graziele lima

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Graziele Lima

As obras da Danse Macabre

As representações da Dança Macabra colocam a própria Morte como uma pessoa que conduz os mais diversos personagens à caminho de seus próprios túmulos.


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Refletir sobre o tema morte é algo que evitamos em nossa sociedade. Para propor que pensemos sobre o fim de nossas vidas, Caitlin Doughty, ex operadora de forno de crematório, formada em História Medieval e youtuber no canal Ask a Mortician, escreveu Confissões do Crematório. No livro, ela cita a Danse Macabre (Dança Macabra ou Dança da Morte), um gênero de representações artísticas que surgiu no final da Idade Média. A ideia por trás da Danse Macabre é de que não importa muito o que fazemos durante nossas vidas, quem somos, a qual classe social pertencemos ou com quem convivemos, porque no final a morte (ou a dança da morte) une a todos nós num mesmo lugar. A Igreja na época também participou com a propagação da ideia da Dança da Morte, lembrando aos fiéis de que o fim da vida sempre está presente.

Muitos acreditam que a primeira obra do movimento Danse Macabre tenha sido o mural feito em 1424 nas paredes do Cimitière des Innocents, em Paris, que foi destruído em 1669, nos deixando sem registros. A partir dessa pintura, Guyot Marchant, em 1485, publicou um poema ilustrado sobre a Dança Macabra, com gravuras similares à original pintada em Paris, sofrendo poucas modificações, como por exemplo, nas roupas - para seguir o código da moda vigente.

amortelevaatodosnós - imagemdolivrode86deguy.jpg Uma das imagens presentes no livro de Guyot Marchant

amortelevaatodosnósinclusivecriancasinocentes - imagemdolivrode86deguy.jpg A morte um dia levará todos nós, inclusive crianças inocentes (obra de Guyot Marchant)

Você pode ver imagens e poemas da segunda publicação da obra de Marchant, de 1486, nesse link.

As representações da Dança da Morte colocam a própria Morte como uma pessoa ao lado dos mais diversos personagens: papas, clérigos, reis, camponeses e crianças. Esses personagens sempre estão indo à caminho de seus próprios túmulos, guiados pelo esqueleto. As manifestações artísticas que mostravam a morte como uma grande dança começaram a serem feitas após o impacto da pandemia da Peste Negra. Depois de tantas mortes, nada mais natural que as pessoas refletissem sobre quão frágil é a vida como a conhecemos e que o fim de nossas vidas está a apenas alguns passos de distância. As obras da Danse Macabre passam exatamente essa mensagem: nossa vida é passageira.

Alguns exemplos de obras inspiradas no gênero da Dança da Morte

A música Danse Macabre, criada por Camille Saint-Saëns, foi composta em 1874 e teve sua estreia em 24 de janeiro de 1875, em Paris. O musical mostra a Morte tocando violino num festim que se inicia à meia noite (som feito pela harpa e pelas trompas). Vários esqueletos dançam no baile, representados pelo xilofone. O término da festa é com o canto do galo, representado pelo som do oboé. A música foi baseada em um poema de Henri Cazalis, sob o pseudônimo de Jean Lahor, que leva o mesmo título da música.

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Um escritor que se inspirou na Dança Macabra foi Edgar Allan Poe. Ele a representou muito bem em seu conto “A Máscara da Morte Vermelha”. Nele, uma pandemia chamada Morte Vermelha assolava a nação. O Príncipe do lugar, chamado Próspero, vivia separado dos doentes, em um mosteiro. Para não ficar sozinho, convidou um milhar de amigos saudáveis para viverem com ele. O local era seguro: circundado de uma muralha com portões de ferro. Dentro do palácio, eles viviam em riqueza abundante. “Lá dentro, tudo isso mais segurança. Lá fora, a Morte Vermelha“, como nos conta o próprio Poe. Depois de seis meses de reclusão, o Príncipe decidiu dar aos seus acompanhantes um baile de máscaras. No meio do divertimento, da mistura da riqueza com o macabro, surge ela: a morte, com mascara vermelha. Um a um os presentes na festa foram morrendo, levados pelo estranho folião.

a-mascara-morte-vermelha-harry-clarke-cim-tordesilhas.jpg Ilustração feita por Harry Clarke para ilustrar o conto de Poe, presente no livro Contos de Imaginação e Mistério - Edgar Allan Poe, publicado pela Editora Tordesilhas.

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The Skeleton Dance é um curta de 1929, feito por Walt Disney, para a abertura das Silly Symphonies – um projeto com 75 curtas-metragens. The Skeleton Dance também foi baseado no poema de Henri Cazalis.

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A obra Danse Macabre, feita por Bernt Notke em uma igreja em Lübeck, é uma das mais conhecidas. Esse trabalho foi destruído nos bombardeios da Segunda Guerra Mundial, mas partes do original estão guardados na Igreja de São Nicolau, em Tallinn.

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As obras de Danse Macabre feitas pelo desenhista inglês Thomas Rowlandson no início do século XIX refletiam a sociedade da época.

dansemacabre2.jpg The dance of death: the honeymoon, ilustração de T. Rowlandson, 1816


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