Erick Morais

Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida

Platão e a sociedade de consumo

A máxima cartesiana: "Penso, logo existo" foi substituída na sociedade de consumo pela: "Compro, logo existo". Ou seja, consumir passou a ser condição indispensável à existência das pessoas, assim como a base do prazer e da felicidade; como em uma relação amorosa, o consumismo flerta o tempo inteiro conosco, aproximando-se da relação de Eros proposta por Platão. Vivemos, assim, o hedonismo da sociedade de consumo e Platão nos ensina muito sobre isso.


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Vivemos numa sociedade de consumo, todas as relações baseiam-se numa rede de possibilidades, isto é, possibilidade de poder ou não comprar. O ter substituiu o ser, talvez, porque como diz Zygmunt Bauman, ter uma personalidade, ser alguém é muito pesado, e a ordem da nossa sociedade é ser leve, líquido, e não se pode ser leve possuindo uma personalidade.

Sendo assim, é melhor que o ter seja a minha "personalidade", o meu eu, pois, assim, posso modificá-la quando quiser, basta ter coisas novas. Mas, por que somos engolidos dessa maneira pela sociedade de consumo? Talvez, Platão nos ajude a entender isso.

Platão é o pensador que mais influenciou o “modus vivendus” do Ocidente, e, portanto, ninguém melhor que ele para explicar um problema tipicamente ocidental. Para o filósofo grego, o amor (Eros) era o desejo por aquilo que não se tem, o desejo na falta. Ou seja, o amor é o desejo, mas, apenas enquanto não possuo o ser desejado, assim, quando possuo o ser desejado, não há amor, pois não há desejo.

As pessoas envolvidas com marketing entendem como ninguém esse conceito, e, por entenderem muito bem, o aplicam à relação de consumo. Exemplificando fica mais fácil.

Muitas vezes possuímos um objeto que nos é útil, e cumpre com as funções que desejamos, contudo, a mídia nos bombardeia com a ideia de que precisamos de um objeto novo, pois o que possuímos já não possui utilidade. Assim, passamos a ter desejo por esse novo objeto, passamos a amá-lo, e a única possibilidade de resolver esse dilema, é possuindo o objeto desejado, isto é, comprando-o.

O celular é um dos grandes protagonistas dessa ideia. Não raras vezes queremos muito um celular, de modo que para realizar o desejo, o compramos. No entanto, logo depois de comprá-lo, surge um novo modelo, com, apenas algumas funções diferentes, o que já é suficiente para que a mídia nos bombardeie com a ideia de que a felicidade tem nome e sobrenome, e nós logo tratamos de comprá-la.

O mais engraçado de tudo isso é que quando compramos o objeto que antes era desejado, logo este perde o brilho, pois já existem novos objetos de desejo, mais bonitos, mais sofisticados, mais tecnológicos, e a mídia rapidamente trata de colocar em nossa mente a ideia de que a felicidade está ali.

Somos reféns desse sistema, que forma um círculo vicioso de consumo. Não quero aqui dizer que o capitalismo é o responsável por todos os problemas, ou é o pior sistema de todos. Mas, há de fato um problema com essa orgia do consumo que vivenciamos diariamente.

É legal ter uma boa casa, um carro bacana, comer num bom restaurante, viajar (NÃO SOU UM LUNÁTICO), porém, o consumismo desenfreado que é pregado tem consequências negativas.

É muito fácil ter uma boa condição aquisitiva e comprar o "kit felicidade", mas e quem não tem dinheiro para isso? É infeliz?

Entendo que a orgia do consumo tem nos desumanizado e nos afastado de nós mesmos. Estamos perdidos, fomos transformados em mercadorias e colocados em prateleiras, substituímos o ser pelo ter (que é importante, mas não é o principal), esquecemos o brilho das coisas simples e estamos presos nessa relação amoroso com o consumo.

Quero usufruir o que o capitalismo me oferece, pois como já disse não sou um lunático. Mas, acima de tudo quero ser eu, ter uma personalidade, sem possibilidade de venda, pois como dizia Millôr Fernandes:

"O importante é ter sem que o ter me tenha."


Erick Morais

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