Erick Morais

Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida

Ensaio sobre a Cegueira de um Povo chamado Brasil

"Entre um governo que faz o mal e o povo que o consente, há certa cumplicidade vergonhosa."
- Victor Hugo.


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O Brasil parece ter se transformado em uma espécie de seriado de terror, em que a cada novo dia surge um episódio mais macabro que o anterior. A crise parece não ter fim e a lama da corrupção e de todos os males intrínsecos a ela está cada vez mais alta. Todo esse caos poderia ser a gênese da mudança, mas, assim como acontece na obra de Saramago, o caos apenas amplificou a cegueira existente, tornando esta terra um lugar de guerra de todos contra todos.

A cegueira se manifesta na falta de empatia e – consequentemente – no egoísmo, na falta de ética, na falta de senso crítico e em um maniqueísmo que beira a falta de racionalidade (eufemismo para burrice). Esse caldo, extremamente nutritivo para a corrupção, faz com que busquemos soluções superficiais para problemas profundos. Desse modo, a crise penitenciária é culpa exclusivamente dos bandidos, o caos no Espírito Santo é culpa unicamente da polícia militar e/ou dos criminosos (paradoxal?!), e a crise política/econômica existe em função de um único partido ou tendência política.

O que não se percebe, ou não se quer perceber, é que essas atitudes sintetizam tão somente a célebre e comumente ideia utilizada de que: “O inferno são os outros”. É muito mais fácil apontar o dedo do que estender a mão e, assim, o inferno parece não ter fim, o que chega a ser uma constatação óbvia, dado que se estamos cercados de pessoas e elas são o inferno, logo há inferno por todos os lados e estamos bem no meio dele. Posto isso, percebemos quão frágil é ter um pensamento que reduz aos outros indivíduos problemas construídos socialmente, uma vez que ao agirmos assim, estamos apenas contribuindo para a perpetuação do mal, que em tese, queremos combater.

O cenário que encontramos hoje é desolador e não existem sinais de mudança. E não falo somente no ponto econômico, porque em nada adianta a economia voltar a funcionar e as bases destrutivas que impedem que o país de fato se desenvolva permaneçam. Será uma melhora momentânea e aparente, escondendo problemas que uma hora explodirão, como aconteceu com o governo petista. Mas, antes de prosseguir, é bom que se diga, não unicamente no governo PT, nem apenas com Lula, os que assim pensam fazem parte do grupo reducionista e simplista supracitado.

O problema do Brasil é crônico e profundo, de modo que é preciso alterar as bases e não os “players” para que a situação se modifique. A terra tupiniquim precisa de reformas na base (isso te lembra algo?) para que possamos falar em desenvolvimento de verdade e não em picos de crescimento econômico mágicos, que permitem que durante certo tempo a classe média e as novas classes médias se esbaldem na orgia consumista.

A grande questão, então, é se queremos de fato essas reformas urgentes e necessárias. A meu ver, não. E a classe política sabe disso, a elite mesquinha que domina o país também, de maneira que esperar deles mudanças que retirem das suas mãos o poder é muita ingenuidade. Mas, talvez não sejamos tão ingênuos. Talvez o que queremos são soluções mais fáceis, daquelas em que alguém ou algum grupo é pego de bode expiatório para limpar nossa alma dos pecados.

Há bons motivos para se acreditar nisso, pois discursos desse tipo são repetidos à exaustão por uma infinidade de “cidadãos”, assim como, atitudes – ou melhor dizendo – a falta delas, demonstram quão longe estamos de mudanças. Só para ilustrar, temos um presidente em exercício, que independente de ter chegado ao poder por meio de um golpe ou não, é citado recorrentemente na operação “Lava-Jato”, entretanto não existe pressão popular alguma ou com força suficiente para que ele seja retirado do poder. A mesma figura ilustre fez uma “restruturação” para que seu “parça” Moreira Franco, citado dezenas de vezes em delações da Odebrecht, adquirisse status de ministro e, assim, passasse a ter foro privilegiado. Não se escutou nem um pio. Mais uma atitude nobre do nosso paladino da justiça, a indicação do Dr. Alexandre de Moraes (agora ministro) para o lugar de Teori Zavascki, que partiu dessa para uma melhor em um “acidente” naturalíssimo, no STF. Nenhuma panela foi batida. Para finalizar, quem comandará a sabatina do excelentíssimo Dr. Alexandre de Moraes no Senado será Edison Lobão, que possui nada menos do que 4 inquéritos no STF, 2 deles relacionados à Lava-Jato.

Apesar disso tudo, não há indignação geral, manifestações, patinhos da FIESP na paulista, camisas da CBF exclamando patriotismo, exigências de mudanças com grupos patrióticos no palácio do planalto. Não há absolutamente nada! Curioso é que essas mesmas coisas aconteceram repetidas vezes, com força e gritos de amor à pátria, até que a figura ilustre da Dilma deixasse o poder ou quando ela, antes de largar o osso, tentou fazer de Lula ministro, fato suficiente à época para formação de um alvoroço que exclamava que a “queridona” pretendia com a sua ação dar foro privilegiado ao líder da quadrilha.

Bom, neste exato momento, tenho certeza de que estarei sendo chamado de petralha por alguns. Sinceramente, ….-..! Como já expus em vários textos, inclusive, antes do impeachment, juridicamente falando, pode ter havido um golpe, mas eticamente, ela mereceu o impeachment, bem como, Lula e o PT merecem ser punidos, dentro da lei, é claro, pelos seus crimes. Mas, Temer e seus anões também merecem o mesmo tratamento, porque são tão corruptos quanto os petistas. E quando é chegada essa hora, o que acontece? Nada! Não há uma mobilização nacional que busque não apenas se manifestar contra o governo do PMDB, mas também, exigir mudanças significativas na estrutura política do país, porque ao contrário do que muitos pensam, nenhum messias irá salvar a nação de uma sujeira que está presente em cada um de nós.

O que existe com muita força são as características destrutivas citadas no início do texto. Só para relembrar, porque é necessário, espero que cada organismo do PT pague pelo mal causado à nação, mas não sou um idiota útil para acreditar que a culpa por todos os nossos problemas se reduzem a um partido e, mais especificamente para os mais extremistas, a uma pessoa. O problema está na classe política como um todo, mas é preciso lembrar também, que ela não surgiu do nada, ela existe a partir e dentro da sociedade, portanto, esta como um todo possui culpa e a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam. Infelizmente, ao que parece, neste ensaio sobre a cegueira não existe a mulher do médico, ou se existe, está em número insuficiente para que o autor que vos fala acredite que possamos voltar a enxergar. Aliás, quando enxergamos?


Erick Morais

Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.
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