germinal

Destruindo e criando...

João Paulo Jucá

"Perca a cabeça e recobre os sentidos" - Fritz Perls

Ódio ao spoiler como sintoma da nossa neurose

Como o ódio atual aos famigerados spoilers pode ser um sintoma para questões outras, como a nossa neurose e nossa forma de lidar com as relações.


6x04_OfMiceAndJames.jpg Sawyer prestes a atirar em Locke enquanto dá um spoiler - Série de TV LOST. Emissora ABC.

[Cuidado! Este texto contém spoilers, avance por sua conta e risco]

Meu gosto por filmes começou há cerca de cinco anos, quando passei a frequentar um espaço da cidade chamado Cine Café. Gratuito, com direito a café e debates ao final do filme, era um programa espetacular para o final dos sábados monótonos do interior do Ceará. Eram (e ainda são) historiadores, psicólogos, músicos e todos os tipos de profissões e sabedorias populares se encontrando num só espaço, onde estavam ao mesmo tempo o médico e o vendedor ambulante que ficou curioso – afinal o espaço é público e sempre gratuito.

Lá aprendi a ter uma visão mais acurada e crítica tanto das obras cinematográficas e literárias – pois há leitura de poesias - quanto da vida como um todo. Mas algo que não sei de onde herdei foi o ódio aos spoilers. Spoilers são trechos revelados de uma obra, geralmente de pontos importantes ou do desfecho. O termo surgiu da palavra inglesa spoil, que dizer estragar, e vem causando ódio, aversão e frisson nas pessoas por todo o Brasil, quiçá do mundo.

O que acontece quando se ouve/lê um spoiler? A pessoa em questão perde o impacto da surpresa que determinados detalhes de uma obra poderiam lhe proporcionar. Trocando em miúdos, ela perde a surpresa do sentimento clímax a que a obra tende a levá-la. Em suma, perde o interesse.

Acontece que certa vez um cineasta da cidade disse-me não se importar com spoilers e aquilo me deixou pasmo! Pedi-lhe explicações e sua resposta me pareceu estranha, mas até hoje ecoa na mente, foi algo como “o clímax/desfecho do filme é apenas mais um detalhe dentre muitos. Um filme se constitui de fotografia, trilha sonora, enredo, diálogos, monólogos, figurino, etc”.

Aquilo era inconcebível para mim. Julguei-o como um mau cineasta na época só por ter um pensamento como aquele. Como assim spoiler não é ruim? Até pouco tempo eu repetia a frase spoiler deveria ser crime em tom de brincadeira. Mas o que ele queria dizer, e que só amadurecendo pude perceber, é que um filme é um emaranhado de imagens, sons e micro histórias e tudo isso nos dispara sensações, afetos, sentimentos. É nisso a que devemos nos agarrar, àquilo que nos causa!

Fui um soldado na guerra contra os spoilers e amigos não faltavam para lutar comigo. No entanto, um dia vendo a série LOST (dispensa comentários) aconteceu um desvio inesperado e que foi mudando meu parecer sobre os temidos spoilers. Numa cena icônica um dos personagens (Sawyer) refaz uma cena do livro Ratos e Homens (John Steinbeck) onde este aparece atrás do seu melhor amigo (Locke) com uma arma prestes a tirar-lhe a vida. Sawyer narra a cena do livro enquanto aponta a arma para Locke e com isso conta o maldito final do livro! Minha reação? Pedi uma cópia do livro instantaneamente. Aquilo me pareceu extremamente paradoxal, parecia uma traição ao movimento anti-spoiler. Mas passei a seguir, aos poucos, as palavras do cineasta conterrâneo do qual falei. O que diabos aconteceu para que o homem apontasse a arma para o melhor amigo? Isso me inquietou.

Levei o episódio à minha sessão de psicoterapia e para minha surpresa os spoilers tinham muito a ver com minha neurose, mais do que jamais imaginei. Ruminando a questão por diversas sessões percebi que apenas repetira nos filmes o que acontecia na vida e nos relacionamentos: eu sempre adiei o fim, o clímax. O medo/ânsia pelo fim me privou muitas vezes de ouvir aquela trilha sonora do bar com atenção, aquele beijo dado sem querer, aquele encontro inusitado com amigos, um cheiro diferente, enfim, os detalhes que levam a um desfecho qualquer. A tentativa de controle das variáveis para ter um final digno de filme me fez ter experiências rasas, passagens insensíveis pelo decorrer desse filme que é a vida.

Não sou defensor do livre spoiler, mas hoje não o odeio. Ainda prefiro ter a surpresa do final de um filme, claro, mas não deixo mais de aproveitar os detalhes do seu decorrer por já imaginar (nunca se tem certeza) o final. Assim como não deixo de aproveitar a vida, com esses golpes incertos que nos dá, por medo dos finais: de namoros, casamentos, filmes, encontros e por que não dela própria? A gente já sabe que a vida acaba, só teima em não encarar. O reflexo disso aparece no ódio aos spoilers, pois não queremos saber do fim. __________________________________________________________________________________________

O espaço Cine Café ainda acontece em Juazeiro do Norte (Interior do Ceará) no Centro Cultural Banco do Nordeste (CNBNB) aos sábados e é gratuito. Ministrado por Elvis Pinheiro desde 04 de setembro de 2010. Elvis também está no SESC Juazeiro e SESC Crato com projetos de exibição. O cineasta a que me refiro no texto é Ythallo Rodrigues, que já lançou obras como Onde vivem os monstros? (2015) e Bem-vindo a Juazeiro do Norte (2015) e reside em Juazeiro do Norte, Ceará.


João Paulo Jucá

"Perca a cabeça e recobre os sentidos" - Fritz Perls.
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