Roxane Teixeira

Jornalista, escritora e fã de livros. Dizem que se mudou para a Suíça por um grande amor, mas pode ter sido pelo chocolate.

Certezas de vidro

Ali Shaw surpreende ao utilizar elementos do fantástico em romances psicológicos. Na contramão de autores que usam a fantasia para tecer uma fuga da realidade, Shaw mescla magia e realismo para investigar a inevitabilidade das coisas. Em “A garota dos pés de vidro”, sua obra mais famosa, somos levados a refletir sobre o quanto sabemos sobre o outro, o mundo, a vida. E, pelas mãos hábeis do escritor, descobrimos a resposta: pouco. Bem pouco.


Garota pes de vidro 1.jpg Apaixonado por livros, o autor trabalhou como bibliotecário e vendedor em uma livraria antes de publicar seu primeiro romance

O corpo da jovem Ida Maclaird está virando vidro. Desesperada por uma cura, a moça viaja à misteriosa ilha St. Hauda’s Land – local em que esteve meses antes, e onde ouviu algo sobre pessoas vitrificadas em um fundo de pântano. Nessa terra fantástica, lar de um minúsculo gado com asas de borboleta e de uma fera albina capaz de transformar tudo o que vê em branco puro, Ida conhece Midas Crook. Fotógrafo e pesquisador, o rapaz é grande conhecedor da região, e logo os dois seguem juntos a pista do conhecedor de corpos de vidro, do qual sabem apenas o nome: Henry Fuwa. Midas e Ida correm contra o tempo, pois a doença da garota se alastra depressa. E, ao buscarem uma solução para o misterioso processo, descobrem o amor. Esse é o fio condutor de “A garota dos pés de vidro”, o sensível debut do britânico Ali Shaw. Engana-se, no entanto, quem acredita tratar-se de um livro romântico: o autor usa o relacionamento de seus protagonistas para fazer investigações psicológicas, e sua ficção oscila entre as estéticas do realismo fantástico e dos contos de fadas.

Garota pes de vidro 2.jpg Algumas capas do livro em inglês e a versão coreana. Sucesso em diversos países, a obra ganhou o Desmond Elliot Prize, prêmio de maior prestígio na Grã-Bretanha para novos autores

Shaw faz uma utilização interessante dos elementos de fantasia em sua obra. A magia da ilha é, em suas mãos, um instrumento para mostrar que o mundo é extraordinário e, apesar de nossas certezas, nós não sabemos de nada – sobre a realidade à nossa volta ou sobre as pessoas amadas. Ao abordar essa questão, o escritor tece uma bonita história paralela, sobre o envolvimento de Henry Fuwa e a mãe de Midas. O jovem descobre que sua mãe, assustada e dócil perante um marido violento, esconde tantos segredos quanto a terra mágica por ela habitada.

Garota pes de vidro 3.jpg Quando tem dificuldades para escrever, o autor desenha cenas e personagens de sua história – e ele garante que as imagens o ajudam a continuar. Aqui, o gado com asa de borboleta. Mais ilustrações disponíveis em alishaw.co.uk

Trilhando seu caminho com uma jovem sobrenatural e descobrindo novas facetas de sua família, Midas Crook começa a perceber que as pessoas são cheias de segredos e a vida, de mistérios. Entretanto, por ser guiado pelas emoções, o melancólico Midas tem dificuldades em aceitar tudo isso. Ida, no entanto, é uma mulher bastante prática. Ela vê seus pés de vidro e seus tornozelos ficando mais transparentes; vivencia o processo a cada dia, apesar de não entender como isso acontece. Ida aceita o fato de sabermos tão pouco, porque ela vive o mistério:

“Estava aceitando isso agora: que algumas coisas ficariam para trás. A vida agora seria uma aventura da mente, e talvez de alguma parte de seu corpo ainda não afetada, algo interior”.

Garota pes de vidro 4.jpg As versões traduzidas para o português. No Brasil, “A garota” é publicada pela Leya. Já “A rapariga” portuguesa vai às prensas pela editora Guerra e Paz

Apesar da personalidade resoluta de Ida, há uma melancolia onipresente na narrativa. O autor é hábil em revisitar a lembrança de que a doença está se alastrando, e ninguém sabe como lidar com isso. Há momentos de romance e situações de alegria, mas o fantasma do inevitável segue o casal por todo o livro, conferindo grande delicadeza à obra. Extremamente poética, a prosa de Shaw é sutil, e sua releitura do mundo como lar do maravilhoso nos faz repensar nossas certezas, até a última página.

O livro termina incômodo: sentimos saber menos sobre a vida agora do que antes de iniciarmos sua leitura. Mas o autor permite que nos agarremos a algumas certezas: o tempo passa depressa e a morte não falha. E, no entanto, caminhar vale a pena, pois a jornada é poesia.


Roxane Teixeira

Jornalista, escritora e fã de livros. Dizem que se mudou para a Suíça por um grande amor, mas pode ter sido pelo chocolate. .
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