Erick Morais

Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida

Cunha aceita pedido de impeachment contra Deus

Diante das acusações e da voz que ecoa das ruas, eu como representante do povo e líder desta casa, aceito o pedido de impeachment contra o senhor Deus. Eduardo Cunha.


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Após tanto ser citado, Deus é chamado para depor. O digníssimo Senhor Eduardo Cunha está avaliando a possibilidade de aceitar o pedido de impeachment que pesa contra o Senhor. Este chega apreensivo, como se não fizesse sentido estar ali. Mais calmo, aproxima-se da cadeira e acomoda-se. Cunha olha para a Câmara completamente lotada e se vê orgulhoso por presidir um lugar onde pessoas honestas trabalham duro, inclusive aos domingos à noite, para manter o país limpo. Depois de contemplar tamanha beleza, decide iniciar a sessão.

- Senhor Deus, sou um homem honesto que preza pela família e pelos bons costumes e me causa arrepios saber que vossa excelência está envolvida até o pescoço em tantos escândalos. São tantos que não consigo citar, portanto, pesa contra o senhor o crime de "Conjunto da obra". O que o senhor diz em sua defesa.

- Bom, não sei bem o que significa esse crime, a bem da verdade, é a primeira vez que o vejo. Mas, digo ao meu favor apenas que sou honesto e que meus atos falam mais por mim do que palavras. Acredito que o povo está comigo e sabe que sou uma pessoa de bem. Não tenho mais nada a declarar.

- Entendo Deus, mas em relação à economia o que o senhor pretende fazer? Quais medidas serão tomadas?

- Senhor Cunha, sei que economia precisa melhorar, mas neste momento me preocupa muito mais a situação ética do Brasil e as reformas que precisamos fazer, a começar pela reforma política. Sabe, acredito muito na educação, de modo que me preocupa muito mais ver uma nação com pouco senso crítico, chego até a perder o sono.

- Então não está preocupado com o fato das pessoas não poderem consumir tudo que a mídia ordena? Isto é, com a felicidade delas?

- Preocupo-me com economia sim, mas a meu ver devemos ser responsáveis. Não vejo esse modelo como solução, tampouco, como sinônimo de felicidade. Volto a dizer: preocupa-me muito mais a grave situação ética que vive o país. Melhor, a falta dela.

- Esperava ouvir outra coisa do senhor.

Cunha se cala e junto com ele todo o parlamento. William, assessor de Cunha, então, aproxima-se do presidente da Câmara e sussurra em seu ouvido:

- Dudu, com esse discurso do Deus, a avenida paulista já está lotada pedindo a sua cabeça. O coro "Fora Deus" é contagiante. Acho que a vitória está próxima.

Cunha recebe a notícia e sorri. Bebe seu suco de laranja com cenoura e diz:

- Diante das acusações e da voz que ecoa das ruas, eu como representante do povo e líder desta casa, aceito o pedido de impeachment contra o senhor Deus.

A Câmara quase inteira pula de alegria, bandeiras do Brasil são levantadas e o hino nacional começa a ser cantado. Chega a emocionar um repórter da Globo que faz a transmissão ao vivo. Essa alegria patriótica só é interrompida quando o Diabo que observava a sessão é surpreendido com um golpe nas costas e alguém grita:

- Pegamos o vermelhinho! Pegamos mais um comunista! Pegamos mais um corrupto presidente Cunha!

Todos olham para o fundo da sala, indignados por estarem na presença de um indivíduo tão corrupto e só aliviam a tensão quando o sábio Maluf diz:

- Eu sabia que esses comunistas são todos uns demônios.

A alegria retorna e o hino é cantado de forma mais forte. Enquanto o Diabo é levado pra uma sala ao lado por tucanos honestos, Deus vai saindo cabisbaixo. Então, Cunha se aproxima e para fechar a noite diz:

- Senhor Deus, sei que compreenderá que a minha decisão foi a melhor para o país, afinal numa democracia a voz do povo é a voz de Deus.


Erick Morais

Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.
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