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Viver: revolver mistérios etéreos

Guilherme Stabile

Onde desejas poesia, sou prosa fria; e onde queres novidade, tradição.

O Sonho de um Homem Ridículo

Em uma jornada pela natureza humana, O Sonho de um Homem Ridículo, de Dostoiévski, nos revela, de forma quase escatológica, que a essência humana é facilmente contaminável pelo pecado e que todas as ideias que eximem a nós mesmos de responsabilidade pela aparente podridão e frieza do mundo são hipócritas e condenáveis, sendo a autocompaixão vitimista a forma mais covarde de viver, pois tem a pretensão de renunciar à irrenunciável verdade: o mundo continua a ser um Éden, mas todos, sem exceção, contribuímos para sua degradação cotidianamente, ocupando modernamente o lugar da serpente.


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Escrito em 1877 pelo russo Fiódor Dostoiévski, o conto consubstancia na sua narrativa o embate entre a filosofia niilista, representada pelo protagonista, o chamado homem ridículo, e uma filosofia de ‘’vida pela vida’’, que sequer indaga acerca de questões metafísicas ou existenciais, e encara os acontecimentos como naturais e incontroláveis, e por isso mesmo, não passíveis de preocupação.

A narrativa fantástica começa em uma noite especialmente fria, com a apresentação do personagem central da trama, que a princípio é inatingível e permanece alheio a quaisquer fatos, sendo a tudo indiferente e consolidando uma lógica de preterição das certezas e do sentido da vida, típica do niilismo existencial. Esse homem, que percebe a si mesmo de forma apartada do restante da sociedade, decide, como meio de afirmar sua própria visão negativa do mundo, cometer suicídio. A idealização suicida, além de mecanismo de fuga e de escape da realidade, representa, no contexto da obra, a própria concepção inicial do homem ridículo de que ele seria vítima de algo muito maior que ele mesmo, e que as possibilidades de intervenção social redundariam certamente em fracasso. Há a contraposição, na mente do personagem, entre a sociedade, na sua concepção intrinsecamente opressora, e o indivíduo, parte mais fraca da relação, que seria unicamente moldado pelo grupo em que está inserido, incapaz de reagir, resultando em um sentimento de impotência arrebatador.

Decidido a se matar, após constatar sua insignificância observando a vastidão do céu noturno, e já a caminho de casa para dar-se um tiro na têmpora, depara-se com uma menina chorando, que diz a ele que precisa urgentemente de ajuda, pois sua mãe está com graves problemas de saúde. O protagonista é tomado então por uma profunda pena e fica irritado por sentir compaixão, pois demonstrava que ainda tinha esperança na humanidade, sentimento perigoso para um suicida. Destrata então a garota com extrema rispidez, e ruma em direção ao seu apartamento. Já sentado em sua poltrona, o homem estica seus braços em direção à gaveta onde guardava seu revólver e o coloca em cima da mesa. Entretanto, a lembrança da criança com quem tinha cruzado retira sua coragem para concretizar o ato. Já cansado do peso de uma existência sem finalidade, e ao mesmo tempo sem coragem para puxar o gatilho, o homem cai no sono e tem início um dos sonhos mais fantásticos da história da literatura.

Em sonho, nosso homem ridículo atira em seu próprio coração, e é levado, por uma entidade misteriosa, a outra Terra, uma versão do nosso mundo não corrompida pelo pecado original, e, portanto, livre de todas as formas de mal que assolam o nosso planeta. Chegando nesse paraíso onírico, constata que é um lugar de felicidade plena e amor irrestrito, entretanto totalmente ignorante em relação à ciência ou a elucubrações mais sofisticadas da filosofia. Nesta espécie de Éden, a vida é vivida sem a necessidade de um objetivo, toda linha de pensamento teleológico é substituída pelo aproveitamento do presente.

No decorrer da estadia nesta terra encantadora, sendo que no tempo psicológico relativo do narrador passam-se milênios, descobrimos que o pecado se alastrou como uma infecção pelo paraíso:

‘’Como uma triquina nojenta, como um átomo de peste que infesta um Estado inteiro, assim eu infestei com a minha presença esta terra que antes de mim era feliz e não conhecia o pecado. Quando se tornaram maus, começaram a falar em fraternidade e humanidade e entenderam essa ideia. Quando se tornaram criminosos, conceberam a justiça e prescreveram a si mesmos códigos inteiros para mantê-la, e para garantir os códigos instalaram a guilhotina.’’

Sem esperança político-social, o homem ridículo parece voltar à realidade, mas não deixa de estar inserido em seu sonho de perfeição do espírito humano. Talvez esse desejo de que tudo fique bem o faça um homem ridículo. Parece que querer que as coisas fiquem bem é pedir demais, é sinônimo de uma visão água com açúcar da História.

Ao adquirir a ciência de sua natureza pecaminosa, o protagonista percebe a si mesmo como serpente, mas ao mesmo tempo nota que a capacidade de empatia continua em todos os indivíduos e em si mesmo, e deixa de lado sua visão pessimista e hipócrita da sociedade, pois se tudo está do jeito que está, parte da culpa inevitavelmente recairá sobre seus ombros. O personagem faz então a decisão mais importante e consciente de sua vida, como que em uma tentativa de imitar a essência daqueles indivíduos de seu sonho: decide apenas viver e agir como um vetor de propagação de uma lógica de alteridade e empatia, prescindindo de qualquer reflexão inútil e vitimista.

‘’A consciência da vida é superior à vida, o conhecimento das leis da felicidade – é superior à felicidade. É contra isso que é preciso lutar! E é o que vou fazer. Basta que todos queiram, e tudo se acerta agora mesmo. E, quanto àquela menininha, eu a encontrei... E vou prosseguir! E vou prosseguir! ‘’


Guilherme Stabile

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