fragmentos

Da crítica literária à Literatura crítica

Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura.

A ordem da cavalaria indianista: a formação do herói nacional no Romantismo

No período de formação de uma identidade nacional, o índio se torna a representação de herói no Brasil. No entanto, essa personagem não nasce pura. Sofre influências de ideologias medievais, principalmente das novelas de cavalarias; e de marcas de seu tempo identificando-se com o Romantismo.


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Zeitgeist é uma expressão alemã que significa algo próximo a “espírito do tempo” ou “sinais dos tempos”, isto é, a percepção do conjunto cultural, político e social de uma época. O artista é um dos sujeitos mais atentos a essas marcas, por isso, um olhar mais demorado às obras produzidas em determinado período histórico nos faz compreender melhor como era a construção social naquele contexto. No entanto, há algo que as obras muitas vezes não dizem claramente, mas emanam no seu discurso, e que não depende propriamente do momento de sua produção – a Ideologia.

Para Michel Pêcheux, filósofo francês, um dos nomes mais relevantes da Análise do Discurso, “A ideologia da classe dominante não se torna dominante pela graça do céu (…) é pela instalação dos aparelhos ideológicos do Estado, nos quais essa ideologia (…) é realizada e se realiza, que ela se torna dominante” (PÊCHEUX, 2016, p.131). Ou seja, nos textos produzidos em certa época, ressoam marcas de uma ideologia dominante, que é consagrada através de um aparelhamento que inclui as instituições artísticas. Além disso, é importante entender que essa ideologia é absorvida pelos sujeitos, que a reproduzem, muitas vezes, sem ter o conhecimento delas, provocando um processo de naturalização.

Diante disso, é possível perceber que a Ideologia funciona como um pilar que interpela o sujeito e a sociedade, independendo do tempo em que isso acontece. Pêcheux se refere também a um teatro da consciência, que, nos seus bastidores, há o que se fala do sujeito e o que se fala ao sujeito antes mesmo de ele falar algo. Esse efeito provoca no discurso uma relação polifônica, uma pluralidade de vozes, que faz do enunciado um emaranhado de outros dizeres. Isto é, um discurso nunca é puro, pois está sempre em contato com vários elementos “esquecidos” no inconsciente ideológico do sujeito. Sendo assim, o espírito do tempo, o Zeitgeist, nesse paradigma, não passa de uma grande maquiagem de uma época específica, para algo de difícil transformação, exatamente, pela dificuldade de sua identificação pura: a Ideologia.

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A Literatura desempenha um papel importantíssimo para a propagação das diversas formações ideológicas. A partir do momento que se toma consciência disso, é possível, através dela, traçar um processo de irradiação de determinados pontos de vista. Antonio Cândido diz que a Literatura, ao ser estabelecida como uma instituição, é “um sistema de obras interligadas por denominadores comuns, que permitem reconhecer as notas dominantes de uma fase” (CÂNDIDO, 2000, p.18). Essa ideia define atributos recorrentes na estética verbal de certo lugar e tempo, que revelam a tendência discursiva desse contexto ou estilo de época.

Segundo Cândido (2000), alguns desses denominadores são: o conjunto de produtores literários; a consciência deles com relação ao seu papel social; e um conjunto de receptores, ou melhor dizendo, um público interessado e participativo nesse diálogo. Esses elementos criam um sistema complexo de comunicação, desenvolvido por um arcabouço simbólico, que mostra um importante papel na interpretação e compreensão de diferentes esferas da realidade de um período. Além disso, a percepção desse sistema evidencia também qual o grau de alinhamento desses autores e textos com a ideologia dominante de cada tempo.

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Uma nação é construída em cima de uma Ideologia. Dessa forma, nos seus princípios, devem constar o domínio desses aparelhos ideológicos já citados, ou seja, há a necessidade de uma determinada cultura, de uma língua em comum, de um sistema político, e, principalmente, de uma percepção de identidade. No entanto, essa formação não é espontânea, mas derivada da pluralidade de diálogos possíveis, que permeiam os grupos sociais dela participantes. Sendo assim, qualquer Estado já é formado com uma Ideologia preconcebida, isto é, definida a partir da dominância de certos pontos de vista.

Com o Brasil, isso não foi diferente. O processo de independência não é imediato, muito pelo contrário, é feito a partir de uma sucessão de acontecimentos, que alteram a condição constitucional do país, mas não mudam a dominância ideológica europeia. Dom Pedro I, o primeiro imperador do Brasil, era, no período colonial, príncipe regente e, como sabemos, filho de Dom João VI, rei de Portugal. Nessas condições de “mudar não mudando”, que cabe aos participantes do movimento de construção desse novo império criarem estratégias de formação de uma identidade nacional, partindo da materialidade cultural que possuem em mãos.

