germinal

Destruindo e criando...

João Paulo Jucá

"Perca a cabeça e recobre os sentidos" - Fritz Perls

Internet, violência e corpo

No que está baseada a violência atual na internet (especialmente nas redes sociais)? Até onde nosso corpo e a virtualidade tem a ver com essas formas explícitas de violência gratuita? A internet torna as informações muito rápidas e banais, devemos achar formas de nos implicar e não esquecer do nosso corpo.


parachute dog.jpg

Todos os dias ainda me impressiono com a internet. Me impressiono com seu poder inimaginável de transmitir informações e também de banalizar as nossas experiências. De tragédias expostas todos os dias em páginas específicas, crimes e acidentes, a vídeos das “pessoas mais impressionantes da terra”, onde podemos ver coisas absurdamente incríveis sendo executadas, como saltos de paraquedas com cachorros e assim por diante.

Todas essas experiências, sejam elas consideradas “boas” ou “más”, tendem a ser banalizadas, a tornarem-se triviais demais. Tudo já foi visto e quase tudo já foi mostrado. Há uma busca desenfreada pela superação “da notícia mais comentada da semana passada”.

Não bastasse isso, a internet acaba por ser um simulacro das pessoas – é, mais do que a palavra sugere, uma virtualidade – é distante dos sentimentos e conflitos da vida cotidiana real. Sendo assim, cada qual molda a própria casca como lhe convém, afinal não há consequências muito atenuantes das ações nessa realidade alternativa que é a internet. É como jogar um jogo do gênero ação e poder morrer várias vezes, porque se possui continues e não há mais game over. A internet nos têm possibilitado esse perigoso atributo: inconsequência. Assim como há pouco interesse pleno e ação genuína. Como disse Zygmunt Bauman em entrevista, a internet (especificamente as redes sociais) nos possibilita cortar pela raiz nossos conflitos. Se eu não gosto de alguém, posso simplesmente deletá-lo e meu problema estará resolvido.

Mas além de ignorar o problema, há ainda uma questão muito mais complicada, que é quando as pessoas lançam suas insatisfações no mundo cibernético sem o menor discernimento ou preocupação. Ainda com base na ausência de consequências, tenho visto pessoas discursarem as mais infames violências porque estão protegidas por cabos de fibra óptica e sistemas operacionais.

As últimas passagens das quais me lembro se referem a um deputado que ameaçou a presidente da república e comentou “Dilma Rousseff, renuncie, fuja do Brasil ou se suicide até o dia 6 de setembro (...) com a foice e com o martelo vamos arrancar sua cabeça e fazer um memorial pra você”. Enquanto que pouco tempo depois um defensor da presidenta apareceu num vídeo com uma faca na mão e prontamente ameaçou o deputado. A outra passagem se refere um repórter indagando um rapaz que desferia comentários controversos (para não dizer de ódio) na rede, e que na frente das câmeras esboçou opiniões bem diferentes. Quando deflagrado sobre tais comentários, agrediu o repórter com uma cotovelada e uma cabeçada.

O que dizer sobre? A primeira coisa que penso é se alguma hora esses atos se consolidarão, se as pessoas irão batalhar por tais interesses e defende-los como aconteceu num passado não tão distante, e isso de certa forma já tem acontecido. A segunda questão que levanto é que essas insatisfações e violências estão apenas sendo evidenciadas com auxílio da internet. Desconfio que há muito tempo estão hibernando em algum lugar da sociedade.

Mas não se trata especificamente de governo, de partidos ou de justiça social. Há algo, uma energia acumulada, que precisa (e sempre precisou) ser liberada, mas que na vida real requer implicação, responsabilização e traz consequências. Esses assuntos específicos foram escolhidos como via de liberação desses infortúnios que temos e então acabamos nos agredindo. Precisamos lembrar que a internet é uma ferramenta interessantíssima, mas que ela pode, assim como os estudos sobre energia atômica, servir para nosso bem ou para nos aniquilar. Precisamos ter peito para assumir nossas posições dentro e principalmente fora dela. E ter bastante cuidado com a força de banalização e de manipulação que ela (através de nós) possui. É fácil nos ver convertidos ao ódio gratuito ou ao “deboísmo” passivo, ambos fazendo parte de um só molho que é a repetição impensada de palavras, discursos e vontades.

Acesse a internet, mas também ande pela calçada, leia um livro, ajude alguém ou olhe pro teto e para as árvores. Todos esses têm algo de palpável e real, coisas em que seu corpo está presente e você pode senti-lo e implica-lo na vida. Sem o corpo presente qualquer posição tende a se dissolver no ar.


João Paulo Jucá

"Perca a cabeça e recobre os sentidos" - Fritz Perls.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 2/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //João Paulo Jucá