gravitando

Viver: revolver mistérios etéreos

Guilherme Stabile

Onde desejas poesia, sou prosa fria; e onde queres novidade, tradição.

Queermuseu e o levante do radicalismo conservador: o cadafalso do estado democrático

A intolerância dos fundamentalistas morais volta a estarrecer o mundo da arte.


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Recapitular os fatos é desnecessário. O Santander Cultural fechou sua mostra Queermuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira em decorrência de intensa pressão promovida pelos setores conservadores radicais da sociedade e capitaneada pelo Movimento Brasil Livre. O debate – se é que podemos chamar a discussão, ainda rasa, de debate -, suscita temas políticos, morais e jurídico-constitucionais.

A exposição, acusada – seja por canalhice ou deseducação –, de apologia à pedofilia, zoofilia e profanação de símbolos religiosos, tinha por objetivo denunciar através da arte o preconceito sofrido pela comunidade LGBT. O próprio nome da mostra é sintomático da finalidade que se propunha a obter: a palavra queer foi, e ainda é, utilizada como termo pejorativo que visa a ofender aqueles que não se encaixam na heteronormatividade padrão vigente na sociedade brasileira, e a reapropriação orgulhosa da palavra pela minoria objetiva ressignificá-la em um contexto de liberdade. Acontece que, como é comum de tempos em tempos, o pânico moral de parcelas impressionáveis do povo tornou a tentativa de denunciar os males da opressão e a reinvindicação de igualdade em um verdadeiro turbilhão de sensacionalismo e retórica vazia.

A democracia é, vale sempre ressaltar, a livre convivência dos contrários. Constatando algumas obviedades: todos têm o direito à palavra, o direito à livre manifestação do pensamento e o direito à liberdade artística.

Apesar da Constituição prelecionar que o patrimônio artístico-cultural, sobretudo a arte fomentadora da memória dos diversos grupos que compõe o país, é protegida em nome do Estado Democrático de Direito, não notamos, na realidade, a viabilização desse escudo contra a intolerância que é a liberdade artística. Também aduz a Carta Magna que é objetivo da República Federativa do Brasil: "promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação".

Em bem verdade, é a própria criminalização da cultura que vemos nesse caso, inflamada por discursos irracionais de autoridades morais inaptas para integrar um debate construtivo e baseado na alteridade necessária para estimular o amadurecimento da democracia.

A ideologia reacionária, atentatória contra a alteridade e utilizada como fundamentação risível para justificar a censura à exposição, foi erigida por fundamentalistas que comunicam a inabalável certeza de terem encontrado o único e verdadeiro caminho para a moralidade. Nada mais perigoso do que certezas inabaláveis. Toda convicção irredutível revela o medo de viver em um mundo em mudança. Mas fato é que a mudança é a maior característica da modernidade. Ser moderno é estar em movimento, é conhecer cada vez mais e sempre achar-se em uma situação de ignorância, que é resolvida com base na capacidade de empatia, com base no poder existente em colocar-se no lugar do outro. As críticas e boicotes chefiados pelo MBL e com suporte dos setores conservadores radicais são, então, impertinentes, pois falham com o ideal de alteridade, essencial à concretização da plenitude da democracia.

Ademais, a onda de indignação dirigida à mostra é inoportuna do ponto de vista estético, pois desconsidera que a representação do objeto não é o objeto em si. Dessa forma, o escândalo causado, por exemplo, pela obra Cruzando Jesus Cristo com a Deusa Shiva é incompreensível do ponto de vista da teoria da arte, como explica o próprio artista, Fernando Baril:

"Era uma semana santa, e eu estava lendo sobre as santas indianas, então resolvi fazer uma cruza entre Jesus Cristo e a deusa Shiva. Deu aquele mundaréu de braços carregando só as porcarias que o Ocidente e a Igreja nos oferecem. Certa vez, Matisse fez uma exposição em Paris e, na mostra, tinha uma pintura de uma mulher completamente verde. Uma dama da sociedade parisiense disse 'desculpe, senhor Matisse, mas nunca vi uma mulher verde', ao que Matisse respondeu que aquilo não era uma mulher verde, mas uma pintura. Aquilo não é Jesus, é uma pintura. É a minha cabeça, ponto. Me sinto bem à vontade para pintar o que quiser." (Entrevista ao jornal Zero Hora)

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A arte é antídoto contra o enclausuramento das ideias novas, pois se baseia em uma transgressão dos dogmas instituídos pelos próprios indivíduos e pela sociedade – como a religião e a questão do gênero –, possibilitando a visão do quadro geral, ou mesmo incitando a destruição do quadro e um novo recomeço. O artista transgressor busca desafiar a essência autoritária da sociedade e o não reconhecimento dos indivíduos na mesma, a arte transgressora questiona o status quo vigente e é comprovadamente parte essencial da possibilidade de convívio humano.

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Pablo Picasso, sobre a conhecidíssima obra intitulada Guernica, diz: ‘’Não, não se pinta para decorar apartamentos. Ela é arma de ataque e defesa contra o inimigo.’’ Mudar é algo humano e conservar é um esforço constante de negar a humanidade. O inimigo de Picasso era todos aqueles que afrontavam o Estado Democrático no auge da Guerra Civil Espanhola. Nosso inimigo é o radicalismo obscurantista, nosso inimigo é a parte da nossa identidade que se recusa a mudar, que se atém a dogmas e a preconceitos. Minha luta é com o meu eu retrógrado, e minha aliada é a arte.


Guilherme Stabile

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