Geane Priscilla

Linguística, intérprete, literata, escritora.
*Filha do sertão, de mãe valente, pai amoroso. Neta de uma constelação*

A poesia cantada, do coração brasileiro

De estilo semelhante ao trovadorismo medieval, a magia do cenário cavalheiresco, de castelos e feitos heroicos, inspirou o Brasil na criação de um perfil literário, procurando um espelho no místico e nos contos de fadas de seus colonizadores. Mas não se tornou uma sombra da sua inspiração. Desvinculou-se, emergiu, criou raiz como sendo nosso. E hoje, longe das culturas de ostentação, a simplicidade da literatura de cordel, mostra a supremacia da sensibilidade humana


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Nós, brasileiros, descendentes, imigrantes, misturados, indígenas nativos, escravos e todos aqueles que foram forçados a vim a esse país. Fazemos parte de um grande complexo cultural, em que quase tudo se influenciou de fora, mesmo assim, o próprio quase tudo pertence aqui. E diante desse sentimento de possuir, procurar por uma essência patriótica se tornou objetivo em vários campos de estudo. Nesse ponto, nada melhor que a arte e a literatura para desenhar o perfil de uma geração, resumirem o pensamento de um povo, traduzir alguns de seus ideais. E definir um ser e um estilo brasileiro, não é uma tarefa fácil, diante da miscigenação em que vivemos. Mas, um gênero sobreviveu ao longo dos anos, desde um Brasil império até as fortes inspirações do pop Arte de Andy Warhol. Emergiu, criou raiz como sendo nosso: O Cordel.

Influenciado pelos colonizadores portugueses, de estilo semelhante ao trovadorismo medieval. Foi na magia desse cenário cavalheiresco, de castelos e feitos heróicos, que o Cordel inspirou o Brasil (ou seria o Brasil que inspirou o cordel?), na produção de contos Homéricos, em que a honra e o caráter, são maiores que a ganância e o ódio. Em uma sociedade recém “civilizada”, que foi ponto de convergência de todas as culturas, ter algo maior em que acreditar, unia os diferentes. As pessoas procuravam (e ainda procuram) um espelho no conto de fadas, no místico, que viesse se agregar a realidade, algo para fundamentar as suas vidas. Sem livros e sem escolas, se desenvolveu uma literatura oral, onde o cordel se encaixou com suas canções faladas e métricas. Com uma mistura de poesia, oralidade e uma linguagem singular.

Dizem que o cordel ganhou esse nome, porque os livretos eram amarrados em cordões, estendidos e vendidos nos mercados europeus. Em meados do século XVI, o Renascimento, trouxe a evolução dos relatos orais e abriu as portas de um novo jeito de difundir os poemas, através da impressão, ilustrando com xilogravura, técnica de fazer gravuras em relevo sobre madeira, que até hoje se matem na tradição das produções de cordéis, eternizando histórias verídicas e os “causos” populares. E tudo que puder pertencer ao imaginário e aos corações das pessoas, ganha vida nos cordéis. Desde lendas, narrativas históricas passadas de gerações, jornalismo, boatos, aventuras, histórias de amor, anedotas, politica ou simplesmente a opinião do autor. Não existe limite para o conto de cordel. Assim como não tem apenas a finalidade de entreter e mexer com a sensibilidade humana, mas principalmente em fazer criticas sociais.

O cordel tem também um objetivo educativo e didático. Apesar dos projetos de alfabetização, o acesso a uma boa leitura é precário. O cordel ajuda nesse incentivo, devido o baixo custo de produção, comparadas a outro tipo de publicações impressas nacionais. Muitas vezes é vendido pelo próprio autor, assim como era feito nos séculos passados, em feiras, nas ruas, ou para que obtêm mais destaque, em livrarias. Para os mais talentosos, a leitura pública vem acompanhada de uma boa viola, encantando novos leitores com a genialidade dos cordelistas. Em lugares mais remotos, assume a função de auxiliar pedagogicamente no processo do letramento, por ser o meio mais acessível de se obter um livro. Pode ser escrito de forma poética em redondilhas maior, em versos de sete silabas. A forma mais comum, é feito em sextilhas, com versos de seis silabas, em que muitas vezes a rima pode ser no estilo ABCBDB. Pode ser feito também na forma de prosa (é raro, mais acontece), de formas mais elaboradas ou espontâneas.

Infelizmente toda essa riqueza literária, tem perdido espaço nos grandes centros urbanos, por falta de esclarecimento, de interesse das novas gerações e por sentimentos hostis de conceitos precoces. Pelo preconceito social e o preconceito geográfico (sim, isso existe!), porque muitas vezes é produzido por classes mais humildes do nordeste, em que o Cordel ainda goza de certo prestígio. Pelo preconceito linguístico que tanto abordou Marcos Bagno, por alguns cordelistas utilizarem um tom jocoso em seus trabalhos e uma linguagem informal, que muitas vezes se opõe ao erudito de outras literaturas. Preconceito até mesmo literário de inferiorização desse tipo de escrita. Reforçando um velho ditado em que diz que “Santo de casa, não faz milagre” a partir do momento em que é negada a devida valorização de contos autenticados como brasileiros. Mas já dizia Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré: “É melhor escrever errado a coisa certa do que escrever certo a coisa errada.” Um gênio repentista, que recebeu esse apelido por sua poesia ser comparada a beleza do canto do pássaro patativa. Inspirando não apena o cordel, mas muitos outros estilos linguístico de escrita.

Talvez, o problema de tanta hostilidade, é que não encontramos mais “fantasia” no dia a dia. Não a referência das histórias de alucinações de Quimera ou ilusões infantis, em que a linha tênue da realidade perde o rumo. Mas a inspiração de ver nas coisas medíocres se transformarem no improvável, no extraordinário. Longe dessa tão presente cultura de ostentação, a simplicidade da literatura de cordel mostra essa sensibilidade mais intima que ainda existe no ser humano, que muitos procuram anular, pois é no cordel, que o fantástico ainda faz morada. Como afirma Carlos Drummond de Andrade: “A poesia de cordel é uma das manifestações mais puras do espirito inventivo, do sendo de humor e da capacidade crítica do povo brasileiro.” Em que o poeta expressa com espontaneidade e graça as mazelas da vida, seja no norte e nordeste até o sul do Brasil; do sertão até as geadas dos Pampas Gaúchos. Porque assim como no cordel, a inspiração de imensidão do nosso país, apresenta inexcedível perfeição.


Geane Priscilla

Linguística, intérprete, literata, escritora. *Filha do sertão, de mãe valente, pai amoroso. Neta de uma constelação*.
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