula. Dentro das escolas, a Literatura é tratada como uma disciplina de análise, ou seja, parte-se do texto e estuda-se elementos da produção desse texto. Dessa forma, costumo dizer que, na sala de aula, se trabalha a ciência da literatura, ou seja, ela deve ser vista de forma racional. E o princípio básico de uma ciência é o reconhecimento do seu objeto de estudo.

Jakobson diz que “o objeto do estudo literário não é a literatura, mas a literariedade, isto é, aquilo que torna determinada obra numa obra literária. (...) Se o estudo da literatura quer tornar-se ciência, ele deve reconhecer o ‘processo’ como seu único ‘herói’” (JAKOBSON, 1970, p. 178 e 179)

2 – Tenha sempre um texto base para a aula e indique-o com antecedência.

Um pressuposto aparentemente óbvio para o desenvolvimento de uma aula de literatura é que os sujeitos envolvidos tenham lido previamente o texto a ser analisado. Porém isso nem sempre acontece. Muitas vezes, professores trabalham a literatura fragmentada, ou seja, trechos de obras, frases de autores consagrados, etc., para desenvolver certo tema. Dessa forma, há um esvaziamento do sentido desse estudo, pois o aluno não tem contato com o material a ser estudado.

Além disso, planeje com antecedência o trabalho das obras. Se for estudar algum romance ou um texto de maior extensão, indique-o já no início do bimestre ou trimestre, para ser lido no decorrer dessa etapa. Textos mais curtos, poemas, contos, crônicas podem ser indicados com uma aula de antecedência.

3 – Facilite o acesso ao livro indicado.

A escolha das obras trabalhadas também deve ser norteada pelo acesso a elas. Verifique na biblioteca de sua escola o número de exemplares do livro. Ademais, a maioria dos textos estudados são consagrados e já estão em domínio público, isto é, facilmente são encontrados em PDF na internet. Há inúmeros sites que disponibilizam os clássicos nesse tipo de arquivo.

Assim, o aluno pode ler o texto no celular, no tablet, etc., sem nenhum custo.

Outra estratégia interessante de se fazer é entrar em contato com alguma livraria de sua cidade e fazer uma parceria. Livros populares, vendidos a preço de custo para alunos aumentam a circulação de novos leitores nesses ambientes e todos saem ganhando.

4 – Defina o recorte temático a ser trabalhado no texto.

Jakobson (1970)) faz a seguinte crítica a historiadores da Literatura:

O mais das vezes, assemelhavam-se à polícia que, tendo por finalidade prender determinada pessoa, tivesse apanhando, por via das dúvidas, tudo e todos que estivessem num apartamento, e também os que passassem casualmente na rua naquele instante. Tudo servia para os historiadores da literatura: os costumes, a psicologia, a política, a filosofia. Em lugar de um estudo da literatura, criava-se um conglomerado de disciplinas mal acabadas. (JAKOBSON, 1970, p. 178 e 179)

Ou seja, alguns professores tentam esgotar o inesgotável, isto é, as possibilidades de recortes temáticos para trabalhar uma obra. Assim, acabam, em diversas ocasiões, tangenciando o objeto de estudo literário, para falar de temas que não dominam profissionalmente. Então, a escolha da obra deve ser pautada dentro da relevância estética dela. Defina, antecipadamente, qual o objetivo da leitura. Essa clareza insere o aluno no diálogo e potencializa a aula.

5 – Deixe explícitas as referências teóricas de sua aula.

Em tempos de turbulências na educação, em que professores seguidamente são acusados de doutrinação, nada melhor do que ser honesto com seu aluno. E isso acontece com a clareza das etapas de seu trabalho. Dessa forma, depois de ter escolhido a obra, feito o recorte temático, dê credibilidade a sua ideia com referenciais teóricos consistentes. Essa atitude, além de mostrar uma fortuna crítica, enriquece o debate sobre o texto.

No entanto, não faça dessas referências sua verdade absoluta, Bakhtin diz que muitos estudiosos “acreditam estar praticando a ciência e buscando a verdade, esquecendo que se baseiam em pressupostos arbitrários” (BAKHTIN, 1992, p. 4). Isto é, o mais importante é dar abertura para o diálogo, mas mantendo um sentido lógico e consistente da argumentação sobre o texto analisado.

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6 – Distribua adequadamente seu tempo de aula.

A Literatura, na maioria das instituições de ensino médio, dispõe de dois períodos semanais, com aproximadamente 50 minutos cada um. Ou seja, a aula precisa ser dinâmica nesse tempo, seu planejamento deve ter início, meio e fim, seja por período seja por semana. Então, procure não exagerar nas informações, causando um estresse prejudicial a produção de sentido, nem reduzir demais o diálogo, provocando ociosidade na sala de aula.

