fragmentos

Da crítica literária à Literatura crítica

Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura.

Junqueira Freire: o monge maldito do Romantismo brasileiro

Monge maldito, poeta cético esquecido, Junqueira Freire escreveu as contradições de um homem enclausurado sem vocação para isso. Viveu, no século XIX, no monastério, o inferno ao invés de céu.


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A Ordem Beneditina ou Ordem de São Bento é uma ordem religiosa católica de clausura monástica. Os monges que vivem de acordo com essa congregação fazem o voto religioso de evitarem ao máximo suas saídas do mosteiro. Isso acontece para mantê-los numa condição ascética, de recolhimento espiritual, de silêncio e de orações, para atingirem uma união mais sublime e mística com Deus. Evidentemente, os candidatos a ingressarem nessa ordem devem ter uma consciência vocacional muito bem definida, pois terão que abrir mão da vida do homem contemporâneo.

Dentre as condições primordiais para a escolha desse modo de vida, uma das mais significativas é o asceticismo. Os ascetas têm como maior qualidade a disciplina para manter sua vida o mais distante possível dos prazeres mundanos, com a intenção de atingirem uma purificação espiritual. Dessa forma, não é difícil de encontrar relatos de práticas penitenciais heroicas e, muitas vezes, demasiadamente severas de restrições auto impostas. Esse sacrifício talvez seja o maior conflito para aquele que postula uma vida monástica, pois pode causar uma falsa impressão vocacional: o distanciamento dos prazeres mundanos não pode ser confundido com o desprazer da vida ascética.

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Esse erro vocacional aconteceu com um dos grandes nomes da poesia romântica brasileira, no século XIX. O monge e poeta Junqueira Freire (1832-1855), nascido na Bahia, ingressou na Ordem dos Beneditinos, aos dezenove anos, sob pressão familiar e sem vocação para esse tipo de vida. Dessa forma, o tempo que passou na clausura do Mosteiro de São Bento de Salvador foi muito complicado para sua formação como sujeito, pois viveu amargurado, arrependido e, além disso, revoltado com a direção tomada de sua vida. Esse momento de sua história durou mais ou menos três anos, quando Freire conseguiu sua secularização, isto é, pode sair do monastério, mesmo ainda sendo um sacerdote. Foi exatamente no seu tempo de clausura que escreveu sua autobiografia e organizou uma coletânea de poemas, chamada “Inspirações do claustro” (1855).

Junqueira Freire, no prólogo de “Inspirações do claustro”, ao explicar ao leitor o que esperar de seus poemas, desabafa, de certa forma, as angústias de seu tempo de clausura. O impactante enunciado “eu tenho, portanto, a maioria dos homens como meus inimigos” (FREIRE, 1867, p.3) já preludia o tom de seu discurso literário. Freire ainda diz que enquanto estava no monastério, ao mesmo tempo em que recebia as bênçãos dos homens de fé, recebia também o desprezo e o escárnio deles. Sentia-se, assim, amaldiçoado por quase todos.

Com uma visão racionalista, Junqueira Freire revela seu tema principal: “Cantei o monge e a morte. Cantei o monge, porque ele sofre – sofre muito. Cantei o monge porque o mundo o despreza. Cantei o monge porque ele é hoje uma coisa inútil e ociosa (...) Cantei o monge por ele não ter culpa de ser mau” (FREIRE, 1867, p.6). Dessa forma, a literatura brasileira tem a possibilidade de ver um monge não vocacionado, mas que viveu parte de sua curta vida no monastério, expor de uma maneira tão crua a convencionada vida ascética dos religiosos. Segundo ele, o monge não passava de um escravo “não da cruz, mas do arbítrio estúpido de outro homem” (FREIRE, 1867, p.6).

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Diante dessas circunstâncias, não se pode esperar de Junqueira Freire uma poesia de louvação nem de misticismos. O monge poeta, mesmo envolvido no mundo de crenças e ritos, canta sob o imperativo da razão. Sua poesia toma certo tom de confissão, tanto que ele mesmo deduz que aqueles que provavelmente o lerão dirão que sua literatura é repleta de blasfêmias. Mas antecipa-se dizendo “lembrarei somente que esta é a obra de um jovem educado no seio de uma corporação religiosa” (FREIRE, 1867, p.8), ou seja, é nesse paradigma que Freire é formado ideologicamente, assim, é nesse assunto que se torna mais versado.

No seu poema “Profissão de frei João das Mercês Ramos”, Freire mostra claramente sua falha vocacional:

Eu também antevi dourados dias Nesse dia fatal: Eu também, como tu, sonhei contente Uma ventura igual.

Eu também ideei a linda imagem Da placidez da vida: Eu também desejei o claustro estéril, Como feliz guarida.

