fragmentos do absurdo

O paradoxo (não) pode esperar

Pedro Arrifano

Alguém licenciado em Filosofia e história da arte que acredita que a atitude coerente e mais sábia a ser tomada é optar em conviver harmoniosamente com o absurdo...

A(deus) tristeza, até depois?

O ser humano incapaz de escapar e de dominar a sua própria contingência sente-se intrigado, fascinado e, igualmente, receoso. A presença destes e de outros factos fazem-no pressentir um mistério, face ao qual se apercebe da sua pequenez e impotência. O mistério é a realidade que escapa à apreensão racional e é vivido pelo ser humano numa ambivalência emotiva em que este lhe aparece como algo de fascinante e o atrai, ou como algo de tremendo, e lhe causa constrangimento.


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Querer ser cego para a morte. Não a querer ver! Não querer acreditar que se morre, é insuportável pensar nisso. Querer acreditar convictamente em todos aqueles que falam da vida eterna. Mas porque alguém tendo saúde, pensa tanto na morte? Porque estes pensamentos persistem em atormentar? Porque por vezes, nos apanham a fazer batota connosco mesmo e a ver na morte dos outros a…morte dos outros e não a nossa? Aquilo a que Jankélévitch chama de “a batota essencial” e que consiste em aplicar a morte aos outros através de uma relação perpétua e de um adiamento. Apostar no além será fazer batota? Não sei se será mas na verdade ficamos mais reconfortados se acreditarmos em Deus. Vivemos melhor se acreditarmos que existe algo de melhor para lá da morte. Acreditar! É preciso crer. Aquino dizia convictamente: “crer para compreender com mais precisão”. Há quem prefira entender a vida com tudo o que ela tem para nos dar. Espinosa, como bom estoico que era, talvez tivesse razão quando escrevia que meditar sobre a morte é prejudicial e mesmo um pouco perverso. Só nos tornamos livres de facto quando percebemos as causas mentais que se escondem por detrás de determinado problema físico e vice-versa.

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No entender de Edgar Morin a vocação do homem é prolongar cada vez mais a vida humana. Na realidade ela tem, século após século, sido prolongada. Este prolongamento tem sido causa de muitas transformações na nossa sociedade, quer a nível sentimental quer no nosso estilo de vida. Balzac no seu tempo dizia que uma mulher com 30 anos era velha. Hoje em dia trata-se de uma mulher ainda jovem. O ritmo mudou, continuamos a mudar, mas haverá, como afirma Morin, sempre o “meu momento” a “minha morte.” Ninguém pode morrer por nós…a morte impõe um limite à nossa existência. A morte é uma experiência intransferível e é a partir desta experiência antecipadora da possibilidade da morte, que cada ser humano singular é colocado diante da base do seu ser. Por isso, Heidegger diz que a morte humana não é um fenómeno localizado fora da vida mas que o ser humano, enquanto vive, é um ser para o fim. É um ser-para-a-morte. Mesmo fugindo, para não a assumir explicitamente, somos obrigados a admiti-la indiretamente. Ao percebermos que nada escapa à morte podemos ser retirados do conforto a que estávamos acostumados junto às coisas, aos outros, aos nossos mais diversos ideais e realizações. O homem corrompido pelo orgulho e pelos poderes enganadores recusa tomar consciência do seu desamparo e cai na inautenticidade. Numa profunda quietude, o tédio revela-lhe o seu nada e, para esquecer o espetáculo da sua miséria, mergulha no divertimento – modo de dizer adeus à tristeza. Um adeus e um até breve.


Pedro Arrifano

Alguém licenciado em Filosofia e história da arte que acredita que a atitude coerente e mais sábia a ser tomada é optar em conviver harmoniosamente com o absurdo....
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