girafa de gavetas

artigos e textos diversos sobre artes

Mara Paulina Arruda

Mádiosanto como esse homem trabalhou!!

As crianças não têm culpa

Análise do pensamento de Walter Benjamin sobre a criança e os brinquedos que ela inventa para enfrentar a realidade.


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O menino sírio Aylan Kurdi encontrado morto na praia de Bodrum, na Turquia, nos faz lembrar de Walter Benjamin. No livro Reflexões: a criança, o brinquedo, a educação (tradução de Marcus Vinícius Mazzari, editado em 1984 pela Cultrix) ele reflete sobre as crianças e o mundo criado por elas. As idéias desenvolvidas, basicamente nos anos de 1913 a 1932, mostram as posições da pedagogia alemã desta época, numa época de efervescência marxista na Europa e de transição política.

Tanto o tempo em que Walter Benjamin se debruçou sobre o assunto quanto o tempo em que estamos vivendo refletem as ruínas humanas. Em pequenos artigos redigidos sob a direta concepção materialista-dialética da História a produção cultural de Walter Benjamin observa que a criança é o pai do homem.A consciência de que a roda do destino começa a girar muito cedo fixando as chaves-mestras de nossa existência- hábitos, valores, desejos, afetos, inclinações eróticas, tendências espirituais, etc. E, neste sentido, a burguesia educa, reforça e acalenta em sua prole o herdeiro, o futuro cidadão útil, confiável e consciente de sua casta.

Em sua produção há a teoria de que os brinquedos documentam como o adulto se coloca com relação ao mundo da criança. E, que a criança escolhe os que lhe provocam fantasia e, não raramente, entre os objetos que os adultos jogaram fora. As crianças “fazem a história a partir do lixo da história” dizendo que a aproximação dos “inúteis”, dos “inadaptados” e dos marginalizados objetos a criança também se aproxima da vida. Ou seja que “ao invés da representação e do eventual sentimentalismo metafórico, o brinquedo fala para a criança a linguagem simples de pura materialidade, do prazer dos sentidos e mais próximo da criança: o artista, o colecionador, o mago.” Para isso Walter Benjamin coloca que o brincar está na origem do seu gestual cotidiano. “Os nossos hábitos são formas petrificadas da nossa primeira felicidade e do nosso primeiro terror.”

Qual terá sido o brinquedo que Aylan Kurdi teria brincado nas horas finais de sua breve existência? Talvez a bóia que um jornalista encontrou próximo do lugar de sua morte. Talvez as ondas daquele mar bravo que não deu opção dele experimentar, pelo menos, uma tentativa de vida. Não sabemos, nunca iremos saber.

Rodeadas por um mundo de gigantes, as crianças criam para si, brincando, o pequeno mundo próprio. O adulto, por outro lado, se vê acossado por uma realidade ameaçadora, sem perspectivas de solução liberta-se dos horrores do mundo através das tentativas, da utopia e da esperança de um mundo melhor porque outra solução não há.

A banalização de uma existência insuportável contribuiu consideravelmente para o crescente interesse que jogos e brinquedos infantis passaram a despertar após o final da guerra. Diz Benjamin que a imaginação é própria do jogo e não do brinquedo que, neste jogo simbólico, acontece um mundo dialógico com o mundo. Que o brinquedo é condicionado pela cultura econômica e sobretudo técnica das coletividades. Assim sendo “O adulto, ao narrar uma experiência, alivia o seu coração dos horrores, goza novamente uma felicidade. A criança volta a criar para si o fato vivido, começa mais uma vez do início. A essência do brincar não é um “fazer como se”, mas um “fazer sempre de novo”, transformação da experiência mais comovente em hábito.”

De acordo com outro pensador, Philippe Ariés, a criança pobre continua a não conhecer o verdadeiro significado da infância, ficando assim a mercê da própria sorte. E isso foi o que aconteceu com Aylan Kurdi e com tantas outras crianças nesse fluxo imigratório do mundo contemporâneo.


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