Glauco Cavalheiro

Tímido no fim do tratamento que comemora cada "oi" desnecessário. Planejador e pesquisador sempre que possível. Aspirante a professor

Chef’s Table e a padaria de bairro dos meus pais

Como uma série da Netflix me ajudou a enxergar uma das coisas mais lindas da minha vida.


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Sou filho de padeiro. Cresci vendo meu pai sovando, cortando, enrolando e assando massas. No colégio, eu ia pra aula sujo de farinha depois de tomar café sentado à mesa de produção. O pão tinha recém saído do forno. Aos sábados, minha mãe acrescentava mais uma camada de mimo na minha vida de filho único ao me levar uma torta de bolacha recém feita. Nas quartas, dia de massa folhada, eu ficava esperando a sobra para fazer um pastel cada vez mais gigante, com quase tudo que tinha de recheio nas prateleiras.

Deve existir mesmo um deus, porque eu nunca engordei. Ter uma padaria em casa acaba virando uma banalidade com o passar do tempo. O que para meus amigos era um mundo mágico, pra mim era só mais um cômodo engraçado da casa.

A questão é que minha revolta de adolescente nunca me deixou ser fisgado pela mágica que acontecia no forno do meu pai e no balcão da minha mãe. Naquela época, um bolo era só um produto, pasteis significavam lucro alto e pão francês era garantia de venda conjugada. Não sei se você sabe, mas ninguém compra só pão francês.

A necessidade de sustentar uma casa e a exaustão decorrente disso acabou por nos fazer esquecer do que realmente estava envolvido no processo de preparar alimento. Mais tarde, eu pude entender que aquilo que saía das mãos do meu pai não era só coisas vazias, alimentos pra encher a barriga, matar a fome ou produtos para vender na padaria.

Na verdade, o que sai das mãos de quem cozinha é uma coisa só: um pouco de si mesmo.

Isso nunca tinha me tocado de verdade até eu assistir Chef's Table, série original da Netflix. Quando vi o primeiro episódio, eu chorei. Não sabia por quê, fiquei com vergonha e até achei engraçado. No segundo episódio, de novo: meus olhos se encheram d’água e fiquei com a garganta engasgada. E foi assim, episódio após episódio. Terminei a primeira temporada em dois dias e chorei como uma velha.

A questão é que a história de cada chef me trazia um pedacinho do que eu não tinha entendido lá na minha adolescência e nem mesmo agora. Daquilo que é o motivo por eu amar cozinhar, mesmo sem nunca ter me dado conta: cozinha é alquimia e o resultado quase sempre é cuidado e carinho.

Em cada chef, eu me enxergava e enxergava meu pai. É claro que nós não temos técnicas sofisticadas, nem qualquer estrela Michelin, mas da nossa panela sai um molho de tomate que, quando vai para a mesa com o macarrão caseiro que a gente mesmo prepara, todo mundo se ama um pouco mais.

Foi aí que eu entendi por que eu amo cozinhar. Foi aí o que eu entendi que meu pai me ensinou sem dizer uma palavra, e, provavelmente, sem nem se dar conta:

Quando a gente cozinha, a gente fabrica um novo sentido de realidade. Damos ao mundo uma panela com ingredientes, emoções e fogo. E ele nos devolve um novo mundo de sensações, experiência e afetos.

A padaria fechou, mas os utensílios mágicos ficaram. Toda vez que visito meus pais, o velho faz o melhor macarrão caseiro que meu mundo pode conhecer, usando um rolo de massa que é a única herança que eu estimo. Minha mãe, que não tem vocação para as panelas, me ama do jeito que melhor sabe: com vinho e carinho. Harmoniza perfeitamente. É tanto privilégio que chega a dar culpa. Infelizmente, poucos têm esse privilégio. Por isso, nossa mesa sempre tem lugar pra mais um.

Por fim, aprender a amar as coisas como elas são, aqui e agora, é tarefa difícil. Chef’s Table foi, para mim, um convite para encontrar magia na vida que está posta à mesa. A alquimia da cozinha que pode dar um novo tom à realidade do dia-a-dia começando de maneira bem simples: água, sal, pimenta a gosto e muito carinho.

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Glauco Cavalheiro

Tímido no fim do tratamento que comemora cada "oi" desnecessário. Planejador e pesquisador sempre que possível. Aspirante a professor.
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