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Uma visão mais detalhista do mundo.

Bárbara Cavalcante

Bárbara Cavalcante é carioca e tem 22 anos. Adora escrever, fotografar e conversar. Cursa direito, tem um blog e um canal no Youtube.

Marina e Mariana

A morte realmente existe? Marina e Mariana eram irmãs, e sempre que algo dava errado para Marina, Mariana dizia que resolveria logo mais. Mal sabia Marina que o logo mais era algo além do que ela poderia um dia imaginar.


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Marina e Mariana eram irmãs muito amigas. Viviam juntinhas uma da outra até na hora de ir ao piniquinho, quando Marina contava para Mariana sobre como era chato não poder mais fazer as coisas " gosmentas " na fraldinha mesmo, sem precisar sair do lugar. " Era tão quentinho! ", dizia.

Em seu aniversário de 5 anos Marina assoprou sua velinha junto de Mariana. Também se lambuzaram de bolo e guardaram brigadeiro dentro do short. Depois brincaram de colar seus dedinhos usando a cobertura do bolo como cola, foi muito divertido e colorido, pois o bolo era rosa.

Mariana sempre dava bons conselhos para Marina, afinal era sua irmã mais velha. Quando Marina queria subir no parapeito da janela Mariana a repreendia dizendo que não era uma boa ideia. Também quando perturbavam Marina na escola ela pedia o auxílio de Mariana, que dizia que resolveria a situação logo mais.

Sempre companheiras, as meninas passeavam de mãozinhas dadas pelo parque ao lado dos pais. Papai do lado esquerdo, mamãe do direito e as meninas no meio. Marina sempre recebia toda a atenção da mãe, mas Mariana não se importava. Todos os dias eram ensolarados quando as meninas estavam juntas.

O tempo passou e Marina completaria 12 anos na segunda semana de Maio. No dia da festa o salão nobre do clube estava cheio de flores e um grande bolo branco e rosa se destacava no meio da pista de dança. Marina foi chamar Mariana:

- Vamos lambuzar nossos dedos na cobertura?

- Agora não. Nosso pai está me chamando e preciso ir, mas nos veremos logo mais.

- Hoje ainda?

- Não, logo mais.

- E o que digo para a mamãe?

- Que tudo bem, que estou bem. Diga que estou com o papai.

- Tudo bem.

A festa ficou meio vazia sem a presença de Mariana, mas Marina sabia que não tinha noção do quanto é " logo mais ", então era melhor apenas esperar e ter paciência, como a irmã a tinha ensinado.

Na manhã seguinte a mãe foi ao seu quarto saber por que estava tão calada:

- O que houve filha, não gostou da festa?

- Mariana disse que ia embora, falou que nos veríamos " logo mais ".

- Que Mariana?

- Ora mamãe, minha irmã.

A mãe virara um voal de coar café, branca quase transparente. Mas só ouvia.

- Mariana disse para eu te dizer que ela está bem e que está tudo bem. Que ela foi ficar com papai.

A mãe calada.

- Onde estão, mãe?

A mãe olhou o vazio. O vazio do mundo e o vazio de si mesma. O fim e o começo de tudo, as decisões erradas ou certas, quem saberia dizer, quem poderia julgar?

- Mãe.

A mãe a olhou com medo, o que mais poderia acontecer?

- O que você fez?

[...]

Três dias depois estavam no psiquiatra, Marina ficou na sala de espera.

- Não sei de onde ela tirou isso, faz muito tempo, tempo demais, ela não era nem nascida!

- Mas como aconteceu, será que ela não viu por fotos?

- Não posso ter fotos de uma criança que nem nasceu Doutor. Não tive escolha, não tinha como cria-la.

- E o pai?

- Ela não o conheceu, nunca perguntou dele antes, vivia conversando com as bonecas e se melecando com comida. Achei que estava preocupada com outras coisas. Nunca se machucou na escola, nunca aprontou em casa, sempre foi uma menina exemplar.

- Ela falava com bonecas?

- Sim.

- Olhando para as bonecas?

[...]

- Ela olhava para as bonecas?

[...]

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- Qual era a cor do cabelo da Mariana filha?

- Ruivo, como o seu. Ela era parecida com você. Bem mais que eu.

[...]

- Muito mais que eu.


Bárbara Cavalcante

Bárbara Cavalcante é carioca e tem 22 anos. Adora escrever, fotografar e conversar. Cursa direito, tem um blog e um canal no Youtube..
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