fragmentos

Da crítica literária à Literatura crítica

Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura.

O mito de Eva e a culpa equivocada

Tomada da costela do homem, a mulher cumpre uma sina ambígua no livro bíblico Gênesis: ao mesmo tempo que comete o pecado original, que acarreta a saída do homem do paraíso; ela também serve de representação simbólica da vida, que abre os olhos desse homem para as agruras da existência mortal e dá início à saga da humanidade na Terra.


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Tomada da costela do homem, a mulher cumpre uma sina ambígua no livro bíblico Gênesis: ao mesmo tempo que comete o pecado original, ao ser convencida pela serpente a comer o fruto da árvore proibida, que acarreta a saída do homem do paraíso; ela também serve de representação simbólica da vida, que abre os olhos desse homem para as agruras da existência mortal e dá início à saga da humanidade na Terra. Esse papel duplo gera, ao longo da história humana, inúmeros equívocos interpretativos, dentre eles a condenação à submissão da mulher ao seu marido, por ter sido responsabilizada pelo início do sofrimento. Porém esse viés de leitura não demonstra o sentido mais profundo da mensagem dessa passagem bíblica.

Roman Jakobson, um importante linguista russo do século XX, diz que “qualquer conduta verbal tem uma finalidade, mas os objetivos variam e a conformidade dos meios utilizados com o efeito visado é um problema que preocupa permanentemente os investigadores” (JAKOBSON, 1995, p.120). Isso quer dizer que, por mais que haja inúmeras interpretações possíveis, é imprescindível entender o processo de construção do discurso, para se aproximar de sua finalidade. Assim, a busca pelos valores intrínsecos de uma obra literária aproxima o leitor de uma compreensão mais objetiva do texto. Jakobson define, dessa forma, seis funções de linguagem que manifestam as intenções dos textos, são elas: EMOTIVA, que visa a expressão de uma emoção verdadeira ou simulada de quem fala; CONATIVA, que é desenvolvida mais puramente no vocativo e no modo verbal imperativo, demonstrando uma ordem, um conselho ao destinatário; FÁTICA, que serve fundamentalmente para verificar o canal de comunicação; METALINGUÍSTICA, que verifica e avalia o código entre os interlocutores; REFERENCIAL, que, centrada no contexto, transmite uma informação objetiva e direta; e POÉTICA, que preocupa-se com o arranjo das palavras, a seleção e combinação delas, com o intuito de produzir determinados efeitos de sentido.

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A Bíblia, cujo termo provém da língua grega e indica originariamente ‘os livros’, é uma coleção de textos, escritos por diversos autores (muitos deles desconhecidos), que viveram em lugares e ambientes muito distintos na Antiguidade. Dessa forma, cada texto possui traços muito característicos tanto do estilo de época e das peculiaridades linguísticas da região quanto da personalidade e formação do autor. Essas escrituras apresentam um vasto número de gêneros textuais: fragmentos de epopeia, narrações históricas, listas genealógicas, narrações episódicas, oráculos proféticos e sermões, textos legislativos, poemas e orações, ensaios filosóficos, cartas, etc. Sendo assim, diante de toda essa diversidade, a leitura desses textos requer certa poética, isto é, o domínio das técnicas do processo de produção, entre outros elementos, para compreender a finalidade desses escritos.

Gênesis ou o livro das origens não se trata propriamente de um livro de história, mas de ensinamentos, principalmente sobre a relação entre o homem e seu Criador. Ele é dividido em duas partes: as origens propriamente ditas, que contemplam os onze primeiros capítulos do texto, e os demais tratam dos três grandes patriarcas do povo de Deus. Segundo os religiosos, o livro conta a maneira como o pecado entrou no mundo, por meio da mentira, da inveja e do desejo do homem de se tornar igual a Deus.

