fragmentos do absurdo

O paradoxo (não) pode esperar

Pedro Arrifano

Alguém licenciado em Filosofia e história da arte que acredita que a atitude coerente e mais sábia a ser tomada é optar em conviver harmoniosamente com o absurdo...

O absurdo entre-mãos

Estes últimos acontecimentos que têm invadido os nossos lares, em especial o êxodo de milhares de pessoas em busca do estatuto de refugiado, fazem com que seja necessário enfrentar, de uma vez por todas, este absurdo que temos em mãos. Atenuar as assimetrias e pôr de lado o politicamente correcto, sob pena de todos e cada um de nós perder o domínio do espaço a que temos direito no mundo.


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Muito distantes de um mundo em que todos os homens e todos os povos renunciam à confrontação permanente e escolhem a cooperação, é urgente que se promova a consciência e solidariedade globais, num esforço concertado de derrotar a pobreza e o desespero que geram terrorismo. No tocante ao velho continente, será assim, ou então o seu fechamento sobre si mesmo.

A organização política sob a fórmula de Estado-Nação é hoje ineficaz, daí a crise em que este está mergulhado e a braços com forças desintegradoras. A violência, a intimidação e o terror dentro da Síria levam milhares de pessoas a fugir para a Europa, procurando segurança e proteção, situação muito preocupante, na medida em que muitos dos países de acolhimento voluntário atravessam eles próprios dificuldades económicas e financeiras graves, como é o caso de Portugal e da Grécia, os quais tiveram que recorrer a ajudas para os seus próprios povos.

Em paralelo com a fraqueza dos Estados para os quais se dirigem aqueles que querem requerer asilo com vista à eventual obtenção do estatuto de refugiado, os países de origem são protagonistas de regimes não inclusivos, avessos ao reconhecimento dos direitos políticos e muitos deles são cativos de fanáticos e loucos que matam inocentes em nome de uma guerra que de santa nada tem.

A poluição, as mudanças climáticas, o esgotamento dos bens naturais, a perda da biodiversidade, a degradação social, o primado da ciência e da tecnologia, sem orientação dos valores, afinal conduziram a um modo caótico de conceber a vida, vida esta que é cada vez mais projetada na base do sentido utilitário.

Provavelmente, esquecemo-nos de que a terra e a humanidade são indivisíveis e que caminharemos forçosamente para o abismo se tivermos no mundo regiões de prosperidade e progresso e zonas de pobreza extrema e atraso. Chegados aqui, é inconcebível que países como a Coreia do Norte e a Eritreia, entre outros, cometam crimes de guerra e violem o Direito Humanitário Internacional. É igualmente incompreensível que não se vislumbre união na União Europeia.

Nós, europeus, não temos em mãos uma escolha, porque receber refugiados é uma obrigação que decorre da ratificação de tratados internacionais e de variada legislação comunitária, mas essa obrigação tem de ser repartida pelos parceiros europeus. Todavia, não parece justo que tenhamos de arcar, apenas nós, com as consequências de um planeta profundamente desigualitário, o qual, em grande parte, resulta de mau governo. Na verdade, o mundo desenvolvido não se reduz à Europa e é impossível acolhermos milhares ou milhões de pessoas indefinidamente. Atentas as diferenças culturais e de instrução que quase sempre nos afastam uns dos outros, é forçoso que compreendamos o quão é revelador do que nos separa ir ao encontro dos papuas de jacto supersónico: um mundo a várias velocidades, tendo como pano de fundo a desesperança e a incapacidade de lutar globalmente pela abundância e liberdade.

A solução decerto passará por conter e destruir o Estado Islâmico, o que só pode ser feito concertadamente executando uma estratégia. Porque todos nós somos vítimas dele, incluindo os árabes e os muçulmanos não radicais. Chegou o momento em que a Europa tem de decidir agir e de escolher apenas dialogar com quem queira o diálogo, para que não seja demasiado tarde para arrepiar o caminho de defesa dos princípios decorrentes da dignidade da pessoa humana, que soube plasmar em diversos momentos da sua história e que não poderão ser letra morta, sob pena de vergar-se ao medo e à ameaça.


Pedro Arrifano

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