Roxane Teixeira

Jornalista, escritora e fã de livros. Dizem que se mudou para a Suíça por um grande amor, mas pode ter sido pelo chocolate.

Debate filosófico camuflado em livro teen

Não dá para julgar um livro pela capa – e, às vezes, nem pelo gênero. Publicado sob a despretensiosa alcunha de “literatura juvenil”, “Gênesis”, de Bernard Beckett, é uma aula de filosofia e instiga questionamentos sobre inteligência artificial, ética e livre-arbítrio.


obvious 4.jpg Autor de onze romances e mais de trinta peças teatrais, o escritor é considerado um tesouro cultural da Nova Zelândia

O que nos torna humanos? O que é consciência? Quais são os limites da humanidade? Essas são as questões centrais de “Gênesis”, um romance que transita livremente entre a ficção científica e a filosofia.

Toda a trama ocorre em um período de quatro horas – pois essa é a duração do exame de admissão da Academia, o maior templo do conhecimento na isolada sociedade da protagonista, a jovem Anaximandra. A narrativa se desenrola conforme a estudante expõe sua pesquisa à banca examinadora, e é através do diálogo entre mestres e aspirante, que passamos a conhecer a história do mundo distópico em que eles vivem.

Descobrimos que o século 21 terminou caótico, com guerras globais que dizimaram milhões. E grande parte dos sobreviventes, empobrecidos e sem infraestrutura, foram assolados por uma nova peste. A humanidade definhava, e havia uma única esperança: uma ilha isolada, ainda sem contato com a doença. O lugar passará a ser o último refúgio da civilização, e para mantê-lo seguro, a pequena coletividade ali formada opta por bloquear todo e qualquer contato com o mundo exterior.

obvious genesis.jpg Detalhe do livro traduzido para o português do Brasil e publicado pela editora Intrínseca

Tudo muda quando o soldado Adam Forde – cuja vida é o objeto de pesquisa da protagonista – opta por salvar uma garota que se aproxima da ilha, apesar da ordem para matar qualquer um que tentasse cruzar a fronteira. Como punição, Adam é preso e obrigado a participar de um programa envolvendo inteligência artificial. Ele passa seus dias em uma cela com o androide Art, para que suas interações sejam documentadas. E aqui a obra dá seu grande salto da ficção científica juvenil para a filosofia.

As conversas entre Adam e Art, replicadas por Anax como parte de sua prova, são talhadas seguindo o método socrático. Como explica Viviane Mosé, no livro “O Homem que Sabe”, a dialética de Sócrates funciona “por meio de um jogo de perguntas, [em que] ele vai, de contradição em contradição, levando o oponente a assumir que não sabe”. Em “Gênesis”, vemos esse jogo em ação duas vezes, trazendo dois grandes questionamentos à mesa.

O primeiro a colocar-se como Sócrates é Art, o robô dotado de formidável inteligência artificial. Em seus contatos iniciais com o rebelde Adam, é clara a recusa do humano em travar diálogos mais profundos com um androide – um ser construído e, portanto, desnudo de consciência. Mas Adam é pego na teia do robô. Ao ser repetidamente questionado por Art, o homem se vê forçado a admitir que sua forma de pensar é repleta de incongruências, o que o obriga a rever conceitos fundamentais sobre a civilização. Encarcerado, exausto e não mais seguro de si, o humano exclama: “Eu não sei o que significa ser consciente. Você abalou minha certeza”.

obvious 2.jpg "Gênesis" já foi traduzido para mais de vinte idiomas

Outra forma de ligar a dialética socrática ao romance se dá quando consideramos a estrutura do exame de Anax. A garota está preparada com hologramas e dados históricos, e sabe que será questionada a respeito de suas explanações. O que ela não imagina, no entanto, é que as perguntas se mostrarão muito mais filosóficas do que técnicas, fazendo-a repensar seus conceitos sobre verdade, dominação, poder e, acima de tudo, sobre humanidade.

Esses dois diálogos na estrutura socrática – Art x Adam e Anax x Examinadores – são o carro-chefe do romance. Mas a mescla de ficção e filosofia também aparece em outros pontos. Está no discurso dos intelectuais, quando asseguram que “Sabemos como construir uma mente, é verdade, mas ainda estamos muito longe de compreendê-la [...] A mente não é uma máquina, é uma Ideia”. Está nos segredos da Academia, que, quando finalmente decifrados, provocam sobre as noções de verdade e história. Está na escolha dos pensadores gregos que nomeiam os personagens principais. E, por fim, está na surpreendente conclusão do livro, que leva o leitor a enxergar no autor mais um Sócrates. Com técnica e alguma ironia, ele termina sua história obrigando-nos a repensar a obra – desta vez, libertos de nossos preconceitos e prontos a redescobrirmos o que já julgávamos saber.


Roxane Teixeira

Jornalista, escritora e fã de livros. Dizem que se mudou para a Suíça por um grande amor, mas pode ter sido pelo chocolate. .
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