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Os três primeiros capítulos desse livro tratam da criação, ascensão e a primeira queda do Homem. “No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra estava informe e vazia: as trevas cobriam o abismo e o espírito de Deus pairava sobre as águas” (GN, I: 1-2), com essas palavras o texto já define a ordem das criações e a autoridade do criador. Dessa forma, após criar o dia e a noite, a terra e o mar, as plantas, as ervas, os animais, Deus, enfim, encerra seu ciclo de criação com a sua obra prima – o homem: “Então Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (GN, I: 26). Logo em seguida é reafirmada essa criação, com uma especificação que, futuramente, tornar-se-ia fonte de inúmeras especulações: “Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher” (GN, I: 27-28). A palavra ‘homem’ na língua portuguesa carrega um sentido polissêmico, pois tanto pode se referir ao ser-humano quanto também ao macho da espécie. Sendo assim, para solucionar esse problema é preciso recorrer a traduções anteriores ao Português. Dentro da Vulgata, a tradução latina da Bíblia, já é possível encontrar a solução para esse problema: “et creavit Deus hominem ad imaginem suam ad imaginem Dei creavit illum masculum et feminam creavit eos” (GN, I: 27). Então, logo no primeiro capítulo de Gênesis já se tem a criação tanto do ser humano macho quanto o ser humano fêmea, curiosamente, ambos são semelhantes a Deus.

O segundo capítulo trata do Paraíso ou Éden (que em hebraico significa “estepe”): “Ora, o Senhor Deus tinha plantado um jardim no Éden, do lado do oriente, e colocou nele o homem que havia criado” (GN, II:8). Num primeiro momento, pode-se questionar o porquê Deus colocou apenas o homem e excluiu a mulher do paraíso? Em busca dessa resposta, a humanidade construiu algumas ideias, dentre elas, a mais difundida refere-se ao mito de Lilith. Essa história trata de uma possível primeira mulher criada por Deus, porém com traços de igualdade e de não subserviência ao homem. Sendo, em função disso, substituída por Eva, que possuía características totalmente opostas.

No entanto, essa narrativa não é considerada canônica e, além disso, não possui consistência na matéria do texto Gênesis. Dessa maneira, a provável solução linguística esteja novamente na polissêmica palavra “homem”, ou seja, ao retornar à Vulgata, encontra-se o versículo da seguinte forma: “plantaverat autem Dominus Deus paradisum voluptatis a principio in quo posuit hominem quem formaverat” (GN, II:8). A mesma palavra “Hominem” aplicada no versículo oito do segundo capítulo também é utilizada no versículo vinte e sete do primeiro capítulo, porém, no momento da criação, a espécie humana é classificada em macho e fêmea. Em contrapartida, na entrada do paraíso, essa distinção não foi reiterada, pois já havia sido feita no capítulo anterior. Então, dentro da narrativa, Deus cria a espécie humana, macho e fêmea, e a coloca no Éden, ou seja, desde o princípio homem e mulher estão no paraíso.

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Tudo isso revela um dos grandes perigos das leituras mais superficiais de textos de longa dada: o problema da tradução. Segundo Martinet, “é preciso tomar cuidado em rearticular a experiência estrangeira de acordo com o modelo que nos é familiar” (MARTINET, 1978, p.35), isto é, “interpretar a língua descrita em função da língua para que se a traduz” (MARTINET, 1978, p.35), pois pode-se atribuir traços na língua estrangeira da língua que se descreve. Quando isso acontece, o texto traduzido ressignifica e incorpora sentidos diferentes daqueles construídos na sua formação. Os textos bíblicos, por sua importância religiosa, política e ideológica, foram, no decorrer de sua história, alvos de inúmeras traduções duvidosas e, inclusive, reescritas. Sendo assim, somente um meticuloso trabalho filológico para se chegar próximo aos sentidos primordiais desses textos.

Mesmo assim, a compreensão de alguns elementos linguísticos já nos aproxima de um sentido mais fidedigno do livro Gênesis, principalmente, ao se tratar da função de linguagem mais evidente nesse texto. Há, notadamente, uma constante confusão entre a leitura com ênfase na função REFERENCIAL e a com ênfase na função POÉTICA. A primeira, de acordo com Jakobson, é centrada no contexto, isto é, não passa de uma informação objetiva e direta, aquilo que é mais significativo não está no texto, mas fora dele. Assim a linguagem serve para os interlocutores como um meio, não como um fim. Em contrapartida, a segunda é centrada na própria mensagem, ou seja, para ela importa não só o que é dito, mas como é dito e qual efeito de sentido se propõe causar. O livro Gênesis é, então, construído com ênfase na função poética, porém, dentro da história da humanidade, foi, muitas vezes consagrado como um texto na função referencial. Esse desvio de leitura gera um imenso e quase irreversível equívoco principalmente na figura da mulher.

