fragmentos

Da crítica literária à Literatura crítica

Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura.

Didática e tecnologias na escola do século XXI

Os desafios e possibilidades na escola contemporânea diante da primeira geração de nativos digitais.


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A escola, como uma instituição formadora na sociedade, não pode ficar alheia aos avanços da tecnologia. Para isso é preciso inserir todos os seus agentes nesse universo. Isto é, não apenas professores, mas também os estudantes. Marc Prensky, educador norte-americano, diz que, no mundo de hoje, há dois tipos de pessoas: os nativos digitais e os imigrantes digitais. Os primeiros são aqueles que já nascem no ambiente cercado de tecnologias digitais; enquanto os segundos ainda precisam se inserir e incorporar essas novas tecnologias. Dentro das escolas, esses dois tipos de sujeitos convivem: sendo boa parte dos professores integrantes do grupo de imigrantes digitais e a totalidade dos alunos sendo nativos digitais. Dessa forma, um dos grandes dilemas da escola do século XXI é construir conhecimento conectando esses dois tipos de sujeitos, para que se desenvolva uma educação significativa para o seu tempo.

No entanto, é importante compreender que tecnologia é tudo aquilo que auxilia o ser humano em sua vida, por exemplo: o lápis, o caderno, o martelo, o computador, o celular, tudo isso é tecnologia. Assim, pode-se dizer que tudo que é conhecimento, processo, método humano e que se aplica a uma determinada atividade, pode ser considerado tecnologia. Ela pode ser classificada em três tipos: físicas, organizadoras e simbólicas. As físicas são os instrumentos materiais, como caneta, livro, telefone, computador; as organizadoras são as de relação entre o sujeito e o mundo, os sistemas organizacionais, as séries, turmas e a escola; e as simbólicas sãos as linguagens, os códigos, os signos.

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Com base nisso, pode-se observar que a escola, desde sua origem, usa tecnologias, mesmo que as físicas sejam o quadro negro, o giz, o caderno e a caneta; que as organizadoras sejam as filas de estudantes, todos voltados para um professor, centralizado na sala de aula; e as simbólicas sejam a cópia de textos, ditados e notas. Nesse ponto já é possível perceber que, mesmo com todo o avanço da informática, que se enquadra muitas vezes na tecnologia física – o uso de aparelhos de multimídias, tabletes, celulares -, as organizadoras e simbólicas parecem estagnadas. Isso evidencia uma falsa sensação de progresso nas escolas ao tratarem de tecnologias, pois a instituição pode se equipar com os mais modernos aparelhos do mercado, mas se não evoluir também nas questões organizacionais e simbólicas, o processo estará incompleto.

“Atualmente o professor não é a única fonte de aprendizagem. (...) O professor deixou de ser o responsável único e exclusivo de informações, porque os alunos estão conectados a televisão, canais a cabo, internet, multimídia” (TIBA, 2006, p. 28). Isso quer dizer que esse profissional precisa se reinventar, provavelmente desenvolvendo, não só o aprendizado do universo digital, como também um aprimoramento nas tecnologias simbólicas e organizadoras. Essa atualização na profissão é um processo que necessita uma leitura muito eficaz do contexto atual. Pois não adianta apenas a modernização das tecnologias físicas, se as organizadoras e simbólicas permanecerem paradas. Assim, mesmo um professor sendo um imigrante digital pode se valer de simples atualizações no seu sistema didático para se inserir na contemporaneidade. Dessa forma, é possível equilibrar a disputa pelo interesse do aluno com as tecnologias de informação e conhecimento fora da escola.

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Para isso, o professor precisa, antes de tudo, compreender o contexto de seu trabalho. Algumas escolas não possuem aparelhos digitais suficientes para uma transformação tecnológica física, mas há outras possibilidades de mudanças a partir das organizadoras e simbólicas. Uma simples reconfiguração na sala de aula, por exemplo, já modifica a relação do aluno com a aprendizagem. No entanto, é importante que o profissional saiba dominar a tecnologia que será utilizada em sua aula. Ou seja, é importante valer-se do bom senso, porque, por mais bem-intencionado esteja o professor, se não souber dominar as ferramentas de sua aula, pode causar um efeito contrário ao esperado. Enquanto, uma aula simples e segura poderia funcionar muito melhor.

Outro ponto fundamental para compreender a educação no mundo contemporâneo é a diferença entre informação e conhecimento. Cortês (2008) vale-se da seguinte metáfora para explicar isso, “... o dado é um tijolo, a informação é uma parede construída por vários tijolos e o conhecimento é um cômodo construído a partir da organização e correto relacionamento de várias paredes”. Diante dessa analogia, pode-se perceber que o conhecimento é a parte da educação que dá o sentido da aprendizagem. Parece ser esse o papel da escola na atualidade, pois os alunos têm acesso aos dados e as informações do mundo através, principalmente, da internet, no entanto é preciso ensiná-lo a construir sentido com esses elementos, ou seja, é necessário ensinar a construir conhecimento.

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Dentro dessa perspectiva contemporânea da escola, em que se torna não só um lugar para adquirir informações e dados, mas, principalmente para construir conhecimento, a postura do professor e do estudante também precisam ser revistas. O professor não é mais o detentor exclusivo da palavra, desenvolvendo a aula como uma palestra, da mesma forma que o estudante não tem mais a posição passiva e receptora das informações. São, sim, ambos colaboradores mútuos para a construção de conhecimento, ou seja, ambos devem comportar-se em aula proativamente. Ao atingir esse patamar, a escola estará desenvolvendo não só ensino e aprendizado, mas inteligência e sabedoria, pois, segundo Libâneo (1994), a aprendizagem somente acontece com a assimilação ativa e apropriação do conhecimento.

Dessa forma, principalmente o professor precisa entender o mecanismo e o funcionamento da educação contemporânea para conseguir desenvolver seu trabalho de forma eficaz. Provavelmente, o primeiro passo seja a identificação dos agentes da sala de aula: estudante e professor vivem, em grande escala, um choque de gerações, os chamados nativos digitais, praticamente a totalidade dos jovens, e os imigrantes digitais, boa parte dos adultos. Assim, a relação de ambos com as tecnologias é muito distinta e o professor pode, muitas vezes, apenas transpor a aula tradicional para o universo digital, com a falsa ideia de atualização. Por isso, é importante saber que há três tipos diferentes de tecnologias: as físicas, as organizadoras e as simbólicas. Isto é, pode-se construir uma aula extremamente contemporânea usando o mínimo de tecnologia digital, apenas com a clareza do projeto de ensino, buscando construir conhecimento juntamente com o estudante proativo; e da criatividade do educador, ao valer-se das diversas tecnologias possíveis no seu contexto de trabalho, aplicando-as com excelência.

PIROZZI,Giani Peres. Tecnologia ou metodologia? O grande desafio para o século XXI. TIBA, Içami. Ensinar aprendendo: Novos paradigmas na educação. São Paulo: Integrare Editora, 2006. PRENSKY, Marc. Digital natives, digital immigrants.Nativos digitais, imigrantes digitais. Tradução de Roberta de Moraes Jesus de Souza. NCB University Press, Vol. 9 No. 5, Outubro, 2001. Disponível em: http://api.ning.com/files/EbPsZU1BsEN0i*42tYn-d650YRCrrtIi8XBkX3j8*2s_/ Texto_1_Nativos_Digitais_Imigrantes_Digitais.pdf. Acesso em 30/07/2019


Artur Custodio

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