Glauco Cavalheiro

Tímido no fim do tratamento que comemora cada "oi" desnecessário. Planejador e pesquisador sempre que possível. Aspirante a professor

O maniqueísmo dos nossos dias

Quem é mocinho e quem é bandido nas discussões em tempos de internet?


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Faz muito tempo que me incomoda o maniqueísmo político que a gente tem vivido. Todo dia, vejo textões querendo — apaixonadamente — mostrar o que é certo ou errado, como se os conceitos e valores fossem claros como a água, engrossando o caldo da batalha de petralhas x coxinhas. Acredito que você sabe muito bem do que eu estou falando.

Isso me lembra o ano em que eu resolvi ler a Bíblia de cabo a rabo.

Nasci em lar cristão e fui logo estudar em colégio religioso. No ensino médio, incentivado pelos bem-intencionados professores e apoiado pela família, topei ler a Bíblia inteira em um ano. A ideia era reforçar minha fé e aprender um pouco mais sobre aquilo em que eu acreditava. Ganhei deles uma tabela para leituras diárias e um conselho: ler sempre de coração aberto, pedindo a orientação de Deus, já que foi ele que inspirou a coisa toda.

Mas o resultado não foi bem o esperado.

A leitura foi sempre muito interessante e eu estava muito entusiasmado com o caminho que estava seguindo. No entanto, mesmo sendo fiel, surgiu na minha cabeça um questionamento: será que eu estaria tendo aquela mesma experiência religiosa se tivesse nascido em um país no mundo que não fosse cristão? Quais as chances de simplesmente ter nascido em um lar que segue a "religião certa?" Afinal, o povo que cresceu em lares com outras crenças, como hindus ou muçulmanos, devia ter tanta certeza sobre sua fé quanto eu tinha sobre a minha. Se sentássemos juntos a uma mesa, ficaríamos decepcionados com a ignorância do colega ao lado, que adora o deus errado.

Naqueles dias, pensei que poderia ser o próprio Satanás me chacoalhando as ideias. Mas acho que não. Até onde eu sei, ele é o pai da mentira, não da empatia.

Sabe, a partir daquele momento, a fé já não era um lugar estático, verdadeiro e imutável. E não foi só a minha ideia de religião que mudou com esse questionamento. Meus conceitos de certeza e verdade ficaram em cacos que até hoje eu junto um pouco cada dia. Isso mudou o meu jeito de ver a vida para sempre. Comecei a perceber que o mundo não é simples ou simplificável e a única certeza que eu tive — e ainda tenho — é que maniqueísmos não são suficientes para dar conta da complexa dinâmica da vida . Ainda que nossa mente adore deixar tudo em caixinhas bem organizadas, os vários fatores sociais, econômicos e comportamentais estão interligados num complicado e caótico ballet.

É claro que religião — enquanto crença — não se discute. Para os que creem, não se pode reduzi-la a uma causalidade de nascer aqui ou lá e acho que isso deve ser sempre respeitado, mas a questão é: ninguém tem reais condições de clamar para si uma verdade incontestável.

Quando não temos empatia para enxergar que do outro lado também existe valor, estamos abertos para ser massa de manobra em prol dos desejos particulares de agências influenciadoras, que se valem dos seus agrupamentos e da mídia para organizar nosso discurso de uma forma simples e passional: nos mostra um vilão e nos ensina a temê-lo e atacá-lo. Empresários são pintados como seres malignos e desumanos, socialistas/comunistas são vistos vagabundos sangues-suga. Quanto mais simples e similar a um vilão de quadrinhos, melhor, porque assim é mais fácil odiar o lado oposto. Não quer dizer que essas figuras não existam, mas não é justo que sejam o retrato de um grupo inteiro. Afinal, será que o mundo é mesmo como a novela das oito, onde os mocinhos e bandidos estão bem definidos?

Assim, é por acreditar que os limites não são tão claros que não vejo com reduzir a questão da religião ou da política a quem está certo ou errado. Embora dentro de uma religião haja pouco ou nenhum espaço para ampliar aquilo que se acredita — afinal, trata-se de um estilo de vida codificado em um dogma — na política, temos a oportunidade de entender o que há de benéfico e construtivo em cada lado sem correr o risco de irmos para o inferno. Afinal, todos queremos viver num mundo melhor, sendo o mais felizes possível na maior parte do tempo. A função do debate político não pode ser outra, senão encontrar melhores caminhos para nossa sociedade e simplificar a questão por uma mera passionalidade pode ser muito prejudicial.

Então, quando estivermos tretando com o coleguinha do time o posto, vamos abrir o coração e os ouvidos para tentar , realmente, entender o que ele está falando, em vez de querer ser o mocinho que vence o bandido. Vamos lembrar que a nossa verdade, provavelmente, não é absoluta e que valor em discutir está na construção mútua, não na ilusão da vitória. Deixar de lado essa a crença inocente de que tudo se resume ao bem contra o mal é como jogar luz numa caverna escura e descobrir que, além do caminho reto que seguimos às cegas, há muitos outros adjacentes, ricos em possibilidades. Não é fácil, mas sempre vale a pena, afinal, melhor que ser dono da verdade, é ser inquilino dela.


Glauco Cavalheiro

Tímido no fim do tratamento que comemora cada "oi" desnecessário. Planejador e pesquisador sempre que possível. Aspirante a professor.
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