fragmentos

Da crítica literária à Literatura crítica

Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura.

O surrealismo, o sincretismo e o real-maravilhoso no Reino deste mundo, de Alejo Carpentier

Numa cultura naturalmente surrealista, nasce o real-maravilhoso de Alejo Carpentier. De uma mistura mística de religiões, história e imaginação, surge "O Reino deste Mundo", contando de uma maneira peculiar a independência do Haiti.


cidade.jpg

É possível brincar com os sentidos das palavras quando se torna mais íntimo delas. O rigor formal, o sentido denotativo, os burocratismos linguísticos só servem aos indivíduos de domínio médio da língua. A zona de conforto, o lugar comum, o argumento da segurança, nada disso será vanguarda, já que se trata de conservação, já que se trata de convenção, já que se trata de mediocridade estética. Gosta-se daquilo que faz sentido, e se o domínio linguístico é parco, poucas coisas fazem sentido, logo, pouco se gosta do que ousa romper os padrões.

Falo isso porque penso numa das vanguardas europeias mais inventivas, do início do século XX – o Surrealismo. Modelo estético que se aventura em romper com a lógica racional da criação artística, o decoro e o bom gosto da representação burguesa de uma arte clássica, que se intitula referência das instituições consagradoras do que é belo. Os surrealistas bebem da fonte do psiquismo e da interpretação dos sonhos, recém propagadas, na época, para a comunidade intelectual, por Sigmund Freud. Aquilo que é onírico funde-se com o que é realidade latente, formando uma amálgama transcendente e subversiva, além do real, sobrerreal (surrealité).

dali.jpg

O Surrealismo é um movimento de vanguarda nascido em Paris, no período entre as duas grandes guerras do século XX. Os artistas que organizam essa nova estética são dissidentes do Dadaísmo, movimento mais radical das vanguardas, defensores de um rompimento total dos padrões clássicos, classificando-se, inclusive, como antiarte. No entanto, essa negação total da lógica não teve uma grande aceitação e suas obras, caso seguissem nesse padrão, jamais produziriam sentido sozinhas. Isso porque estariam, inevitavelmente, atreladas a negação da estética clássica, quer dizer, para se manterem vivas, necessariamente, deveriam estar intimamente ligadas ao que rejeitavam. Dessa forma, o Surrealismo surge como um amadurecimento desses artistas, que conservaram o desprendimento Dadaísta, mas produziram uma ponte entre a materialidade de uma realidade latente e a ousadia de um mundo onírico.

Por mais que seja um movimento surgido na Europa, pode-se dizer que a América foi o continente que potencializou essa estética. Poderia, inclusive, brincar com a palavra e dizer que o Surrealismo nada mais é do que o realismo do hemisfério sul. Principalmente na América Latina, surgem grandes nomes que desenvolvem esse modelo de arte: Gabriel Garcia Marquez, Frida Kahlo, Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, Alejo Carpentier, entre outros.

frida.jpg

Carpentier, no prólogo do “Reino deste mundo”, mostra o que entende sobre as diferenças do surrealismo europeu para o latino-americano. Para ele, os europeus buscavam o maravilhoso na descrença, simplesmente, como um artifício estético para demonstrar inovações técnicas, seja no âmbito das artes visuais seja no da literatura. Já o povo latino americano tinha isso intrincado na sua essência, como entidade formadora de um povo relativamente absurdo aos olhos do europeu, ou seja, os latinos já eram naturalmente surrealistas.

Uma das escolas literárias mais proeminentes na América Latina ficou conhecida como Realismo Fantástico ou Realismo Mágico ou ainda Real Maravilhoso (essa última terminologia foi adotada por Alejo Carpentier). Essa era a vertente da literatura para o Surrealismo latino, que tinha como grande característica a fusão da cultura europeia do progresso tecnológico e colonização com a religiosidade autóctone e uma sociedade quase utópica da cultura latino-americana. Desse lugar quimérico surgiram inúmeros grandes autores, como Gabriel Garcia Marquez com seu tão premiado “Cem anos de solidão”; Mário de Andrade com o anti-herói “Macunaíma” e Alejo Carpentier com “O Reino deste mundo”, nosso objeto de análise.

alejo.jpg

“O reino deste mundo” (1949), escrito pelo cubano Alejo Carpentier, é um dos marcos do realismo fantástico na América Latina. Esse romance conta os fatos que precederam a independência do Haiti, a transição do poder de uma colônia francesa, plenamente, liderada por brancos, para um reinado e uma nação negra. Repleto de personagens históricas e fatos documentados, Carpentier permeia o que poderia ser um livro histórico, com um imaginário fantástico, sincretista de religiões afros e europeias, além de lendas que povoam a formação daquele povo.

