fragmentos

Da crítica literária à Literatura crítica

Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura.

A Terceira Margem de “Elena”: o luto no filme de Petra Costa

A sensível relação entre o filme 'Elena', de Petra Costa, e o conto 'Terceira Margem do Rio', de Guimarães Rosa, ao tratar da questão do luto.


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“Elena, sonhei com você esta noite. Você era suave, andava pelas ruas de Nova York numa blusa de seda. (...) Mas quando vejo, você está em cima de um muro, enroscada num emaranhado de fios elétricos. (...) Olho de novo e vejo que sou eu em cima do muro (...) Queriam que eu te esquecesse, Elena!”

Assim começa o filme “Elena”, de Petra Costa, uma sensível carta a irmã morta. Com cenas de arquivos pessoais dialogando com gravações altamente subjetivas de uma câmera na mão, Petra Costa desenvolve uma busca pela irmã, trilhando os caminhos de Elena e procurando talvez entender a perda, talvez entender a si mesma. A arte aqui acaba sendo usada como processo para o trabalho do luto. Essa ideia não é nova, mesmo assim, sempre que isso acontece, surgem obras de uma beleza melancólica única. Podemos citar, além do filme, o conto “A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa, que conta a história de um filho que espera o retorno do pai, que decide ir para o meio de um rio e não voltar mais. Dessa forma, permeando a relação de Petra e Elena, no filme, e do pai e filho no conto, pretendemos entender melhor esse processo de luto e o quanto a arte pode ser útil para o cumprimento desse doloroso trabalho.

O sonho de ser atriz amarra as três pontas femininas da família de Petra. Além dela, a irmã mais velha e a mãe também tiveram um dia esse desejo. Petra teve mais êxito e talvez por isso tenha usado o cinema para homenagear sua irmã. Ela, nesse documentário, refaz a trajetória de Elena, por Nova York, seguindo os passos que a irmã trilhou enquanto buscava alcançar seu sonho. Esse regresso foi uma maneira que Petra encontrou para buscar entender e também aceitar o que aconteceu com Elena: “eu volto para Nova York com a esperança de te encontrar nas ruas”. Numa narrativa intimista mostra a infância delas, na clandestinidade dos anos de ferro da ditadura militar no Brasil. Além disso, revela o quanto Elena foi importante para a sobrevivência da família nesse tempo. E toda a transformação que viu em sua irmã, antes alegre, sonhadora e cheia de vida, e por fim, triste, depressiva e suicida.

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Durante a narrativa, as irmãs se confundem, ao ponto, do espectador ficar um pouco em dúvida se Petra fala dela mesma ou de Elena, “eu me vejo tanto em suas palavras que começo a me perder em você”. Esse talvez seja o momento mais complicado para Petra, pois ao fundir-se com a imagem da irmã, assume também as mesmas angústias, os mesmos medos e talvez as mesmas vontades. Ao passo que essa aproximação extrema também faz parte do processo de separação delas. É preciso ser Elena, é preciso morrer com ela, para aceitar o fim. Nesse processo, a mãe delas também participa ativamente, quase formando uma amálgama sentimental de comunhão entre as três: “se ela me convence de que a vida não vale a pena, eu tenho que morrer junto com ela”.

Guimarães Rosa, em seu conto “A terceira margem do rio” também desenvolve em suas personagens o trabalho do luto: um pai decide, em determinado momento de sua vida, mandar fazer uma canoa só para ele. Despede-se da família e vai para o meio do rio, “o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira” (ROSA, 2016, p.67). A esposa e os filhos reagem de maneiras diferentes a essa atitude: a mulher, com muita cordura e um tanto envergonhada, evitava falar do assunto; o filho costumava levar comidas e roupas para a beira do rio, mas, mesmo assim, o pai não voltara, “Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais” (ROSA, 2016, p.68).

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Guimarães Rosa, nesse conto, trabalha com o efeito de sobreposição de sentidos, ou seja, dentro da mesma história, há camadas superpostas de significados em diversos níveis. A estratégia linguística utilizada por ele é basicamente a metáfora. Uma das mais significativas é a do rio: o sentido da ideia do rio acessa dizeres já ditos na história da humanidade, como por exemplo, o mito de Caronte, barqueiro do Hades que carrega os mortos pelos rios Aqueronte e Estige; a alegoria de Hieráclito, que compara o tempo ao curso do rio, onde não se entra mais de uma vez no mesmo, etc. Ao compreender a inscrição da “Terceira margem do rio” nesse campo de sentido, o leitor tem um enriquecimento da compreensão do que é ali dito, ressignificando assim a história contada.

