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Graziele Lima

Cirurgias plásticas sem objetivos estéticos: conheça a arte de Orlan

Orlan é uma artista completa: faz esculturas, fotografias e usa seu próprio corpo como base para cirurgias plásticas com objetivo artístico. Ela guarda todas as sobras de suas cirurgias. Isso mesmo, ela guarda as partes de seu corpo (pele, carne e até gordura) para si e mais tarde as inclui em suas exposições.


imagem inicial - a artista orlan.jpg A artista performática Orlan

A maioria das performances artísticas são feitas para chocar o público, afinal, o papel da arte é causar alguma emoção em seu espectador. Entre pessoas que usam seu próprio corpo como uma tela em branco para criar arte, podemos citar Stelarc e o casal Lady Jaye Breyer e P-Orridge, sobre os quais já escrevi aqui na obvious. Hoje trago uma artista francesa, talvez já conhecida de vocês: Orlan. Seu corpo é instrumento para criar obras que unem técnicas científicas e médicas. A liberdade é um norteador de seu trabalho, permitindo que ela se oponha ao que é pré-determinado social e politicamente, se posicionando contra “todas as formas de dominação, supremacia masculina, religião, segregação cultural e racismo”, como consta na biografia de seu site oficial.

Ela é uma artista completa, cria esculturas, faz fotografias, performances, vídeos, realidade aumentada. Como ela própria definiu em um manifesto de 1989, faz "arte carnal”, muitas vezes com ajuda de cirurgias com objetivos performáticos, como aconteceu entre os anos de 1990 e 1995. Na época, ela passou por nove cirurgias plásticas que compuseram uma obra com o nome de “La Ré-Incarnation de Sainte Orlan” (A Reencarnação de Santa Orlan). Inspirada por ícones históricos como Diana, Vênus, Psique, Europa e Mona Lisa, Orlan começou uma sequencia de cirurgias que modificaram seu queixo (para ficar parecido com o da Vênus de Botticelli), testa (inspirada em Mona Lisa), boca (imitando a de Europa, de François Boucher) e outras partes do corpo. Nas operações, ela ficou consciente, ainda que anestesiada, e interpretou teatralmente, leu textos, desenhou com seu próprio sangue, acompanhada de cenários, música ambiente e de roupas feitas por estilistas como Paco Rabanne e Issey Miyake. Numa das cirurgias, ela vestiu-se da deusa-mãe da mitologia, conhecida como Madonna, carregando na mão direita uma cruz preta e na esquerda uma cruz branca. Médicos e enfermeiros também usaram fantasias, entrando não só com a medicina, mas também como personagens nessas histórias.

O envolvimento com cirurgias de Orlan começou bem antes de suas performances, mais especificamente em 1978, quando teve que fazer uma operação com caráter de urgência por questões de saúde. A artista se preparava para a apresentação de um seminário, quando passou mal e teve que ser internada às pressas em um hospital. Descobriu que tinha uma gravidez ectópica (quando o feto se desenvolve fora do útero) e precisou passar por uma operação para salvar a própria vida. Então, ela decidiu que filmaria tudo isso, enquanto se propôs a ficar sem o uso de anestesia, permanecendo consciente por todo o tempo. Mais tarde, ela descreveria esse momento:

“Daquela vez, foi uma urgência. Tratava-se de um corpo doente, um corpo que necessitava de tratamento. Os médicos tiveram quarenta minutos para agir antes que eu morresse. Eu tive uma gravidez extrauterina. Eu tinha me preparado demais para o festival; fazia questão de ver tudo o que os artistas que eu havia convidado fariam, e tudo ruiu em um piscar de olhos. Mas ainda assim, eu tive a presença de espírito de pedir que pusessem uma câmara no bloco operatório, e todas as vezes que um vídeo era gravado, ele era mostrado no festival como se fosse uma performance programada”.

A própria artista defende que seu objetivo com as cirurgias que se submete, não é alcançar beleza e sim desafiar os padrões impostos. Passar pelos procedimentos de forma consciente também não é questão de masoquismo e sim por crença na ciência e na morfina - que possibilita que não se sinta dor (muito embora, em uma das cirurgias que envolvia a bochecha, a artista tenha escolhido não falar durante a operação, por ser uma parte delicada). Ela busca padrões não ocidentais de beleza e se inspira em mulheres de culturas como a africana.

As cirurgias

A cirurgiã Marjorie Cramer, com quem Orlan fez o maior número possível de cirurgias, era uma feminista. Isso acabou por libertar a própria artista de ter que passar apenas por cirurgiões do sexo masculino, dando a impressão de que precisava sempre passar pela autorização de um homem para realizar as cirurgias.

Omniprésence

Uma das cirurgias mais fundamentais para se alcançar a nova Santa Orlan, que estava para nascer, foi a do dia 21 de novembro 1993. Pela primeira vez, a intervenção não foi feita na França e sim em Nova Iorque. Foi transmitida ao vivo por satélite em Paris (centro G.Pompidou), Nova Iorque (Sandra Gering Gallery) no Multimedia Center Banff (Canadá) e centro de McLuhan em Toronto.

imagem2 - depoisdaoperaçãodaimg1.jpg Orlan na 7ª cirurgia, chamada de “Omniprésence”, feita em 21 de Novembro de 1993, em Nova Iorque

Sobre a Arte Carnal

Como a própria Orlan afirma, contrariando a "Arte do Corpo", sua “Arte Carnal” não tem na dor um meio de redenção. Esse tipo de arte busca a modificação corporal como meio de confrontar os debates públicos. "Meu trabalho não é uma posição contra a cirurgia estética, mas contra os padrões da beleza, contra os ditames de uma ideologia dominante que se imprime cada vez mais na carne feminina”, define a artista. Apesar disso, a Arte Carnal não se opõe às cirurgias estéticas – mas questiona os motivos que nos levam a submeter nossos corpos à esse tipo de operação, como as pressões sociais pelas quais passamos. Orlan foi a primeira artista que usou a cirurgia plástica sem ter objetivos estéticos (embelezamento ou rejuvenescimento). Através da Arte Carnal, Orlan procura ligar o seu interior com o seu exterior. "Eu posso observar meu próprio corpo aberto, sem sofrer" foi dito por ela em seu “Manifesto da Arte Carnal” e levado como regra em suas cirurgias.

orlan img3.jpg Em uma performance cirúrgica no ano de 1993

Conheça suas outras artes em: http://www.orlan.eu/


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