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Graziele Lima

A mistura inusitada do corpo humano com a tecnologia

Você já deve conhecer a prática de suspensão corporal, certo? Mas é pouco provável que já tenha visto um corpo com uma orelha no braço. E se esse corpo, além de ter uma terceira orelha, também fosse suspenso? Stelarc, artista que mistura anatomia, robótica e tecnologia digital, fez esse e outros experimentos.


O corpo humano é obsoleto, não é durável e nem muito eficiente. Centrado nessa ideia, o artista performático Stelios Arcadiou, conhecido como Stelarc, construiu sua carreira. Ele nasceu em 19 de junho de 1946, em Limassol, no Chipre, mesmo local de nascimento do cineasta Michael Cacoyannis e do tenista Marcos Baghdatis. Tem duas filhas: Nova e Astra, essa última está seguindo a mesma carreira que ele. É um artista futurista e suas artes são criadas através de instrumentos médicos, próteses, noções de robótica, realidade virtual, internet e biotecnologia.

Iniciou seus projetos em 1968 formando os primeiros ambientes de imersão virtual da história, com cubículos chamados de “Compartimentos Sensoriais”. Os espectadores usavam capacetes com lentes que dividiam os cubículos num labirinto de imagens, enquanto eram “atacados” por luzes, sons e movimentos.

Entre 1976 e 1988 ele fez 25 performances de suspensão corporal - muitas delas com suas invenções robóticas integradas. Já teve também seu próprio corpo controlado por estimuladores eletrônicos de músculos ligados a internet, onde os internautas eram responsáveis por dirigir os eletrodos conectados ao seu corpo.

PROJETOS E PERFORMANCES

EXOSKELETON

Consiste em uma máquina de passeio gigante, com seis pernas, parecidas com patas de aranha. Foi construída por Tom Diekmann, Stefan Doepner e Gwendolin Taube, sob o conceito criado por Stelarc. O aparelho tem um espaço giratório que possibilita ao operador da máquina dar voltas por si mesmo. Se move para frente, para trás, para os lados, agacha, levanta e até contrai as pernas. Os braços do corpo humano orientam os movimentos do aparelho.

ORELHA NO BRAÇO (EXTRA EAR, ¼ EAR ESCALE E EAR ON ARM)

Uma de suas performances mais famosas é o da orelha no braço. Sim, é isso mesmo: Stelarc implantou uma prótese de orelha em seu braço. O experimento iniciou-se em 1997 e o autor diz que sempre teve interesse nessa ideia de colocar uma prótese em si mesmo, modificando permanentemente a arquitetura de seu corpo. Em seu site oficial, o artista deixa claro que “a prótese não deve ser vista como um sinal de falta, mas como um sintoma do excesso”. Em vez de substituir algo que está faltando no corpo, seu projeto tem mais a ver com amplificar as funções corporais.

O experimento recebeu inicialmente o nome de “Extra Ear” (Orelha Extra) e era para ser implantada na frente da orelha direita, mas foi constatado que não era seguro porque pode desenvolver problemas nos nervos faciais e na mandíbula. O mais fácil, anatomicamente falando, era implantar a orelha no braço, pois a pele do antebraço é suave e se estende da forma planejada para receber o material como parte de sua própria anatomia.

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Para isso acontecer, ele precisou buscar ajuda médica. Claro que não foi fácil encontrar profissionais dispostos a ajuda-lo a implantar uma orelha extra em seu corpo, afinal, não era apenas uma simples cirurgia plástica ou reparadora. As seguintes etapas seriam necessárias:

  1. Colheita da cartilagem da caixa torácica;
  2. Entalhe da cartilagem em forma apropriada para fornecer a estrutura da orelha;
  3. Posicionamento da cartilagem sob a pele;
  4. Montar a forma da orelha (da maneira como ela fica ao lado da cabeça: afastada pela cartilagem);
  5. Cobrir o defeito da pele com um enxerto;
  6. Formar o lóbulo da orelha (com retalhos de peles do local, com o suporte de um pouco de cartilagem, para não atrofiar o lóbulo)

Os planos eram de construir a forma de orelha e o lóbulo entre quatro e seis meses depois de colocada a cartilagem na pele. O implante da cartilagem é algo delicado, pois exige anestesia geral. Mas há alternativas para seu uso como implantes de silicone ou outro material cirúrgico, como o Medpor (substância de polietileno poroso).

Em 2003 finalmente o processo de colocação da terceira orelha começou a dar os primeiros passos. Foi feita uma réplica em escala 1 por 4 da orelha de Stelarc (¼ ESCALE EAR), cultivada em laboratório, com células humanas. A incubadora se manteve em 37º C e nutrientes foram depositados na orelha a cada três ou quatro dias. Deu certo. A orelha cresceu e funcionou fora do corpo. É uma forma de vida parcial, metade construída e metade natural. Então, finalmente ela pôde ser colocada no braço (EAR ON ARM) em 2006. Até agora foram feitas duas cirurgias.

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Stelarc enfrentou alguns problemas durante o procedimento, como uma necrose na recuperação da primeira cirurgia. A segunda operação foi para inserir o Medpor e para implantar um microfone em miniatura no interior do ouvido - que no teste funcionou perfeitamente mas teve de ser removido, pois causou uma infecção. Para o futuro, há planos de reimplantar o microfone e de poder transmitir online o que a terceira orelha escuta.

Outra funcionalidade pretendida é que a orelha tenha um sistema bluetooth com um alto falante posicionado na boca de Stelarc. Assim, ao receber um telefonema, ele ouviria a voz da pessoa dentro de sua cabeça. Mantendo a boca fechada, só ele e mais ninguém poderia ouvir a voz.

Para o artista, implantar a orelha “seria interessante, mesmo sem qualquer uso utilitário”. A escolha do órgão não foi por acaso: “O ouvido é uma estrutura bonita e complexa. Na acupuntura, a orelha é o local para a estimulação dos órgãos do corpo. O ouvido não só ouve, mas também é o órgão do equilíbrio”, defende Stelarc. Vale ressaltar que em um de seus projetos de suspensão corporal com 16 ganchos, um deles foi colocado no braço da terceira orelha.

CABEÇA PROTÉTICA (PROSTHETIC HEAD)

É uma cabeça artificial com as características físicas de Stelarc, que conversa com as pessoas e possui movimentos iguais a de uma cabeça humana. Funciona com um sistema de sensores de ultrassom que captam a presença do espectador e com um sistema de visão capaz de detectar a cor da roupa e o comportamento da pessoa. De acordo com o site oficial de Stelarc, à medida que a cabeça vai captando novas informações, é quase impossível ao construtor conseguir controlar quais perguntas ela fará futuramente.

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A TERCEIRA MÃO ROBÓTICA (THIRD HAND)

Uma mão mecânica idêntica a humana, com um sistema de feedback tátil para dar sensação de toque, foi ligada ao braço direito de Stelarc. Feita de alumínio, aço inox, acrílico, látex, eletrodos, cabos e bateria, tem os movimentos controlados pelos sinais dos músculos. A mão foi feita em 1980, em Yokohama, baseada em um protótipo desenvolvido na Universidade de Waseda. Foi usada nas performances de Stelarc entre 1980 e 1998 no Japão, EUA, Europa e Austrália. É o objeto mais conhecido utilizado por ele.

Conheça mais projetos nesse link http://stelarc.org/?catID=20232


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