girafa de gavetas

artigos e textos diversos sobre artes

Mara Paulina Arruda

Mádiosanto como esse homem trabalhou!!

O cisne Negro da poesia brasileira

Texto sobre o poeta João da Cruz e Souza, o Cisne Negro da poesia brasileira e do movimento literário Simbolismo.


Um dos movimentos literários mais importantes da história da literatura é, sem dúvidas, o Simbolismo nascido no século XIX. Na Europa o Simbolismo se expressou através da poesia de Arthur Rimbaud, Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Stefhane Mallarmé. No Brasil, Alphonsus de Guimaraens e João da Cruz e Souza são os poetas fundadores deste movimento. Na obra deixada, as características. O clima de mistério, as relações entre o abstrato e o concreto, a intuição como faculdade capaz de permitir a sintonia com o lado obscuro das coisas, concepção mística do mundo, devoção religiosa, arte pela arte, oscilação entre erotismo e religiosidade entre outros aspectos demonstram o estilo ou poderíamos dizer as normas estéticas do Simbolismo que via função associativa funde literatura, música e pintura. João da Cruz e Souza nasceu no Desterro, Florianópolis, Santa Catarina, em 1861. Morreu em Minas Gerais, em 1898. Filho de escravos alforriados teve oportunidade de freqüentar escolas, aprender francês, latim e grego.

“Violões que choram... Ah! Plangentes violões dormentes, mornos, Soluços ao luar, choros ao vento... Tristes perfis, os mais vagos contornos, Bocas murmurejantes de lamento.

Noites de além, remotas, que eu recordo, Noites de solidão, noites remotas Que nos azuis da Fantasia bordo, Vou constelando de visões ignotas. (...) Vozes veladas, veludosas vozes, Volúpia dos violões, vozes veladas, Vagam nos velhos vórtices velozes Dos ventos, vivas,vãs, vulcanizadas...”

Aos vinte e três anos João da Cruz e Souza lançou o primeiro livro Tropos e Fantasias em parceria com o amigo, escritor catarinense Virgílio Várzea. Publicou crônica em jornais, seguiu uma companhia de teatro pelo Brasil, trabalhou na Central de Imigração e, em 1888 viajou para o Rio de Janeiro. Publicou os livros Missal e Broqueis, Faróis e Últimos Sonetos. Apreciava a elegância, o bom traje, o sapato brilhante; ansiava por reconhecimento e ascensão social. No Rio de Janeiro tornou-se amigo do jornalista e abolicionista José do Patrocínio. Casou-se com Gavita Rosa Gonçalves com quem teve quatro filhos. Viu sua família morrer com tuberculose, a doença do século. João da Cruz e Souza foi um poeta na acepção da palavra. Dizem suas biografias que ele era capaz de virar a noite criando, burilando os sonetos que compunha. “Em apenas uma noite, Cruz e Souza escreveu vários sonetos em mangas de camisa e descalço, em plena liberdade, vibrando de alegria” . A dedicação extremada do poeta condiz com o movimento do qual participou e é referência. O Cisne Negro brasileiro cultivou o eu lírico, criou sonetos com uma linguagem rebuscada e com requinte de um príncipe. Foi menosprezado e discriminado pela cor e por sua originalidade literária. Tinha consciência da dor que era ser negro numa época abolicionista,numa sociedade extremamente racista. Suas crônicas e poesia mostram a luta de que participou tanto internamente quanto externamente.Em suas crônicas retrata a vida dos escravos, retumba um mundo africano, num tempo de luta e reconhecimento do negro como ser social.“As lavadeiras, atravessando o caminho, em curvas, cantarolando, com as brancuras honestas de roupas à cabeça passavam pelas ruas.” Dizia: “O vocábulo pode ser música ou pode ser trovão,conforme o caso. A palavra tem sua autonomia e é preciso uma rara percepção estética, uma nitidez visual, olfativa,palatal e acústica, apuradíssima, para a exatidão da cor, da forma e para a sensação do som e do sabor da palavra.” João da Cruz e Souza é reconhecidamente um dos grandes poetas brasileiro. E este mérito está inscrito na poesia e prosa barroca que deixou.


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