fugere urbem

Entre a entrelinhas das coisas simples

Thaís Rigueira

Professora com formação em Letras, aprecia literatura, música, fotografia, pintura, liberdade e coisas simples. Acredita que a simplicidade deveria ser virtude fundamental do ser humano

Nuvens - Um breve conto

Olhar o céu sempre foi sinônimo de calmaria. Mas depois desse fato, olhar o céu passou a ter um gosto especial. Não é apenas olhar... é contemplar.
Essa história foi a tanto tempo, mas ainda sim, continua tão latende em mim...


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- Vovó, quando a gente morre, fica lá em cima deitado nas nuvens?

Lembro-me dessa inocente pergunta, a doce nostalgia daquele momento quando estava sentada no batente na frente de casa, admirando o céu naquelas gostosas tardes de primavera, onde o vento acariciava nossos rostos e cabelos. As palavras se confundiam, ora com o silêncio, ora com risadinhas.

-Não sei meu bem, mas um dia a gente descobre.

-Parece ser tão bom ficar deitada ali né?

A inocência das minhas palavras, das palavras daquela garotinha, parecia até que mundo era a pura perfeição. E minha vozinha sentada no cantinho do sofá, óculos grandes, redondos, vestido florido cinza e sempre lendo seu livro favorito, a Bíblia, tinha em suas feições muita sabedoria no que lia e calma para escutar o que eu perguntava.

Nesses dias, as horas nem passavam tão rápido, não precisava correr tanto, não tinha pressa e cada minuto que se passava a única coisa que me compenetrava era a mudança das nuvens, da próxima figura que surgiria, e mais figuras, mais imagens...

-Olha vovó, aquela ali parece com um gato...

E ela, tão serena, pernas cruzadas, dava uma pausa em sua leitura olhava junto comigo.

-Parece um macaquinho...

Eram essas simplicidades que me faziam olhar o céu constantemente. Depois de anos, precisei correr, estudar, trabalhar e correr mais um pouco, confundir meus passos com as demais pessoas da cidade, acordar cedo, dormir tarde...ter pressa pra tudo...

Mas hoje, tarde de domingo, coincidentemente uma tarde calorosa de primavera, sentei no batente de uma porta, não aquela que sentei um dia, mas o quadro que eu estava diante dos meus olhos era a mais pura perfeição da minha infância, os algodões no céu formando figuras, imagens...

De repente, vejo um gato...ou será um macaco... um macaquinho?

Será que...será mesmo?

E como se houvesse alguém por ali a me ouvir, a voz da minha criança interior saltou num estalo:

-Ah vovó, então é nessa nuvem que a senhora esta não é?

*Dedicado a Rita Guedes de França e publicado no blog vivendosemscript.blogspot.com.br


Thaís Rigueira

Professora com formação em Letras, aprecia literatura, música, fotografia, pintura, liberdade e coisas simples. Acredita que a simplicidade deveria ser virtude fundamental do ser humano.
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