fritei mas não consegui dar um nome

Eu prefiro ser uma floresta do que uma estrada.

Mayara Franco

Fã de redes sociais ao vivo e em cores, daquelas que vamos pro bar e só saímos por último. Engenheira com um pé na comunicação, capricorniana, nacionalista e que acredita no futuro da humanidade. Por favor, agora um cappuccino!

Logística Reversa Social

A culpa não é sua, é do sistema, porque parece que ele só funciona se for assim. Nós somos vítima dele. Você, por ter que me fazer passar por isso e eu, por “ser" um alvo fácil né?


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Éramos duas, as 18:50h aproximadamente e caminhávamos bebendo uma cerveja, no centro de Belo Horizonte, falando da vida, sobre relacionamentos falidos, sobre o quanto a vida é uma dádiva e sobre o quanto se sentir livre e em paz são as melhores sensações, até que…

- Por favor, só quero o celular, mais nada.

Entregamos, pegamos um táxi e analisamos as duas opções de vida naquele momento de fôlego transcendental interrompido: vamos pra casa chorar que fomos roubadas ou já que estamos aqui, vamos beber.

- Vamos beber!

E assim, selamos a nossa amizade, agradecendo a todas as boas energias do universo que nos deram mais um fôlego de vida para manter nossos sonhos aqui na Terra. Bebemos muito, cantamos “Toda forma de amor”, “Será”, "Anunciação" e "Dois Bicudos”. Uma alma boa nos empresta o celular para pedir um carro desses de aplicativo.

E tudo conspirou para que tivéssemos uma escolha de vida e tivemos outra. Preferimos respirar, não lamentar o material e agradecer pela vida mantida. Afinal, poderíamos ter entregado o celular e receber um tiro como moeda de troco do sistema.

A parte mais difícil: falar sobre o ocorrido? Não, isso é simples. Quanto mais falar, melhor! Torna-se o fato não traumático e elaborado inconscientemente. Você pode estar pensando e arrisco-me a dizer que pensou: olha só, no centro de BH, dando sopa com celular, pediu pra ser assaltada.

Você está tão acostumado a se colocar como vítima do sistema que a gente vive, que teve o seu senso culturalmente atrofiado, e o resultado foi pensar isso. Vício! E nem percebe que faz esses comentários. Por que eu não poderia utilizar meu celular na rua? Estou errada fazendo isso? Mereço ser roubada? Será que a vítima está tão errada?

Não consegui ficar chateada com o fato, fico mais chateada com o senso comum ao ouvir: "distraída, desavisada, imatura, sem maldade" - por transitar com um celular pelas ruas de uma grande capital.

Esse pensamento me leva a questionar o quanto a sociedade está cômoda e refém, impotente, precisando de educação, de uma boa gestão pública de segurança e de tantas outras coisas, sistemicamente falando. O que mais choca é que o sistema molda tanto as pessoas que o que mais ouvi é que "a culpa foi minha" pelo assalto, como se eu dissesse:

- Moço, eu tenho um celular no bolso. Você que desce calmamente dessa moto e me aborda com essa arma, deve estar precisando muito mais do que eu desse celular. Então toma ele para tirar as peças, revender, comprar droga, comprar o leite das crianças, ou satisfazer quaisquer outros tipos de necessidades. Entendo perfeitamente que você esteja nessa situação, mas, posso ser sincera… A culpa não é sua, é do sistema, porque parece que ele só funciona se for assim. Nós somos vítima dele. Você, por ter que me fazer passar por isso e eu, por “ser" um alvo fácil né?

Um brinde ao resultado daquilo que nós mesmos construímos: uma sociedade que culpa a vítima pelo crime, ao assaltante pela falta de oportunidades de “ser alguém melhor” e, de fato, as pessoas que sofrem com o ato. Posso chamá-las de vítimas?


Mayara Franco

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