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Assim, destaca-se no Brasil um movimento literário que capta essa formação ideológica e tenta, a partir dos romances e da poesia, construir um imaginário formador da identidade nacional. O Romantismo estabelece-se como a primeira escola literária brasileira. Mesmo que antes da independência, tenha havido a consagração de outros modelos estéticos, ainda não se tinha encontrado no discurso elementos suficientes para determinar o caráter literário nacional. “Dessa época, de fato, datam diversas composições que são quase o fundamento literário da alma nacional (…), difundidas no substrato mais profundo da consciência brasileira” (BUENO, 1995, p.1). Exatamente por isso se torna importante retornar a esse período para compreender as marcas ideológicas que pautam a construção desse movimento, além de identificar o que delas ainda reverbera nos dias de hoje na ideologia que interpela a sociedade brasileira.

No entanto, o Romantismo não é um movimento genuinamente brasileiro. Ao ser descoberto principalmente pelos jovens poetas nacionais, por volta da terceira década do século XIX, ele já ecoava na Europa há mais de cem anos. Autores como Johann Goethe, Lord Byron, Percy Shelley já eram nomes consagrados nos cânones literários daquela contemporaneidade. Isso mostra evidentes traços estéticos e ideológicos relativamente próximos ao modelo europeu romântico dos recém-formados autores brasileiros. Dessa maneira, a formação discursiva dos nossos poetas reproduzia uma formação ideológica altamente europeia. Desse diálogo intercontinental começou-se a moldar a identidade da recente nação – uma mistura de formas tipicamente tropicais com uma alma ideológica proveniente da Europa.

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O Romantismo não é escolhido como modelo estético, pelos autores brasileiros, por mero acaso. A formação desse movimento, na Europa, deve-se a ascensão da burguesia, que, por meio de revoluções – dentre elas a francesa -, promove a propagação dos ideais liberais. Victor Hugo, um dos maiores autores do Romantismo francês, diz que “o Romantismo tantas vezes mal definido, é apenas, e esta é sua definição verdadeira, o liberalismo em literatura”. Assim a palavra “liberdade”, passa a ser a grande tônica desse período: seja a liberdade da alma, que através do subjetivismo, do emocionalismo e do confessionalismo, fazia transcender o espírito do poeta para além de sua vivência; seja a liberdade de uma nação, através do nacionalismo, do folclore e das críticas sociais. Assim, para um país recém independente, esse modelo serviria plenamente para a formação da identidade nacional.

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Dentro desse paradigma, a primeira geração romântica brasileira cumpriu um papel decisivo na formação ideológica e na criação da identidade do país. Um dos traços mais marcantes desse primeiro momento de cultura independente foi a definição de um herói nacional, que ao mesmo tempo evocasse as raízes nacionais e atingissem as expectativas dos letrados já acostumados aos modelos europeus. Dessa forma, o índio se tornou a representação ideal do herói brasileiro. Assim, esse período literário recebeu o título de indianismo.

O nome mais relevante da poesia indianista romântica brasileira foi o escritor maranhense Antônio Gonçalves Dias. Poeta de grande precisão rítmica compôs versos que povoam até hoje o imaginário cultural do país. Além de poesias de exaltação da natureza e da nação, como “Canção do Exílio”, que faz parte, inclusive do hino nacional brasileiro; Gonçalves Dias dedica-se a construção de obras indianistas, que “representavam o registro mais adequado das nossas origens, que jamais poderiam assentar-se nos povos lusitanos, de quem nos libertávamos com sentimentos de rejeição profunda” (GUINDIN, 2007, p.15). Assim surgiu, então, a nacionalização do modelo de herói clássico – o índio em Gonçalves Dias será a transfiguração nacional do cavaleiro medieval europeu.

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Dentro da cultura europeia, o herói romântico, apesar dos elementos de subjetividade e emocionalismo típicos do movimento, ainda carregava marcas muito fortes de um modelo clássico medieval de cavaleiro. Essa personagem característica das novelas de cavalaria tinha como ofício manter e defender a fé católica, o rei, a justiça, a terra e o povo. Mas foram os costumes e a ideia de honra, não a profissão, que perduraram na literatura do Romantismo. Assim, esse herói deveria “ser amado, porque é bom; temido, porque é forte; e louvado porque é de bons feitos”, diz Ramon Llull, em seu livro “A Ordem da Cavalaria”, de 1276. É importante perceber que esse modelo já sofre uma interferência de outros tempos, ou seja, quando essa estética chega ao Brasil, já é uma referência da referência.

Um dos exemplos mais clássicos desse modelo estético dentro da poesia romântica brasileira é o poema “I-Juca Pirama”, de Gonçalves Dias. O título já traz uma novidade em favor da proposta indianista e nacionalista desse movimento no Brasil: I-Juca Pirama, na língua Tupi, tem um significado próximo a “o que deve ser morto” ou ainda “que é digno de ser morto”. Já nesse enunciado pode-se perceber um traço indianista, envolvendo a língua local; um ritual típico de algumas tribos; e uma referência ao herói clássico, indicando um caráter de honra e dignidade, mesmo com relação a morte.

