gravitando

Viver: revolver mistérios etéreos

Guilherme Stabile

Onde desejas poesia, sou prosa fria; e onde queres novidade, tradição.

Por um triunfo da arte como agente de reflexão pelo ineditismo

Arte é a faceta do espírito humano que pode ser materializada em algo que instigue o indivíduo a refletir e a se autoaprimorar.


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Vivemos em uma era falsificada. A originalidade deu lugar ao conformismo e a repetição, somos servos de um tempo nos conformes do comodismo e da aceitação irrefletida que gera um ciclo de perpetuação da frieza sentimental, do reinado da cor cinza. A arte aparece como resistência a este entorpecimento social. A definição do que seria arte não é pacífica, pois é construção cultural variável. Alguns preconizam que seja manifestação de alguma habilidade especial, ou que seja a apresentação de algum padrão, ordem ou harmonia. Entretanto, não devemos tratar o fazer artístico como objeto da manifestação humana, mas sim entender a arte como extensão indissociável da própria alma humana. Não um objeto, mas um conceito, inerente à humanidade.

Por este entendimento da arte como indestacável de nossa essência, é possível compreender a aparente apatia do público ordinário ao se deparar com algo considerado obra de arte. Muitas vezes ouvimos cochichos na multidão: ‘’Isto é arte? Até eu faria isso!’’. Tal frase revela muito mais do que um não entendimento do sentido da obra, revela um próprio vazio interno, uma anestesia sentimental característica da pós-modernidade. Dessa forma, uma possível conceituação de arte, da qual sou defensor, é considerar manifestação artística tudo o que produz no indivíduo (e não em um grupo), um sentimento inédito, jamais experimentado antes, suscitando a reflexão da pessoa consigo mesma. Esta definição então considera que o que é arte para um, pode não ser arte pra outro, pois jamais compartilharemos a mesma visão, nem as mesmas influências, e muito menos a mesma trajetória de vida. Essa lógica de alteridade empregada nesta definição é o que a torna atraente, transformando a arte em uma forma suprema de quebra de paradigma pessoal, e não em um conceito estático e imutável.

Thumbnail image for black-in-deep-red.jpg Black in Deep Red, Mark Rothko, 1957.

Em tempos em que estamos confortavelmente anestesiados, e cercados por invenções tecnológicas que ferem as relações humanas, a arte é remédio social essencial, pois se baseia em uma transgressão dos dogmas instituídos pelos próprios indivíduos, possibilitando a visão do quadro geral, ou mesmo incitando a destruição do quadro e um novo recomeço. Porém, para que a arte atue como agente de reflexão individual, ela deve ser contrária ao banal, avessa ao óbvio, mas nos deparamos na atualidade com uma banalização crescente da arte, tida como inútil por inúmeras pessoas. A arte, a literatura e o cinema se trivializaram de tal maneira que criam nos espectadores a ilusão de serem cultos, a ilusão do conhecimento e de estarem na fronteira do saber com o mínimo esforço intelectual. Sobre isso, Mark Rothko, pioneiro do expressionismo abstrato estadunidense, afirma que não queria se tornar um pintor ‘’bonito’’. Seu próprio período, a década de 50, foi marcado por medo e ódio, das guerras e dos conflitos civis internos de seu país. Analisando sua progressão na vida artística, e de muitos outros, podemos ver que a produção artística floresce em períodos de conturbação, e murcha em épocas em que reina o conformismo, evidenciando o caráter de transgressão da arte, até em sua própria forma, como vemos nas escolas vanguardistas.

O artista transgressor busca desafiar a essência burocrática da sociedade e o não reconhecimento dos indivíduos na mesma, a arte transgressora questiona o status quo vigente e é comprovadamente parte essencial da possibilidade de convívio humano. Sem uma dose de arte, arraigada ao espírito humano, não haveria inovação criativa e a estagnação estaria instaurada. O ineditismo artístico, pré-requisito para que uma obra seja considerada arte pura, tem de haver com a modernidade. Ser moderno é estar em movimento, é conhecer cada vez mais e ter cada vez mais a conhecer. Porém, deparando-se todos os dias com novidades em nossas vidas, sejam elas tecnológicas ou pessoais, como o encontro com uma pessoa que não vemos faz muito tempo, é gerada uma incerteza em nosso âmago sobre qual seria o sentido de nossa trajetória de vida, pois como tudo muda tão rápido, não temos - ou pensamos não ter - tempo de nos apegar a valores próprios. A arte pode intervir, nesse aspecto, como o meio pelo qual nós mudaremos nossa visão sobre o mundo, olharemos a vida por outro ângulo e, dessa forma, compensaremos a liquidez de nossos tempos.

a-triste-historia-de-guernica-a-obra-prima-de-pablo-picasso.html.jpg Guernica, Pablo Picasso, 1937.

Pablo Picasso, sobre a conhecidíssima obra intitulada Guernica, diz: ‘’Não, não se pinta para decorar apartamentos. Ela é arma de ataque e defesa contra o inimigo. ’’ O inimigo de Picasso era todos aqueles que afrontavam o estado democrático no auge da Guerra Civil Espanhola, porém, segundo a conceituação apresentada, podemos dizer que o inimigo somos nós, o inimigo é a parte da nossa identidade que se recusa a mudar, que se atém a dogmas e a preconceitos. Minha luta é com o meu eu retrógrado, e minha aliada é a arte.


Guilherme Stabile

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