fragmentos

Da crítica literária à Literatura crítica

Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura.

Negrinha, de Monteiro Lobato: a materialidade da opressão

Racismo ou denúncia de uma sociedade racista? Negrinha, o polêmico e (quase) censurado conto de Monteiro Lobato.


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Othon Garcia em seu livro “Comunicação em prosa moderna” destaca a necessidade de desenvolver o teor da comunicação nos discursos. Segundo ele “uma das características de nossa época, uma das fontes ou causas das angústias, conflitos e aflições do nosso tempo parece que está na complexidade, na diversidade e na infidedignidade da comunicação” (GARCIA, 1986, p.X). Somos constantemente envolvidos em mal-entendidos, em preconceitos, em incompreensões, etc. Isso tudo, de acordo com Garcia, deve-se às “generalizações apressadas, as declarações gratuitas, as indiscriminações, os clichês, os rótulos.” (GARCIA, 1986, p.X).

Algumas obras de Monteiro Lobato foram envolvidas, em 2012, num processo judicial provocado pelo Instituto de Advocacia Racial (IARA), em que eram acusadas de serem racistas. Segundo os advogados, os livros em questão, não atendiam às diretrizes do Programa Nacional Biblioteca da Escola, consequentemente não poderiam estar em circulação nas escolas públicas ou, caso estivessem, deveriam ter notas explicativas em trechos com evidente preconceito racial.

Dentre os livros citados, um de contos chamado ‘Negrinha’, de 1920. Nele, o texto homônimo ao título da obra conta a história de uma criança órfã de sete anos de idade, filha de uma ex-escrava, que vivia na casa de Dona Inácia, uma ex-senhora de escravos. Essa menina é constantemente maltratada e castigada: “O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo”. Monteiro Lobato usa um discurso cru e violento para contar essa história, inclusive com marcas de animalização e coisificação para definir Negrinha. Os evidentes sinais racistas da narrativa levaram à denúncia do conto. No entanto, vamos nos deter nos conselhos de Othon Garcia e analisar esse texto evitando generalizações apressadas e sobre o ponto de vista da materialidade do discurso.

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Constantemente, a Literatura se torna alvo de intervenções de análises que extrapolam sua esfera. Essa condição de multiplicidade de vieses de estudo se deve, basicamente, ao caráter peculiar de seu objeto. A Sociologia, a Psicologia, a História, etc. utilizam os documentos literários muitas vezes para desenvolver temas como costumes, comportamento, relato de fatos, entre outros. Mas é importante compreender que essa transversalidade toda se apropria da Literatura, mas não a analisa dentro do seu campo de atuação.

Jakobson diz, diante dessa miscelânea, que “o objeto de estudo literário não é a literatura, mas a literariedade” (JAKOBSON, p. 178, 1970), ou seja, o ponto de vista em que uma obra de arte literária deve ser analisada, dentro do campo da Literatura, é o da estética da linguagem verbal. Assim, o conto Negrinha, de Monteiro Lobato, para atingir a proposta inicial do autor, de evidenciar as condições subumanas em que viviam os descendentes de negros escravizados no Brasil, precisou usar marcas discursivas de extrema violência e opressão para provocar esse efeito.

A estratégia de Monteiro Lobato para provocar essa sensação de opressão e desumanidade, nesse conto, foi a do uso de termos que indicavam semelhanças e dessemelhanças de Negrinha com relação as outras personagens. Saussure dá sustentação teórica para esse artifício linguístico: “Mesmo fora da língua, todos os valores parecem estar regidos por esse princípio paradoxal. Eles são sempre constituídos: 1° por uma coisa dessemelhante, suscetível de ser trocada por outra cujo valor resta determinar; 2° por coisas semelhantes que se podem comparar com aquela cujo valor está em causa” (SAUSSURE, p.134, 2000)

Assim, sobraram adjetivos que representavam um caráter de animalização ou coisificação para Negrinha, como: peste, diabo, gato sem dono, coruja, barata descascada, bruxa, pata-choca, pinto gorado, mosca-morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa ruim, lixo, entre outros. Ao passo que, para D. Inácia, mesmo como ironia, as adjetivações eram de natureza quase divinas: excelente senhora, virtuosa, dama de grandes virtudes, ótima, santa Inácia, etc. Isso tudo marcou as duas personagens, por dessemelhança, em lugares diferentes no contexto da história: Dona Inácia, virtuosa mulher, que, por caridade, deixava a criança viver em sua casa, colocada num patamar quase divino, fora do seu lugar real; Negrinha, um bicho, uma coisa, que servia para aliviar as tensões de Inácia, através dos castigos, e, de resto, era apenas um estorvo, também fora de seu lugar.