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Os textos da Antiguidade são, em sua essência, produzidos na função poética, isto é, a mensagem é o elemento fundamental, e Gênesis não foge a esse estilo, visto que é um livro de ensinamentos, não de história. Esse período da humanidade é de definições, ou seja, a partir do momento em que o ser humano começa a se diferenciar dos outros animais, através da linguagem, sente duas grandes necessidades: dar sentido ao mundo ao seu redor e à sua própria existência. Disso tudo nascem os mitos. Campbell (1988) diz que mitos são “pistas para as potencialidades espirituais da vida humana” (p. 17), ou ainda, a experiência de sentido da vida. É a partir dos mitos que o homem consegue se voltar para dentro e captar as mensagens simbólicas. Dessa maneira, é importante desprender-se da ideia de que mitos são mentiras, histórias inventadas e irreais. Na verdade, eles são formas de expressões, representações simbólicas que geram no homem as noções de aprendizado e compreensão da sua existência e do mundo.

Uma das mitologias mais consagradas na história da humanidade é a grega, tanto pela habilidade de seus autores quanto pela quantidade de registros escritos. Hesíodo, poeta que viveu entre o final do século VIII e início do VII a.C, é identificado como autor de um dos poemas mais importantes dessa cultura: a “Teogonia”. Esse texto trata da origem dos deuses gregos, que são apresentados em três gerações: a primeira formada pelos descendentes de Urano e Gaia; a segunda trata do reinado de Cronos sobre deuses e homens; e a terceira se refere a consolidação do poder de Zeus, que dá início a uma nova era de interação entre os mortais e os imortais.

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Para Hesíodo, antes de tudo existia o Caos, somente depois surge “Gaia, de amplo seio, sólido sustento de todos os imortais que habitam o cume nevado do Olimpo” (HESÍODO, 2010, p.29). Logo em seguida, da relação de Gaia o estrelado Urano, nascem as montanhas e as superfícies agitadas pelas ondas. Esse ser que gera e sustenta os deuses é a representação simbólica da Terra, que nutre e dá a vida de todas as coisas desse mundo. Porém, dentro do poema, esse mito carrega os traços de uma mulher, principalmente na imagem dos “amplos seios”. Dessa forma, o ser feminino vai estar constantemente atrelado a tudo que gera vida e que a sustenta nas mitologias. Eva, em Gênesis, vai carregar traços mitológicos semelhantes ao de Gaia, na Teogonia.

Então, para se ler adequadamente textos de ensinamentos da antiguidade, é preciso, antes de tudo, compreender seu modo de produção e sua intenção. Gênesis é escrito nas condições da função poética, atribuindo caráter mitológico aos seres, para que eles representem simbolicamente as questões essenciais para o entendimento da vida naquele momento. A leitura equivocada e o erro de compreensão do processo, pode gerar imensos problemas interpretativos, prejudicando aquilo que é imprescindível para esse tipo texto – o próprio ensinamento. Dessa forma, caso Gênesis seja lido na função REFERENCIAL, chegar-se-á ao seguinte resultado: o homem, macho da espécie, é colocado no paraíso por Deus, sob a condição de não comer o fruto da árvore do centro do jardim. Deus, ao perceber que este homem estava só, tomou-lhe uma costela e dela fez uma mulher. Ela é enganada pela serpente e come o fruto da árvore proibida e entrega esse fruto também ao homem. A partir desse momento, os olhos deles se abrem e percebem-se nus. Sendo, logo em seguida, expulsos do paraíso. Deus, no momento da expulsão condena essa mulher: “multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores, teus desejos te impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu domínio” (GN, 3:16). Dentro dessa possibilidade de leitura, a mulher, a partir de então, foi julgada e condenada para todo o resto da história da humanidade.

