gravitando

Viver: revolver mistérios etéreos

Guilherme Stabile

Onde desejas poesia, sou prosa fria; e onde queres novidade, tradição.

quanto tempo? - um discurso sobre a finitude

Reconhecer a finitude da vida é atributo inerente à humanidade. Decidir o que fazer com o tempo que temos é a maior questão da existência.


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Machado já dizia: ‘’Matamos o tempo; o tempo nos enterra’’. Dessa epígrafe impactante (para aqueles sensíveis à vida), parte a mais válida pergunta que podemos nos fazer ao acordar: ‘’Quanto tempo?’’. Tal questão nos ronda, se preferes, leitor, assombra. Não são necessárias tendências filosóficas para que em alguma etapa da vida nos perguntemos quanto tempo temos até... Até o quê? Quanto tempo até nos vermos de novo? Quanto tempo até nos vermos e nos ignorarmos? Quanto tempo até nos encontrarmos e sequer nos reconhecermos? Perguntas como essas refletem a mais fundamental essência humana, a capacidade de reconhecer a passagem do tempo. Nós, seres humanos, compartilhamos da habilidade única, e por vezes assustadora, de percebemos nossa própria finitude, intrínseca ao Ser.

Eu, escritor; você, leitor, compartilhamos, apesar de todas as diferenças que desconheço, mas sei que por certo temos, uma única ideia inerente a nossa alma: a ciência da morte. Repudio qualquer uso de eufemismos nesse caso, tratar a morte como algo a ser evitado é nocivo a nossa natureza, pois exclui a reflexão maior utilizada para definirmos o que é vida: ‘’O que eu estou fazendo com o meu tempo?’’. A resposta para essa pergunta demonstra o que consideramos importante e qual é a função da nossa existência, dessa forma explicando o sentido de nossas vidas. Há de se reiterar, leitor, que o ‘’sentido da vida’’ não é algo que se acha embaixo de uma pedra, enquanto fazemos uma caminhada relaxante. É, na verdade, algo construído. Todas as pessoas que conhecemos, situações por qual passamos, amigos e amores que conquistamos (e que deixamos ir), são ou foram os tijolos que compõe o muro de nossa existência, e por isso, e me refiro a mim e a você, caro leitor, sejamos gratos.

Mas, afinal, quanto tempo temos para construir nossas vidas? A conclusão a que cheguei é de que nós não temos tempo. Explico, e cabe ao leitor decidir pelo seu convencimento. O ser humano é dotado, dentre todas as características, de insatisfação. Não importa o quão bem estamos, sempre desejamos mais. O homem prefere querer o nada à nada querer. A ambição é ilimitada, mas as areias do tempo escorrem a cada segundo. Nesse caso, nem todo o tempo do universo bastaria para que chegássemos onde queremos chegar. A humanidade tende ao egocentrismo, alguns diriam à megalomania.

Sobre a modernidade, Marx afirmou: ‘’Tudo que é sólido desmancha no ar. ’’ Este mundo em que pisamos é produto da poeira do que já antes fora mundo. As ideologias que antes eram toleradas e tidas como justas, agora horrorizam. Constatando as marcas de nossa era, a incerteza e a fugacidade, esta ideia ecoou até a atualidade, virando o século com força total e vindo de encontro a minha pergunta inicial, completando-a com a faceta da efemeridade, além de definirmos o que fazer com nosso tempo, devemos fazer isso sabendo que nossos feitos se desmancharão no ar. Termino, então, com uma indagação a qual não tenho resposta, e ao leitor incubo de responder: De quanto em quanto tempo devemos sacudir a poeira do tempo?


Guilherme Stabile

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