O leitor acompanha Ti Noel, um velho negro escravizado por Monsieur Lenomand de Mezy, na transição para a independência do Haiti e a abolição da escravatura desse país. Ti Noel é um dos mais fiéis seguidores de uma figura lendária desse lugar, Mackandal. Essa personagem era um negro vigoroso e trabalhador, que num acidente com a moedeira de cana, é obrigado a amputar um dos braços. A partir desse momento, ele passa a ter contato com a Mamãe Loi, considerada bruxa, e aprende a lidar com folhas e ervas. Até que um dia some.

Desde esse instante, Mackandal torna-se uma espécie de entidade constante no imaginário dos negros daquele lugar:

De noite, em suas barracas e moradias, os negros comunicavam-se, com grande regozijo, as mais estranhas notícias: uma iguana verde aquecera seu dorso no teto do secador de tabaco; alguém tinha visto voar, no meio do dia, uma mariposa noturna, um cão grande, de pelo arrepiado, atravessara a casa a toda velocidade, levando um pernil de veado... (...) Todos sabiam que a iguana verde, a mariposa noturna, o cão desconhecido...não eram senão simples disfarces. Dotado do poder de transformar-se em animal de cascos, em ave, peixe ou inseto, Mackandal visitava continuamente as fazendas da planície para vigiar seus fiéis e saber se ainda confiavam em sua volta. (CARPENTIER, 2009, p.37)

Essa reverência a Mackandal pelos escravos desenvolveu uma espécie de mito messiânico, ou seja, esperava-se pelo seu regresso. Ti Noel tornou-se um intermediador da palavra de Mackandal, ensinando, inclusive canções em sua glória. Essa possível crença gerou nos negros escravizados um novo repertório de signos, que se tornaram muito úteis durante o planejamento da rebelião que iria libertá-los da escravidão. Assim, o movimento abolicionista do Haiti se desenvolve dentro do paradigma da religião Vodu.

“Era possível que, durante anos e anos, tivessem cultivado as práticas dessa religião debaixo de seus narizes, comunicando-se por meio de tambores usados para as danças, sem que ele o suspeitasse. Mas por acaso uma pessoa culta haveria de se preocupar com as crenças selvagens daqueles que adoravam uma serpente?” (CARPENTIER, 2009, p.63)

O Vodu passou a ser uma prática religiosa com duplo sentido, isto é, não somente de cunho místico, mas também com ideias conspiratórias.

“O vodu era o meio da conspiração. Apesar de todas as proibições, os escravos viajavam quilômetros para cantar, dançar, praticar os seus ritos, conversar e escutar as novidades políticas e traçar seus planos.” (JAMES, 2000: p.91)

Dessa forma, enquanto os colonos europeus acreditavam que os negros estavam apenas celebrando um culto de sua religião, esses ritos serviam como reunião de uma sociedade secreta com caráter cultural, religioso e político. A insurreição surgida desses encontros gera a abolição da escravatura no Haiti. Em “O reino deste mundo”, Carpentier conta essa revolução mostrando certo grau de crueldade dos rebeldes, com fazendas queimadas, mortes e estupros das mulheres brancas.

“Ti Noel colou a boca, longamente, com muitos goles, na torneira de um barril de vinho espanhol. Depois, subiu ao primeiro andar da moradia, seguido dos seus filhos maiores, pois já fazia muito tempo que sonhava violentar Mademoiselle Floridor, que, em suas noites de tragédia, exibia ainda, sob a túnica ornada de laços, seios nada danificados pelo irreparável ultraje dos anos” (CARPENTIER, 2009, p.58 e 59)

Assim, o sincretismo, que é uma ressignificação dos elementos da linguagem, uma alteração no sentido simbólico, principalmente envolvendo religiões, torna-se o grande trunfo de uma das mais importantes insurreições abolicionistas da América. Carpentier percebe nesse ponto a possibilidade de carregar de elementos fantásticos um fato histórico, produzindo uma obra ao mesmo tempo surrealista e histórica. Essa fusão ele denomina de Real-maravilhoso, um gênero tipicamente latino, um patrimônio da América, onde “ainda não se terminou de estabelecer, por exemplo, um inventário de cosmogonia” (CARPENTIER, 2009, p.10)


Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Artur Custodio