fragmentos

Da crítica literária à Literatura crítica

Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura.

Os Indiferentes, de Alberto Moravia: As máscaras hipócritas de uma cena familiar

Num jogo em que todos conhecem as máscaras de todos, a hipocrisia é a representação mais clara da indiferença humana. Em "Os Indiferentes", de Alberto Morávia, essa incapacidade de reação de uma família de classe média é evidenciada num romance de máscaras ao estilo Commedia dell Arte, em que as personagens encenam suas falsidades de uma maneira tão caricata, que não conseguem esconder a falência das instituições que compõem a sociedade.


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“Os Indiferentes”, de 1929, é o primeiro romance do escritor italiano Alberto Moravia. Surgido dentro do panorama cultural fascista na Itália, Moravia destacou-se por uma escrita extremamente realista e amarga diante da hipocrisia humana e das relações de aparências de uma classe média falida. Enquanto a propaganda do regime totalitário indicava uma imagem de família consistente, moralmente irretocável, o autor deteve-se nas entranhas desse microcosmo para perceber a fragilidade dessa instituição e, acima de tudo, mostrar sua incapacidade de reação. A representação de família, em “Os Indiferentes”, é de uma trupe de personagens caricatas, que atuam cada um dentro do seu papel, ao mesmo tempo em que o pensamento deles revela de fato quem realmente são.

Esse romance é construído com uma estética teatral, a cada final de capítulo, tem-se a sensação de um fechamento de cortinas, enquanto os atores se preparam para uma nova cena. Grande parte dessa encenação se passa na casa de Mariagrazia, amante de Leo Merumeci e mãe de Carla, uma jovem de 24 anos, e Michele, um rapaz estudante. Além deles há também Lisa, ex-amante de Leo e pretendente de Michele. Esse curto elenco se reveza na exposição das máscaras sociais, espécies de arquétipos, que definem a posição de cada um na história. Ao passo que, no decorrer dos fatos, esses disfarces se tornam meras convenções, pois cada um, na sua maneira, vai mostrando sua real personalidade. A hipocrisia, então, passa a ser a tônica da relação entre eles.

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Desde o primeiro capítulo as personagens tomam seus postos nessa tragicômica cena familiar. Na sala de Mariagrazia, Merumeci espera a hora do jantar. Enquanto isso, descaradamente, ele tenta seduzir Carla, que, por sua vez, mostra-se internamente desconfortável com a vida. É a tônica de seu pensamento no decorrer de toda a história a expressão “A vida não muda (...) não quer mudar”. Com a chegada de Michele vem junto o mote da história: ele trás a notícia de que sua mãe, provavelmente, irá perder a casa para Leo. Numa simples troca de olhares, o rapaz e o amante dela já sabem que a relação hipocritamente estável da família vai ser abalada.

Durante o jantar, as personagens colocam em prática suas máscaras: primeiramente, Michele revela a precária situação financeira da família, e conta que perderão a casa para Leo. Mariagrazia assume o papel ridículo e caricata de uma senhora ofendida num melodrama burguês. Merumeci não desmente a informação e provoca no rapaz uma irritação tediosa, que lhe vai acompanhar até o fim – a indiferença. Em meio a tudo isso, Carla angustiava-se silenciosamente pensando que, de fato, a vida tinha que mudar.

Mariagrazia, no decorrer da história, pensava na queda de sua vida de aparências com a iminência de sua miséria financeira:

"O medo da mãe agigantava-se; nunca quisera saber dos pobres e nem sequer conhece-los de nome, nunca quisera admitir a existência de gente de trabalho penoso e de vida triste. ‘Vivem melhor do que nós’, dissera sempre, ‘nós temos maior sensibilidade e mais inteligência e, por isso, sofremos mais do que eles..." (p. 26)

Ao mesmo tempo em que Michele deixava mais evidente ainda sua indiferença. Sentia até certa inveja dos outros envolvidos, pois nem ao menos a caricatura social se sustentava em sua face:

"Se soubessem como tudo isto me é indiferente’, era o que desejaria gritar-lhes. A mãe excitada e interessada, Leo, falso, a própria Carla que o olhava atônita, pareceram-lhe nesse momento ridículo, e, contudo, dignos de inveja, exatamente porque aderiam aquela realidade." (p.30)

E Carla buscava desesperadamente uma saída para sua vida, o desconforto interno da impossibilidade de mudança a sufocava cada vez mais. Porém, frente ao curto horizonte que se apresentava a ela, somente se entregar ao Leo parecia ser a saída mais direta para a transformação de sua vida: “Acabar”, “Acabar com tudo isso”, pensava, enquanto deixava Merumeci beijá-la escondida em sua casa.

Por fim, a última personagem representativa na história era Lisa, ex-amante de Leo e agora pretendente de Michele. Ela juntamente com Merumeci, pareciam ser os únicos que sabiam lidar como o cinismo daquelas relações Lisa mostrava-se constantemente surpresa com as revelações óbvias de Michele, simplesmente para agradá-lo. Sabia da indiferença do rapaz; sabia também da ingenuidade de Mariagrazia e da relação entre Leo e Carla. Dessa forma, Lisa tinha uma posição de espectadora privilegiada da tragicomédia familiar, mas sabia também como representar seu papel em nessa história.

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Alberto Moravia provavelmente buscou nas marcas da Commedia dell Arte, o teatro popular italiano, do século XV, a inspiração para a criação da estética de “Os Indiferentes”. Esse modelo de drama era encenado por grupos de atores itinerantes, que montavam seu palco nas praças, nas ruas, e satirizavam, através de um roteiro simples e aberto a improvisos, assuntos locais, manias, escândalos, etc. No caso desse romance, o modelo a ser satirizado era a classe média italiana do início do século XX.

Os atores da Commedia dell Arte usavam, geralmente, máscaras para tornar caricata sua apresentação. Em “Os Indiferentes”, essas máscaras não passam das relações hipócritas e superficiais que as personagens vivem, em detrimento aos seus pensamentos ora ingênuos ora traiçoeiros e ora indiferentes. Assim, Leo Merumeci veste a máscara de um autêntico patife e sedutor; Mariagrazia, da velha ingênua; Carla, a jovem iludida (mesmo que, no decorrer da história, essa máscara sofra significativas transformações); Lisa, a astuta e, por fim; Michele, que não conseguia vestir uma máscara, pois sempre, ao contrário do outros, revelava aquilo que era inerente a todos – a indiferença.

Exatamente essa dificuldade em aceitar a máscara social que a vida lhe impunha fazia de Michele a personagem que destoava desse drama familiar. O desconforto de sua indiferença em participar das encenações fez dele um rapaz que fracassou na sua única tentativa de viver uma vida pautada na verdade. Pensava ele: “as duas hipóteses eram: ou tinha êxito nos seus fins de sinceridade, ou adaptava-se a viver como todos os outros” (p.204).

Enquanto Carla percebia que a mudança que tanto a angustiava, na verdade, era uma simples dissonância entre sua personalidade e a máscara a qual era destinada vestir. Quando, de fato, ela se adaptou, a vida tornou-se simples, ao ponto de querer gritar a Michele, sua grande descoberta: ‘é tudo tão simples’. Assim, de casamento marcado com Leo, Carla encerra a história dessa cena familiar hipócrita, fantasiando-se para um baile de máscaras, ao qual, curiosamente, iria trajada de Pierrot – uma das personagens mais representativas da Commedia dell Arte.

REFERÊNCIA:

MORAVIA, Alberto. OS INDIFERENTES, ed.Livros do Brasil - Lisboa


Artur Custodio

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