Francisco Mora, especialista e neuroeducação, diz que: Estamos percebendo, por exemplo, que a atenção não pode ser mantida durante 50 minutos, por isso é preciso romper o formato atual das aulas. Mais vale assistir 50 aulas de 10 minutos do que 10 aulas de 50 minutos. Na prática, uma vez que esses formatos não serão alterados em breve, os professores devem quebrar a cada 15 minutos com um elemento disruptor: uma anedota sobre um pesquisador, uma pergunta, um vídeo que levante um assunto diferente.

Isto é, saiba aumentar e diminuir a tensão de suas aulas. Para isso, é interessante criar blocos de estudos, intercalando-os com algum momento de descontração ou informalidades.

7 – Identifique os leitores das turmas.

Num plano ideal, gostaríamos que todos os alunos lessem os livros indicados e fossem participativos nas aulas, porém sabemos que a realidade é um pouco diferente. Uma das últimas pesquisas sobre leitores no Brasil, a Retratos da Leitura No Brasil, mostra que 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro. Essas porcentagens são manifestadas também em sala de aula. Assim, o professor irá se deparar com mal leitores e não-leitores na turma. Então, é importante identificar o mais rápido possível quais são os leitores reais das turmas. Esses leitores reais serão os parceiros do professor no seu trabalho. É preciso que essa vanguarda seja estimulada, pois é ela que dará vida à didática. Além disso, esses alunos ocupam um lugar social na turma e podem ajudar a inserir novos leitores, devido a afetividade e proximidade linguística.

8 – Saiba o que os professores das disciplinas afins estão trabalhando.

Uma constante nos projetos políticos e pedagógicos nas escolas é a interdisciplinaridade, ou seja, o diálogo entre as diferentes disciplinas do currículo. Essa ligação não precisa nem ser feita por meio de projetos (se eles existirem, melhor), mas através do próprio aluno, que deve ser instigado a isso. Dessa forma, é sempre bom saber o que os professores de História, de Geografia, de Filosofia, de Português, de Artes, entre outros, estão trabalhando. O pensamento “linkado”, aquela fala que acessa outras falas, é altamente contemporâneo.

Por exemplo, se você está trabalhando “Versos Íntimos”, de Augusto dos Anjos, provoque a relação entre os versos “O homem, que, nesta terra miserável/ Mora, entre feras, sente inevitável/ Necessidade de também ser fera” e a fala de Thomas Hobbes, “O homem é o lobo do homem”. Nisso você acessa o que o aluno estudou na aula de filosofia, de história, e potencializa seu conhecimento.

9 – Entenda que a literatura não está apenas nos livros, mas não confunda as artes.

A partir do momento em que se tem clareza sobre o objeto de estudo da Literatura, percebe-se que ela não está encerrada apenas nos livros. Mas também nas canções, nos roteiros de cinema, nas peças de teatro, etc. Então há um universo a ser explorado em diversas mídias, basta saber identificar a literariedade nas obras.

No entanto, não substitua uma obra por outra. Se você se propôs analisar determinado livro, que, por ventura, foi fonte para algum filme, por mais que tenha o mesmo título, todas as referências direcionadas adequadas, ainda assim, o filme é outra obra, não o livro. Dessa forma, ou o filme é o objeto de análise de sua aula ou ele serve para contextualizar, mostrar outro ponto de vista baseado no livro estudado.

10 – Privilegie o texto original do autor.

Um dos grandes desafios da escola é tornar a leitura uma prática para a juventude. Tem-se a ideia de que a leitura ‘obrigatória’ (prefiro dizer recomendada) não é prazerosa. Em função disso, usa-se diversas estratégias para conquistar a atenção dos estudantes: como obras adaptadas para outras mídias diferentes do livro; reconstrução de clássicos em uma linguagem mais simples; resumos dos textos; etc. Isso tudo, mesmo feito com boa intenção, subverte o texto original, deturpa a obra do autor, ressignifica o discurso, pois altera enunciados e sentidos. Possivelmente o problema esteja na produção de sentido. A leitura dos clássicos deve ser orientada (eis o motivo de se ter aula de literatura). Possibilitando o acesso aos textos e uma boa orientação de leitura, provavelmente, o aluno compreenderá melhor os discursos, ampliará seu vocabulário, perceberá intenções discursivas e atingirá o que se espera da aula de literatura: a qualificação da leitura, através da produção de sentido. Para isso é muito importante manter o texto original.

Referências:

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/02/17/economia/1487331225_284546.html http://cultura.estadao.com.br/blogs/babel/44-da-populacao-brasileira-nao-le-e-30-nunca-comprou-um-livro-aponta-pesquisa-retratos-da-leitura/ JAKOBSON, Roman. Linguística. Poética. Cinema. Ed. Perspectiva, São Paulo, SP, 1970 BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. Ed. Martins Fontes, São Paulo, SP, 1992


Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura..
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