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No entanto, em função do grande distanciamento entre Negrinha e Dona Inácia, essas dessemelhanças não produziam tanto sentido na vida da criança. Isso porque era a única na casa. Dessa forma, a menina tinha a percepção de que criança era tratada assim, pois não havia outro referencial além dela. Porém, em determinado momento da história, Dona Inácia recebe a visita de duas sobrinhas suas, “pequenotas, lindas meninas louras, ricas, nascidas e criadas em ninho de plumas”. E a partir daí o referencial muda e Negrinha começa a perceber a materialidade da opressão.

As sobrinhas de Dona Inácia irromperam pela casa no ímpeto festivo de crianças em plena infância. Negrinha, num primeiro momento, esperou que a senhora as castigasse. O que não aconteceu. Por semelhança, ela então “levantou-se e veio para a festa infantil”, afinal, parecia que não era mais crime brincar, parecia que tudo teria mudado. Mas, por dessemelhança, a pobre criança recebeu a mais dura lição da desigualdade humana, ao ser afastada por Dona Inácia das outras meninas: “Já para seu lugar, pestinha! Não se enxerga?”

Mikhail Bakhtin diz que parte do que conhecemos de nós vem a partir do outro, ele chama isso de contemplação: “Devo identificar-me com o outro e ver o mundo através de seu sistema de valores, tal como ele o vê; devo colocar-me em seu lugar, e depois, de volta ao meu lugar completar seu horizonte com tudo o que se descobre do lugar que ocupo, fora dele” (BAKHTIN, p. 45, 1992). Negrinha contemplou as sobrinhas de Dona Inácia, colocou-se no lugar delas, descobriu, a partir da vivência, o que era ser criança. Mas, quase instantaneamente, voltou ao seu lugar, e viu-se plenamente diferente delas.

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A maior marca dessa desigualdade veio quando Negrinha viu, pela primeira vez, uma boneca. As sobrinhas de Dona Inácia quase não acreditaram que a menina nunca tinha tido contato com tal brinquedo. Foi a única vez que lhe foi permitido brincar verdadeiramente. A partir dessa aproximação do universo das outras meninas, Negrinha, por semelhança, teve a grande descoberta de sua vida:

"Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma. Divina eclosão Surpresa maravilhosa do mundo que trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada à altura de ente humano. Cessara de ser coisa – e doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava! Assim foi – e essa consciência a matou."

Assim, Monteiro Lobato ao caracterizar Negrinha com adjetivações de animal e coisa situou o leitor no lugar social de opressão onde essa criança vivia. Essas marcas textuais foram úteis no momento da comparação com as outras personagens, pelo aspecto de dessemelhança no tratamento entre elas. Ao mesmo tempo que a semelhança, que ocorre no momento em que Negrinha brinca como as outras crianças, trouxe para a menina a descoberta de ser também humana. O contraste gerado dessa vivência e de seu lugar social desencadeou na sua morte, melancólica morte, morte de tristeza.

Sendo assim, a partir da materialidade do texto, pode-se perceber essas nuances nas transformações interiores de Negrinha. Dentro de uma linguagem crua e violenta, Lobato foi extremamente eficiente na denúncia de um preconceito desumano, que não seria percebido pela personagem, caso os contrastes não fossem evidenciados através das palavras. Assim a Literatura exerce seu papel na sociedade, assim ela deve ser estudada, de acordo com o seu objeto específico de estudo – a estética da linguagem verbal, ou ainda, literariedade. O resto são apenas especulações e transversalidades.

Referências:

GARCIA, Othom M. Comunicação em prosa moderna. 13 ed, RJ: ed da Fundação Getúlio Vargas, 1986. BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1992. JAKOBSON, Roman. Linguística, Poética, Cinema. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1970. SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. São Paulo, SP: Ed. Cultrix, 2000. MORICONI, Ítalo. Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro RJ: Ed. Objetiva, 2009.


Artur Custodio

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