fragmentos públicos

Frases soltas que todos ouvem, mas não percebem.

Danilo Brandão

Estudante de jornalismo. Já foi pseudônimo, hoje prefere mostrar-se ao mundo. Literatura e cinema. Na dúvida: escreva.

Para os tempos de crise: Saramago!

Saramago é um dos cânones da literatura portuguesa. Seus romances são verdadeiras aulas sobre a alma humana. O autor analisou nossa sociedade de uma maneira única. Expôs todas as nossas fraquezas perante os problemas da civilização. Por isso, Saramago é o melhor remédio para os tempos de crise.


saramago.jpg Saramago é um dos maiores escritores da história da literatura mundial.

Saramago está entre nós! Mais vivo do que nunca. Está por completo. Mas, refiro-me a uma de suas obras: Ensaio sobre a cegueira. Este é mais que um livro. Está longe de ser um romance qualquer. Está longe até mesmo de ser mais uma obra prima. É um manifesto do mundo moderno. Um atestado da nossa esquizofrenia coletiva. Saramago coloca todos no mesmo prisma. Brinca de nos estudar. Dá certo!

Escrever linhas e linhas sobre a grandiosidade do escritor português talvez seja desnecessário. Saramago é um cânone da literatura universal. Entrou para o seleto grupo de artistas da palavra que ganharam o prêmio Nobel. Façanha que aumenta de tamanho tendo em visto que escrevia em português, sua língua mãe. Saramago foi, antes de tudo, um grande analista. Soube como poucos destrinchar nossa alma. Escancarar nossos defeitos como sociedade e como indivíduos. Zombar das nossas fragilidades.

Em sua carreira há inúmeras obras que merecem milhares de páginas de análises profundas, tais como; Evangelho segundo Jesus Cristo (Que conta a história de Jesus com muita ironia e desconstrução) e memorial do convento (Romance histórico. O enredo acontece no século XVII, durante o reinado do rei português D. João V), entre outros. Mas Ensaio sobre a cegueira é o auge da genialidade do autor.

A obra foi lançada em 1995. O enredo é simples. Aparentemente, de uma hora para outra, sem motivo lógico, algumas pessoas estão perdendo a visão. A cena inicial é emblemática e, na minha visão, um dos grandes momentos da literatura portuguesa. Um homem está dentro de seu carro parado no semáforo quando de repente sua visão torna - se um “mar de leite”, toda iluminada. Como se estivessem ligado uma forte luz no interior de seu olho.

A partir daí o “mal branco” (termo usado no livro para designar a doença) espalha-se. As autoridades desesperam-se. Não sabendo o que fazer com os infectados que crescem vertiginosamente, coloca todos em um hospício abandonado. A partir dai começa o grande conflito. A questão central do romance. A situação dos infectados só piora com o passar do tempo. Eles ficam inseguros sem a visão. Tornam-se violentos quando ligam seu extinto de sobrevivência. E tudo isso é ao mesmo tempo surreal e crível.

A história de Saramago é uma grande metáfora. Faz um paralelo da nossa sociedade e de toda fragilidade que a cerca. Discute as relações de poder, nossas vergonhas, medos, ganâncias e desejos. Tudo aquilo que organizamos como sociedade desmorona. Somos muito poderosos com a tecnologia e ciência avançada. Mas, na verdade, é tudo muito instável. Destrutível demais. Lógico que não percebemos e nem haveria como. Somos ocupados. Temos uma carreira para escolher. Uma vida para gerir. Elegemos prioridades. Artes. Cultura. Economia. Dinheiro. Relacionamentos. Carros. Restaurantes. Cartão de crédito. Shopping. Redes sociais. A sociedade é linda. Mas não eterna. É isso que Saramago nos mostra.

Além de tudo isso, temos outro paralelo importante na história do escritor português com os dias modernos: Estamos todos cegos. Cheios de luz e informação. Filtramos a nossa verdade. Estabelecemos como verdade a nossa visão dos fatos. Quanto mais a tecnologia nos coloca no mundo virtual, mais temos dificuldade em colocarmos no lugar do outro. Estamos tão cheios de luz que não enxergamos mais nada. Por isso e por todas as outras coisas, para os tempos de crise: Saramago!


Danilo Brandão

Estudante de jornalismo. Já foi pseudônimo, hoje prefere mostrar-se ao mundo. Literatura e cinema. Na dúvida: escreva. .
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