fritei mas não consegui dar um nome

Eu prefiro ser uma floresta do que uma estrada.

Mayara Franco

Fã de redes sociais ao vivo e em cores, daquelas que vamos pro bar e só saímos por último. Engenheira com um pé na comunicação, capricorniana, nacionalista e que acredita no futuro da humanidade. Por favor, agora um cappuccino!

A prisão feminina de Tears for Fears

A tragédia da vida real contada ao som de Tears for Fears. Woman in Chains é a mais pura realidade de milhares de Marias, Joanas, Silvas e de tantas outras mulheres, não somente brasileiras, que merecem o nosso respeito, admiração e luta por um mundo mais igualitário e menos machista.


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Lançada em 1989 no álbum “The Seeds of Love”, “Woman in Chains” é carregada de sentimentalismos e abre margem para discussão da prisão feminina no mundo dito moderno. Sendo uma das músicas mais famosas da banda, e que conta com a participação da cantora Oleta Adams e de Phil Collins, o clipe se passa com com o dia-a-dia de um casal, onde o homem, um lutador de boxe buscando por seu reconhecimento e fama, é visto claramente descontando seu relacionamento e sua vida no saco de pancadas. Por outro lado, a mulher para equilibrar as contas, talvez como uma forma libertadora ou (pura e simplesmente) por profissão, é dançarina em uma casa noturna.

Conforme algumas fontes lidas enquanto eu surfava pela internet – não sei ao certo a veracidade – a mãe de Roland Orzabal, vocalista do Tears for Fears, era uma dançarina inglesa e sofria agressões por parte de seu esposo. Desta forma, a canção teria caráter autobiográfico e portava a temática de violência contra a mulher.

o dia-a-dia de um casal

Algumas impressões podem ser retiradas das entrelinhas tanto da letra, quanto dos pouco mais de 6 minutos do clipe. Ao começar pelo título “Woman in chains” e pela primeira linha da música “You’d better love loving you’d better behave”, já somos levados a um universo abusivo e ao que vem pelo restante – um caráter repressivo e censurável em relação a mulher, exigindo dela uma postura de submissão e obediência. Com os versos seguintes a mulher se diz bem, ótima e acha seu homem uma grande pessoa, entretanto, mais a frente e contraditoriamente, confessa desesperadamente ser oprimida pelos olhos de aço do indivíduo que se intitula seu grande amor.

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O que leva um homem a acorrentar a alma de sua esposa, namorada ou seja ela o que for? O que leva a construção de relacionamentos abusivos repletos de violência em todas as suas formas? A natureza humana não é completamente entendida, o cérebro possui várias conexões ainda não explicadas, mas parece que a posição de domínio e controle sobre o outro é muito prazerosa e remete a uma sensação de autoridade, de comando e de poder sobre o outro. Será medo de perder a pessoa? Carência? Falta de confiança?

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E quantas são as formas abusivas que vivenciamos por aí? Agressão verbal e física, assédios em todas as suas formas e casos de estupro, sem contar tantas outras maneiras. O início de um relacionamento é marcado pelo amor mútuo e a mulher não consegue (ou não quer) enxergar através do comportamento ciumento e dominador do companheiro.

Eles se casam.

Com o passar do tempo e com a diminuição do convívio social, a mulher abandona a família e os amigos, vem uma agressão verbal, a mulher se recolhe, ele leva flores e ela o perdoa. Mais uma agressão verbal seguida de um soco; a mulher diz que caiu da escada e recebe juras de amor do marido, implorando incessantemente que ele irá mudar. Ela o aceita.

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Os filhos nascem e a vida parece ter um novo sentido e um novo rumo. Tudo em perfeita sintonia, até que... A mulher busca as crianças na escola e depois passa ao shopping sem avisar, e mais tarde discussão em casa, espancamento e lá se vão toda auto-estima, principalmente se os filhos estiverem presentes. E nessa altura, a mulher – que já não pensava em sair de casa – passa a pensar menos ainda na possibilidade pelos filhos.

Um verdadeiro ciclo vicioso. A mulher está presa dentro de sua própria casa, dentro de seu casamento e o pior, dentro de si mesma. Na metade da canção, a banda britânica explora as feridas da alma, aquelas que o tempo poderá não curar, bem como, a luta da mulher para tentar se encontrar, respirar diante de toda essa situação. Agora, imagine quantas mulheres sofrem agressões silenciosamente pelos seus “grandes amores e heróis”. Muitas conseguem se libertar desse cárcere, outras são literalmente consumidas pelas suas correntes.

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Ao contrário do clipe da versão original, em maio de 2014, a banda brasileira Noturnall, de metal progressivo e melódico, regrava esse clássico com a participação de Maria Odette fazendo uma releitura de todo drama do clipe original. A nova versão vem de contraposição a toda temática agressiva em relação a mulher, contando com a participação das mães dos integrantes da banda, em homenagem a todas as mães brasileiras pelo dia das mães.

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“Woman in Chains” – ou Mulher Acorrentada – vem nos fazer um convite a mergulhar de cabeça no universo daquelas guerreiras, "de Marias, de Joanas, de Silvas", que além de enfrentarem suas batalhas diárias, tem de lidar injustamente com as agressões de seus companheiros, escondendo do mundo o que realmente acontece e ainda sim, andando com um enorme sorriso no rosto. Um bravo a elas e que essas guerreiras não tenham vergonha e nem medo de recorrerem à justiça ou à polícia. Que possam levantar a cabeça e se reerguer, porque são mais do que santas e vitoriosas.

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Observação: todo tempo que eu demorei pra escrever esse artigo, escutei apenas uma música, Woman in Chains. Se por acaso me perguntar se quero ouví-la novamente, a resposta é um eterno e caloroso sim! Abaixo seguem os links da música gravada pelo Tears for Fears e a regravada pela banda nacional Noturnall para que vocês possam tirar as suas próprias conclusões.

Tears for Fears: https://www.youtube.com/watch?v=O5-c79LQ3aM

Noturnall: https://www.youtube.com/watch?v=WLiWi63Gu84

Hasta luego!


Mayara Franco

Fã de redes sociais ao vivo e em cores, daquelas que vamos pro bar e só saímos por último. Engenheira com um pé na comunicação, capricorniana, nacionalista e que acredita no futuro da humanidade. Por favor, agora um cappuccino!.
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