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No entanto, como já foi dito, Gênesis não é um livro de história, mas de ensinamento. Não há uma aprendizagem significativa na leitura REFERENCIAL, porém isso muda completamente, a partir da leitura POÉTICA. Dessa forma, pode-se traçar, dentro do campo simbólico essa possível interpretação: Deus coloca a espécie humana no paraíso, homem e mulher (isso já havia sido solucionado com a leitura da Vulgata e do problema polissêmico da palavra homem). Além disso, Deus recomenda que essa espécie não coma o fruto da árvore do centro do jardim: “Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente” (GN, 2: 16-17). Nesse trecho fica explícito o fruto dessa árvore da ciência do bem e do mal – o conhecimento. É a consciência que revela ao homem sua indubitável condição mortal, consequentemente, o fim do paraíso de sua inocência.

Mas esse aprendizado vai ser construído, principalmente, a partir da criação do mito de Eva. Ele começa a ser desenvolvido quando Deus percebe a espécie humana só e decide fazer uma mulher da costela do homem: “Então o Senhor Deus mandou ao homem um profundo sono; e enquanto ele dormia, tomou-lhe uma costela e fechou com carne o seu lugar. E da costela que tinha tomado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher” (GN, 2:21-22). Logo em seguida, essa mulher comete o chamado “pecado original”, ao ser, de certa forma enganada pela serpente, que diz que se ela comer do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, seus olhos se abrirão e será como deuses, “conhecedores do bem e do mal” (GN, 3: 5). Após isso, ao serem expulsos do paraíso, Adão finalmente dá nome a essa mulher: “Adão pôs à sua mulher o nome de Eva, porque ela era a mãe de todos os viventes” (GN, 3: 20)

Para solucionar essa questão de Gênesis e compreender mais efetivamente o ensinamento desse livro, é imprescindível saber que EVA, em hebraico, significa VIDA. Diante disso, toda aquele julgamento e condenação à mulher cai por terra, pois, assim como GAIA, na mitologia grega, EVA não é precisamente uma mulher, mas uma representação simbólica da vida, materializada na imagem feminina. Assim, a construção do sentido desse texto pode ser feita da seguinte forma: Deus dá ao ser humano a possibilidade de ser gerador de vida, isso fica explícito com a ideia da retirada da costela, uma simbologia do nascimento e da imagem do ventre. A seguir, é a própria vida que dá ao homem o conhecimento, o “fruto da árvore da ciência do bem e do mal”. Eis o momento da queda: “Então os olhos abriram-se; e, vendo que estavam nus, tomaram folhas de figueira, ligaram-nas e fizeram cintura para si” (GN, 3:7), isto é, abrir os olhos metaforicamente é uma expressão usada em diversos textos da antiguidade para tomada de consciência. Dessa forma, a expulsão do paraíso não se dá pela desobediência, mas pelo conhecimento e pelo fim da inocência. O homem agora se percebe mortal e frágil: que sabe da dor do parto, da fome e de todas as agruras da existência. Deus, ao subjugar EVA ao homem – “Teus desejos te impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu domínio” (GN, 3: 16) – não está entregando a mulher, mas está entregando ao ser humano a posse da vida, ou seja, o princípio do livre arbítrio. Assim, o ensinamento desse livro, provavelmente, trata da responsabilidade humana e seu livre arbítrio diante da vida, agora subjugada a ele, pela tomada de consciência criada a partir do conhecimento.

Referências: JAKOBSON, Roman. Linguística e comunicação. São Paulo, SP: Ed. Cultrix, 1995. Bíblia Sagrada. São Paulo, SP: Ed. Ave Maria, 1988. https://www.bibliacatolica.com.br/vulgata-latina, acesso em 06/01/2020 MARTINET, André. Elementos de Linguística Geral. Ed. Martins Fontes, 1978. CAMPBELL, Joseph. O poder do mito. São Paulo, SP: Ed. Palas Athena, 1990. HESÍODO. Teogonia. São Paulo, SP: Ed. Martin Claret, 2010.


Artur Custodio

Professor de literatura e português. Especialista em Cultura e Literatura..
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