Freire, nesse trecho, indica qual era seu pensamento sobre o claustro, antes de entrar para o monastério. Para ele, era um lugar ideal, onde encontraria dias dourados, alegria, uma vida plácida. No entanto, ao ingressar na Ordem, não foi isso que encontrou:

Mas eu não tive os dias de ventura Dos sonhos que sonhei: Mas eu não tive o plácido sossego Que tanto procurei.

Tive mais tarde a reação rebelde Do sentimento interno. Tive o tormento dos cruéis remorsos Que me parece eterno.

Na sequência do poema, o monge mostra toda sua revolta ao se deparar com um ambiente completamente diferente do que esperava e também com um remorso e arrependimento por ter optado por essa vida. Para Freire, o monastério estava longe de ser um local de aproximação com Deus:

Que sobre nós — os filhos da desgraça — Levantes um troféu: E que não aches, — como nós achamos — Inferno em vez de céu!

Ao ver o inferno onde deveria ver céu no monastério, Freire desenvolve sua condição cética de ser suscetível aos seus sentidos e, também, de não conseguir atingir um ponto dogmático da verdade absoluta daquele modelo de vida. “Há em mim alguma coisa de menos para completar o anjo das harmonias terrestre. Há, por ventura, a reflexão gelada de Montaigne, que apaga os ímpetos, que mata às vezes a mesma sublimidade” (FREIRE, 1867, p.4). Assim, o monge poeta revela uma de suas grandes referências, que influenciaria muito nessa sua condição de vida: o ceticismo de Montaigne.

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Michel de Montaigne foi um filosofo francês, do século XVI, que praticou, em seus ensaios, principalmente uma visão cética sobre as coisas do mundo. O ceticismo, já desenvolvido na Grécia antiga, por Sexto Empírico, não chega a ser uma ideologia, mas, antes disso, um método de análise e também de vida. Para o cético, não é possível se chegar a uma verdade absoluta nem ver as coisas do mundo de forma dogmática. Segundo Eunice Gai, o cético “necessita conviver com uma estranha contradição: não acreditar na existência da verdade nem na possibilidade de encontrá-la e, não obstante, continuar a investigar” (GAI, 1997, p.40). Dessa maneira, esse método de pensamento caminha num andamento praticamente antagônico ao pensamento religioso, que, essencialmente, é dogmático.

Dentro dessa contradição de vida, entre o cético e o dogmático, surge o pensamento de Junqueira Freire. Sua poesia revela, na grande maioria das vezes, um homem em conflito entre sua crença e a forma religiosa de crer. Seus três anos de vida monástica o fizeram muito mal, não pelas restrições impostas, mas, principalmente, pelo desalinhamento com a ideologia dogmática, que esse tempo provocou. Freire, possivelmente, se manteve fiel quanto a sua crença, talvez acreditasse verdadeiramente em Deus, e realmente temesse o inferno. No entanto, seu ceticismo recaiu nas ações dos homens religiosos e a escravidão imposta por eles em seus ritos.

Em “Desejo (Hora do delírio)”, Freire revela:

Se é verdade esse quadro que imaginam As seitas dos cristãos; Se esses demônios, anjos maus, ou fúrias, Não são uns erros vãos;

Eu – que tenho provado neste mundo As sensações possíveis; Que tenho ido da afeição mais terna Às penas mais incríveis (...) Que, de arrostar as dores desta vida, Quase pareço eterno! Estou cansado de vencer o mundo, Quero vencer o inferno”!

Ou seja, a suposição quanto ao que os cristãos pintam e a dúvida sobre sua veracidade revelam um posicionamento cético de Freire quanto a sua própria crença. A investigação incessante percebida pelos seus sentidos só o faz enfrentar as dores da vida, que, como Monge, servem apenas para colocá-lo num patamar superior ao homem mundano. Cansado disso tudo, o seu desejo volta-se para o inferno. Numa tarefa infindável de conhecimento, deseja vencer inclusive aquilo que sua própria crença abomina.

Dessa forma, Junqueira Freire, enclausurado num ambiente extremamente dogmático, tem uma visão cética a respeito da igreja. Ao assumir essa postura, faz emergir dentro de si todas as angústias de um monge não vocacionado. Sua poesia, então, revela toda a angústia de quem, dentro de um ambiente de crenças absolutas, duvida. Assim, Freire viveu sua curta vida de monge e ao mesmo tempo poeta; de crente e ao mesmo tempo cético; de homem de Deus e ao mesmo tempo maldito. A partir de todas essas contradições, surge um dos grandes nomes da literatura brasileira, do século XIX.

Referências

JUNQUEIRA FREIRE, Joaquim. Inspirações do Claustro, COIMBRA, 1867 GAI, Eunice. Sob o signo da incerteza: o ceticismo em Montaigne, Cervantes e Machado de Assis, Santa Maria, RS: ed.UFSM, 1997. BUENO, Alexei, Grandes poemas do Romantismo brasileiro, Rio de Janeiro, RJ: ed. Nova Fronteira, 1995.


Artur Custodio

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