A partir disso, o leitor percebe que a canoa não é uma simples embarcação, mas uma possível metáfora de um caixão, onde até o filho sabe que um dia estará num: “Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água, que não para, de longas beiras” (ROSA, 2016, p.71). Percebe também que os chamamentos pelo pai, normalmente, são feitos em forma de oferendas e algum tipo de oração: “Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a ideia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava” (ROSA, 2016, p. 67). Assim, o texto, dentro desse paradigma, ressignifica, produzindo então o sentido de trabalho de luto feito pelo filho, diante da morte do pai.

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Sigmund Freud, em seu ensaio “Luto e Melancolia”, define luto como “a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante” (FREUD, p.1). Além disso, difere da melancolia pelo caráter patológico que essa carrega. Para ele, o luto é uma reação normal, que, após concluído seu trabalho, o sujeito retoma sua potência, já a melancolia retarda esse retorno. O trabalho do luto, então, é a retirada de toda ligação libidinosa com aquele objeto. Importante saber que a libido a ser desprendido aqui tem a ideia de energia direcionada aquele objeto da perda. Evidentemente, que essa ação é executada “pouco a pouco, com grande dispêndio de tempo e de energia, prolongando-se psiquicamente, nesse meio tempo, a existência do objeto perdido” (FREUD, p.1). Exatamente nesse momento de prolongamento da existência desse objeto perdido, que os sujeitos do filme “Elena” e do conto “Terceira margem do rio” se encontram. O fim de cada uma dessas obras indica a conclusão desse trabalho do luto, quando, segundo Freud, o ego fica outra vez livre e desinibido.

Assim, a conclusão das duas obras é consonante com a ideia de Freud. Petra, ao final do filme, revela que “depois, como tudo, o medo desapareceu. E você (Elena) também foi desaparecendo com ele”, isto é, o ego dela vai novamente retomando sua potência e se desprendendo do ente querido morto. O mesmo acontece com o filho, na “Terceira margem do rio”, porém de forma um pouco mais traumática: ao chegar ao extremo de propor trocar de lugar com o pai na canoa, o filho enfim se desprende, não de uma forma bem consolidada, mas com requintes de melancolia, “por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além” (ROSA, 2016, p.71). Depois dessa fuga, o pai nunca mais foi visto pelo rio, isto é, o trabalho do luto foi concluído.

Restam a memória, a saudade, as lembranças dos entes queridos que se perdem, mas para que, em nossa mente, esses sentimentos sejam bem trabalhados, é preciso cumprir o luto. Em muitas vezes, o sujeito não sabe como lidar com a perda, assim não constrói o luto de forma positiva, mas desencadeia para algo não natural e patológico, a melancolia. Petra Costa e Guimarães Rosa mostram esses dois lados: a primeira desenvolve o luto de forma positiva, tentando reconhecer a irmã, entender os motivos que levaram à morte de Elena, para, enfim, libertar novamente seu ego. Já o segundo mostra o luto de forma negativa, desenvolvendo a história de um filho que não consegue se desprender do pai, ao ponto de querer ocupar o lugar dele no curso da morte. Esse filho desenvolve a melancolia, pois, mesmo possivelmente se libertando no final, ainda carrega o sentimento de culpa, “Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo” (ROSA, 2016, p.72). De qualquer forma, existe a Arte e dela se tira ensinamentos. Tanto Petra Costa, quanto Guimarães Rosa produzem obras lindíssimas sobre esse tema tão difícil, e, ao mesmo tempo, nos revelam um grande aprendizado sobre saudade e libertação.

Referências: COSTA, Petra. Elena, 2012. ROSA, Guimarães. Primeiras Estórias. Rio de Janeiro, RJ, 2016, ed. Nova Fronteira. FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia. https://carlosbarros666.files.wordpress.com/2010/10/lutoemelancolia1.pdf, acesso em 13/05/18


Artur Custodio

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