gravitando

Viver: revolver mistérios etéreos

Guilherme Stabile

Onde desejas poesia, sou prosa fria; e onde queres novidade, tradição.

Poetas de Garagem

Em tempos de mercantilização da cultura, os poucos artistas que não se curvam à civilização do espetáculo merecem o título de heróis.


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Que prova maior de que a arte está em processo de decadência do que o exemplo da música? De poesia ritmada, a música tornou-se produto industrial; de som que exterioriza nossa alma, tornou-se vazia de significado. Cada vez mais as letras que consubstanciam a essência humana tornam-se melodias reproduzidas artificialmente por complexos, porém inumanos, softwares de computador, desumanizando a música em detrimento de uma precisão mecânica. É como se a humanidade estivesse tentando criar uma alma sintética. Mas ainda há esperança. Em todo canto, pessoas que tem dentro de si o real espírito musical escrevem melodias formidáveis, mas até o gênio precisa da ocasião certa para se revelar.

Numa sociedade em que a vida deixou de ser vivida para ser representada, em um meio que valoriza mais as aparências do que as idiossincrasias pessoais que definem o indivíduo, a cultura tornou-se propaganda fútil de uma vida vivida para os outros. A figura do artista, escravo do que a mídia considera vendível, assemelha-se mais a um palhaço do que a alguém que se dedica a produzir um conteúdo enobrecedor. Os meios de divulgação cultural, especialmente no âmbito da música, assume que o povo tem preguiça de pensar, e de tanto ser subestimados, a alienação torna-se real.

Ademais, presta um desserviço imenso aqueles relativistas exaltados que dão à cultura um significado tão amplo, que, abrangendo tudo, de alguma maneira também é esvaziada em seu conteúdo, transformando-se em uma mera casca do que poderia ser se o senso crítico imperasse.

São os artistas idealistas e independentes, que não buscam a fama e não a tem, apesar de a merecerem, que servem como um último fio de esperança cultural para o mundo. São os poetas de garagem, que são dignos de serem exaltados como heróis, os remanescentes de um tempo em que se buscava tocar a alma das pessoas, e não seus bolsos, através da arte. Então, nada mais justo do que reconhecer alguns deles, que estão em toda parte, mas não recebem o devido valor, pois seus produtos são bons demais para o lamaçal midiático da ‘’cultura’’ contemporânea.


Guilherme Stabile

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