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I-Juca Pirama é um poema épico que conta a história de um índio guerreiro Tupi, um dos últimos de sua tribo, que, na incumbência de cuidar de seu velho pai, já cego e fraco, foi em busca de provimentos e acabou sendo pego pela tribo rival, os Timbiras. Na taba de seus inimigos, ele é preparado para o ritual antropofágico, um ato sagrado que consistia em devorar o guerreiro preso, para assim adquirir sua força e suas habilidades. No entanto, o cacique, ao perceber a angústia de seu prisioneiro, incita-o a falar de sua história. Dessa forma, ao declarar, com tristeza, a dependência de seu pai a ele, o guerreiro chora. O choro, nesse momento, revela um sinal de fraqueza. Assim, o cacique liberta o prisioneiro, por considerá-lo fraco. Evidentemente, isso se torna uma imensa desonra. Algo que esse índio, no decorrer do poema, tenta recuperar.

Márcia Guidin, doutora em Letras, professora universitária e ensaísta, ressalta a ideia de certa inovação estética na criação do herói nesse poema dialogando com o modelo clássico ocidental, “o criativo paradoxo temático: o herói que, sem ser covarde, também pode chorar. Esse herói ganhou mais densa sensibilidade romântica ao invadir o mundo imaginário dos indígenas” (GUIDIN, p.70, 2007). Desse enunciado pode-se tirar três elementos imprescindíveis para a compreensão da construção desse herói: 1) a cor local, marcada pela forma dessa personagem materializada num índio; 2) a marca do modelo estético contemporâneo ao momento, isto é, esse nativo chora, mas esse choro não evidencia fraqueza, muito pelo contrário, destaca a sensibilidade esperada no modelo romântico; 3) a ideologia ocidental do herói, ou seja, aquele que deve ser bom, forte e de bons feitos.

Os três elementos constitutivos do índio como modelo de herói nacional no Romantismo podem ser vistos da seguinte forma: a questão da ideologia que interpela a essência de um herói é construída dentro dos padrões medievais, consequentemente inseridos também aos padrões propagados pela igreja católica. Não se pode esquecer que o cavaleiro medieval deve exaltar as sete virtudes capitais: a castidade, a caridade, a temperança, a diligência, a paciência, a bondade e a humildade; e renegar os sete pecados capitais: a luxúria, a avareza, a gula, a preguiça, a ira, a inveja e a vaidade. Assim também será o herói romântico, assim também será o índio nos primórdios da literatura brasileira. Outro ponto é a questão do modelo estético romântico, isto é, o elemento que o espírito do tempo – o zeitgeist – insere na construção dessa personagem: o herói romântico chora sem ser fraco, ele mostra sua sensibilidade e destaca sua emoção e subjetividade características do Romantismo. Por fim, esse herói que é ideologicamente medieval, mas com sensibilidade romântica, ganha uma forma, um rosto e características físicas típicas da região, o que chamamos de cor local, assim surge o índio como herói nacional.

Dessa forma, é possível perceber que a construção de uma identidade nacional é feita por vários elementos que constituem o Estado e que permeiam determinadas ideologias. A literatura desempenha um papel primordial nessa composição deixando emanar nos seus discursos traços de alinhamento ou desalinhamento ideológicos com o que há de dominante nessa sociedade. A elaboração de um herói nacional vem suprir uma das necessidades na formação de um país – o desenvolvimento de um paradigma ideal, a criação de um modelo humano a ser admirado-. Exatamente por isso, o índio recebe o espírito sensível, subjetivo e emocional do Romantismo; e a ideologia essencial católica das novelas de cavalaria medievais. Evidentemente que hoje os heróis das artes contemporâneas têm outros rostos e outras formas, mas, muito provavelmente, ainda emanam traços medievais agregados a traços românticos e outras tantas marcas da grande temporalidade.

Referências:

PÊCHEUX, Michel. Semântica e Discurso, ed. Unicamp. Campinas, SP, 2016.

CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira. Rio de Janeiro, RJ: Editora Itatiaia, 2000

BUENO, Alexei. Grandes Poemas do Romantismo Brasileiro. Rio de Janeiro, RJ: Editora Nova Fronteira, 1995

HUGO, Victor. Do Grotesco e do Sublime. Editora Perspectiva, São Paulo, SP.

DIAS, Gonçalves. Poesia Lírica e Indianista. Org. Márcia Lígia Guidin. Ed. Ática, 2007, São Paulo, SP.

http://www.ricardocosta.com/traducoes/textos/o-livro-da-ordem-de-cavalaria, acesso em 12 de novembro de 2017


Artur Custodio

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